sábado, 5 de abril de 2025

Figos-da-índia, pardais e castores

 


    A viagem a Ushuaia e a El Calfate foi tão impactante que já se passaram alguns dias, continuo a olhar as fotos e a sentir as emoções que aqueles lugares me provocaram. Ali mergulhei em verdades apenas imaginadas.

            O que vi e vivi fez-me voltar a ler o livro Nação das Plantas de Stefano Mancuso. Ele expõe a relação entre diferentes plantas, insetos e animais, formando sistemas. Por sua vez, há a existência de íntima relação entre os diferentes sistemas, formando uma única rede de relações que recobre o planeta. Quando um dos elementos é eliminado, toda a rede sofre alterações, como numa rede de pesca. Se ali é feito um furo a alteração é pequena, mas à medida que mais furos possam ocorrer, inviabilizaria a pesca. Assim é com a camada de águas, terras, vegetação, insetos e animais que recobre a Terra. O que havia entendido lendo, meus olhos, ouvidos e arrepios pelo corpo compreenderam ao testemunhar a queda de blocos de gelo a poucos metros à nossa frente na proa do barco. Num jato, vieram-se as imagens da poluição na cidade onde vivo. E as de muitas partes do mundo. Cenas distantes e, ao mesmo tempo, conectadas. Tudo está conectado.

            Mancuso, o neurobiólogo vegetal, ilumina a experiência física e emocional que ali experienciei. Rico em exemplos de ações desastradas do homem ao longo do tempo, desde a importação do figo-da-índia com a cochonilha (inseto ali incrustado e que produz a cor) na Austrália no século XVII – para a produção de pigmento vermelho necessário aos uniformes dos militares da Inglaterra –, à eliminação dos pardais que devastavam os arrozais na década de 1950 na China. Ambos os experimentos alteraram os sistemas existentes com consequências desastrosas. Darwin já escrevia a respeito da existência de sistemas naturais no séc. XIX na sua teoria da evolução das espécies. Disseram-nos que ele teria navegado pelo Canal de Beagle.

            O que a ciência nos mostra há muito tempo continua sendo ignorado e pudemos vê-lo nos abrigos dos castores no Parque Nacional Tierra del Fuego, foram indevidamente introduzidos do Canadá, sem a existência de um predador natural (o urso), por isso reproduzem-se incontroladamente, criando um sério problema na cadeia alimentar.

            Testemunhamos o desprendimento de blocos dos Glaciares de Upsala e Spegazzini, belíssimo espetáculo, apesar de tristes as suas causas. O Glaciar Perito Moreno, sem a ponte de gelo que o unia à terra, caído em 2018. Sua imponência provocou múltiplos e profundos sentimentos, inclusive o de alegria por saber que se mantém estável desde aquele ano. Sabemos, no entanto, que os perigos continuam com a insanidade de quem exerce poder no mundo e nega os efeitos da elevação da temperatura global por nosso modo de viver.

            Para quem faz esta viagem e mora numa cidade, pequena ou grande, é entrar noutro mundo mesmo que tenha acessado suas imagens. Vimos um território limpo (cada um leva consigo o que precisa descartar), o ar é puro, o silêncio nos permite ouvir a queda de um bloco de gelo a centenas de metros de distância (mesmo o rumor das águas depois que o bloco mergulhou). A cor das águas é intensa (o azul turquesa nos faz duvidar do que vemos), a vegetação é de tonalidades opacas nas zonas muito secas, mas explode em amarelo, dourado, marrom no outono onde as chuvas ocorrem. Enfim, vivemos as relações entre plantas, insetos, animais, temperatura, água, ações do ser humano que Mancuso explica de modo exaustivo e apaixonadamente.

            Finalmente, a experiência vivida durante uma semana propiciou-me outra grata relação. Para mim, esta viagem só foi possível, porque em grupo. As sensações foram únicas para cada pessoa, mas houve trocas e elas ampliaram o sentido da experiência. Tudo transcorreu com tranquilidade e segurança, porque alguém havia organizado os roteiros com o acompanhamento da guia que nos informava, nos orientava e nos seguia. A convivência foi maior entre algumas pessoas, como é previsível num grupo de dezenas de pessoas, mas foi um grupo harmônico e empático. Enfim, foi uma experiência humana prazerosa, trago lembranças de um tempo especial onde muito boas energias circularam. Um exemplo de sistema harmônico entre humanos, circulando através de vários outros sistemas. Poderia não ter ocorrido.

            Encerro com a questão: se todos pudessem sair de seus lugares e para viver uma experiência como essa, o mundo poderia ser melhor?

 

2 comentários:

  1. Rosa. Adorei teu texto tão verdadeiro. Essa incrível experiência será inesquecível. Levo comigo as imagens lindas e as constatações. de como devemos cuidar do planeta. A natureza é sábia mas os humanos não são. Pequena parcela da humanidade se dedica a preservar o que ainda temos. E paraísos como a Tierra del Fuego e Província de Santa Cruz são o claro exemplo de que toda ação no planeta atinge os mais remotos lugares. Parabéns pelo texto, muito sensível e tocante..

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  2. ADOREI TUA CRÔNICA!!! PENSO SIM!! SABES, AO LER ...ENTREI NA TUA VIAGEM!!! ESPERANÇA MINHA CARA AMIGA!!! ABRAÇO 🤗.

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