sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Conversas no ar


Acabo de ler uma crônica de minha amiga escritora Maria Avelina Gastal. Consigo ler quase todas as que ela publica em seu sito. Elas me fazem conversar com o que escreve. Algumas me fazem chorar, outras me fazem pensar mais longe, outras me fazem rir – estas menos frequentes.

            Num dos textos, Avelina se propunha a ser mais leve, apesar de todo o tormento que vivemos no país. O interessante é que faz dias que penso nos meus últimos escritos publicados no blog. Eles são tristes, porque não consigo desapegar do que se vive. A dor do outro é também minha. Sou grata pela minha situação e isto me faz lembrar de quem está frágil e desprotegido.  Então, vi nas palavras de minha amiga um mesmo apelo. Não é qualquer apelo, é pensamento que cruza com meu pensamento e se identifica. É comunhão de expectativas que brotam do mesmo desejo de um mundo melhor, e chora, e se indigna, e denuncia com os mesmos motivos. Só a combinação de palavras que usamos é diversa.

            Foi justamente esta conexão que me fez resgatar uma ideia guardada há muito tempo. A ideia de rompimento. As grandes transformações históricas não ocorreram de repente. As suas raízes foram plantadas no período anterior e se fizeram vivas em pequenas e, depois, em grandes rachaduras nas diferentes narrativas. Foram acontecimentos que foram abalando aqui e ali, esparramando-se sobre os fundamentos dos conceitos e das crenças aceitos  pela sociedade. Os impérios caíram aos poucos. As artes estão cheias de rompimentos. Alguns exemplos me fascinaram e volto a eles sempre que a desesperança grita mais alto. Voltei-me para as artes.

            Foi numa viagem a Assisi há alguns anos, que ouvi pela primeira vez o que representou Giotto para a arte no século XIV. Ele pintou o corpo morto de Jesus de forma vertical, mas com as pernas dobradas que fazem sentir o seu peso e, com isso, tornou a imagem mais humana e popular. Introduziu o sentido do espaço, do volume e da cor. Até então, as representações eram retas e estáticas. Este pintor provocou a revolução nas artes que antecipou a época do humanismo e do Renascimento.

            Na história da música, há o exemplo de Paganini, nascido em 1782. Ele revolucionou a arte de tocar violino, instrumento cujas raízes são milenares, mas os primeiros instrumentos foram construídos entre o final do séc. XVI e meados do séc. XVII. Serviu de inspiração a Brahms e Rachmaninoff.

            Baudelaire, no século XIX, poeta que buscou uma nova maneira de fazer poesia nas imagens cotidianas, na realidade concreta. A sua maneira de encarar a arte tornou-o precursor dos poetas do final do séc. XIX. Seu livro de cem poemas As Flores do Mal foi inicialmente censurado e sofreu rejeição da sociedade.

            E.T.A. Hoffmann, também no final do século XIX, influenciou a literatura posterior a ele com sua produção fantástica. Misturando as fronteiras entre ficção e realidade, temas de fantasia e horror, reflexão filosófica. Sua originalidade sofreu críticas fortes, como costuma acontecer com o inusitado em qualquer tempo e sociedade, mas não deixou de ser um marco para mudanças na literatura.

            Neste mergulho sobre uns exemplos de erupções artísticas de outras épocas, busco algum alívio para poder me reabastecer de energia e continuar a resistir às notícias terríveis de abandono do governo de seus deveres com a saúde pública. E suas dramáticas consequências.

            Não dá para ser leve no momento, mas é possível pensar e desejar que haverá uma reação em algum lugar. Tanta coisa imprevisível aconteceu, só depois é que foram identificados os sinais de seu surgimento. Recuperar fios de esperança é fundamental. E também compartilhá-los com os outros. O peso do absurdo e da crueldade precisa ser aliviado e as artes são uma fonte inesgotável de ajuda. As artes são sempre testemunhas do seu tempo e campo de criatividade e contestação. Por isso mesmo, os artistas são atacados por governos autoritários como o que está atualmente acontecendo no país.

            Quero, no entanto, voltar a leveza da esperança nos rompimentos nas artes que a história nos oferece. A política tem suas próprias regras, mas vários sinais estão surgindo. Há muitas conversas no ar.

           

           

 

 

 

 

 

 

           


2 comentários:

  1. Maria Rosa, a arte em si é coisa inútil. Não precisas dela para comer, vestir-se, abrigar-se, comunicar-se. Usam dela os governos, para influenciar, vender mais, até para coibir comportamentos. Quanto mais burro, mesquinho e autoritário o governo, mais medo tem da arte, que embora inútil em dia, pode sim comover, convencer, organizar e ajudar a derrubar governo. Eles usam a arte enquanto lhes convém e são atentos quando ela os ataca. Parece.

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  2. A Arte é libertação! Ronaldo Schuller diz que a Literatura é subversiva, pois ela subverte a ordem das coisas. Acho tocante teu convite a buscarmos nas Artes, com sua força e fragilidade, a esperança para sobreviver às mazelas do mundo... Só a Arte e os esportes ainda nos conclamam à Humanidade e esse é pra mim o seu maior valor.... A Arte nós faz refletir sobre o mundo, romper padrões e estigmas e não reagir como meros animais, reprodutores de realidades cotidianas.... Um viva ao teu sensível e comovente convite!!!!!!

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