Leio um livro e
encontro uma frase que me faz parar como no vermelho de uma sinaleira. Ela me
chama para escrever, não diretamente sobre o tema lido, mas sobre algo que foi
despertado a partir daquelas palavras. A personagem fala sobre seu sentimento
diante do enterro da mãe e surge-me a ideia de escrever um conto sobre a morte
recente de uma amiga querida.
Depois, o
pensamento pula sobre possíveis pontos de partida. Começar pela tristeza e
vazio que substituíram a presença da amiga? Pelas recordações que permaneceram?
Pela gratidão pelos anos de convivência? Pelo desejo de escrever sobre ela?
Os pontos de
partida são os atletas à espera do sinal para iniciar a corrida. Uma ideia será
a primeira. As outras não são descartadas necessariamente, disputam também
espaço para serem registradas, a vencedora é o começo, mas outras que nem
existiam no início juntam-se na trajetória, são aquelas enraizadas em
sentimentos mais fortes, em histórias que se juntaram à sua própria história,
como os nutrientes da terra que fazem germinar as flores do campo. As flores
colhidas são as palavras, as frases, formam o texto que preenche linhas e
laudas, como os ramos de flores juntam-se dentro de um vaso.
Flores, palavras,
nutrientes, pensamentos, terra, emoções, ventos, tensões, luz, decisões em
resposta ao desafio no jogo do escritor de criar uma história, uma poesia, uma
narrativa, uma memória, tudo o que constrói o ser humano, ou seja, os movimentos
ininterruptos constitutivos da própria maneira de viver de cada um de nós.
A escrita alavancada
na palavra de outro, na página que não a própria, num livro que gostaria de ter
escrito. Ler é fonte contínua de inspiração, de ligar a chave da corrente de
onde brotarão as próprias ideias e palavras. No entanto, existem outras fontes,
elas estão por toda a parte cutucando a sensibilidade de quem escreve. O mundo
ao redor é uma mineira com inesgotáveis filões. O que acontece é que, às vezes,
os olhos estão embaçados ou os sentidos anestesiados, e não os reconhecem.
O conto sobre
minha amiga poderia ter um início a partir do momento em que passei de táxi
pelo cruzamento com a rua onde ela morava. “Ela já não está mais aí, a rua
deixou de ter importância.”
Um colar recebido
no aniversário de muitos anos atrás, e encontrado na arrumação do armário,
trouxe a cena de um tempo com esperanças, embora turbulento na política do
país. O conto poderia iniciar ali, com contraponto do que se realizou e do que
se perdeu.
Um telefonema de uma amiga comum
desencadeou sentimentos ligados a um carnaval junto a grupo de amigos e alguns
segredos compartilhados, um tributo à amizade de tantas décadas. Poderia ser
outro começo.
Tenho que escolher
o início, sem o primeiro passo não haverá história. Este é um dos momentos
cruciais, a abertura de um caminho, ou caminhos. É preciso decidir. Escolhas
para continuar se apresentarão ao longo da narrativa, um espectro de ideias,
combinações possíveis.
Vou deixar o que
escrevi em banho-maria, um tempo de espera também faz parte da escrita. Talvez
escreva algo completamente diferente do que pensei até agora.
A eterna batalha de se colocar em palavras sensações, emoções, faltas e saudades… muito bom, Rosa!
ResponderExcluirMe esclareceu mesmo o que te perguntei. Obrigada e continua com este olhar e pensamento atentos ao mundo que nos rodeia.
ResponderExcluirComentei mas não apareceu aqui
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