terça-feira, 16 de junho de 2026

As sementes foram preservadas


 

Ler o livro M – La fine e il Principio de Antonio Scurati é ter uma tela aberta para ampliar o entendimento sobre o tempo presente vivido no Brasil enraizado no papel e privilégios das Forças Armadas, na existência de forças políticas de direita e extrema-direita durante a ditadura civil militar.

Ao final da guerra, com a vitória das forças antifascistas, a morte do fascismo e o estabelecimento de um estado democrático através de um governo com representantes das grandes forças que lutaram na resistência, o comunismo, o socialismo e a democracia cristã, a sociedade italiana acreditou que o passado fora vencido e o futuro era uma estrada a ser percorrida com sua capacidade de trabalho e sem obstáculos. Mesmo assim, muitos italianos emigraram por medo de nova guerra mundial, quando eclodiu a guerra na Coréia poucos anos depois e boatos de novo perigo para a Europa.

No entanto, o fascismo na Itália não fora exterminado, mesmo com a morte de Mussolini e de alguns de seus comparsas, porque muitas sementes sobreviveram. Alguns dos fascistas mais próximos a Mussolini fugiram para a Argentina, Brasil e outros países. E outros não foram devidamente responsabilizados e punidos pelo novo governo. Foi o grande erro na história do país. E eles frutificaram e se infiltraram nas instituições do país e reapareceram legalmente em partidos, alguns se elegeram e hoje governam o país. É o que nos conta Scurati em cinco volumes sobre o fascismo, mas mais especificamente os últimos meses da República de Salò, no livro citado, com governo fantoche de Mussolini no norte do país e mantido pelos nazistas em retirada. Este foi o período menos descrito pelos historiadores, segundo o escritor, mas o mais cruel, onde atrocidades foram cometidas pelos sequazes do ditador, que culminaram com o seu justiçamento numa praça de Milão.

No Brasil, o fim da ditadura ocorreu com atos do próprio governo Figueiredo, que aprovou a Lei da Anistia em 1979, concedendo relativo perdão político a opositores do regime entre 1961 até aquele mesmo ano, mas, em contrapartida, a medida também protegia militares envolvidos em assassinatos e torturas. Este perdão aos torturadores foi a preservação das sementes que frutificam até hoje dentro de uma ordem institucional continuamente solapada. Foi o nosso erro, ou apenas o que foi possível na época.

Nem uma nova Constituição em 1988 conseguiu livrar o país do ressurgimento das mesmas forças autoritárias vencedoras em 1964, com o agravante de se apresentarem com novas roupagens, com novas formas de poder, mas com o mesmo apoio da imprensa tradicional que sustentou o golpe naquele ano, e num contexto mundial de reorganização da extrema-direita.

O livro de Scurati conecta-se com as análises sobre a história brasileira e amplia as lentes para compreender o que se passou e o que precisa ser feito para enfrentar o que ocorre em nossos dias. É ainda necessário falar sobre o que aconteceu, não podemos esquecer.

Obs. - Este quinto volume ainda não foi traduzido para o português, mas acredito que logo o será.

3 comentários:

  1. Maria Rosa Fontebasso, com seu olhar amplo nos enriquece.
    Olha o Brasil ! Olha o Mundo!!
    História viva!
    Na Luta! Abraço 🤗.

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  2. Sempre atenta e generosa, compartilhando compreensoes e informacoes, com sua escrita fluida e pontual.

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  3. Nem sabia desses livros, Maria Rosa, e é muito importante ter esse tipo de informação: seus comentários já me acrescentaram conhecimentos que desconhecia. Estou como você, procurando compreender o mundo, e atualmente tá difícil de entender como, ao invés de chegarmos à tão esperada "era de aquário", chegamos a este ressurgimento do espírito fascista que estamos assistindo. Muito boa a sua contribuição neste momento. Abraços.

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