Vivo no mesmo
endereço há quarenta e dois anos. O bairro passou por muitas mudanças, existe
uma que pode passar despercebida para quem apenas passa por ele. Ou morou por
pouco tempo. É o fechamento de pequenos negócios.
Lembro quando
começaram a construir grandes centros comerciais. Alguns duvidavam que poderiam
dar certo. O Iguatemi, por exemplo, foi construído em área afastada. Uma das
perguntas de então: “Quem irá até lá para comprar alguma coisa?”. No entanto, novos
hábitos foram sendo construídos pouco a pouco e a população foi redirecionada.
Com novos atrativos, muitos pequenos negócios de calçada minguaram e foram
obrigados a fechar. As aglomerações de lojas sob o mesmo teto prosperaram e
continuam a prosperar. Um lento, irracional e inexorável fluxo para um comércio
mais longe de casa. São chamados de grandes templos do consumo. Pode-se comprar
e consumir de tudo naqueles nichos requintados de mercadorias, ao abrigo das
intempéries e com segurança. Tudo brilha, tudo é limpo, os aromas das lojas de
perfumaria e cosméticos envolvem quem transita pelos corredores ladeados de
vitrines com mil tentações para quem pode e não
pode comprar. Tudo aberto em horários estendidos, até à noite, até nos finais
de semana. Um convite sedutor que faz
confundir desejo com utilidade. Lugar fértil para a impotência e a inveja de
quem não tem dinheiro.
Eu gostava de
passar pelo mercadinho na volta da academia. Havia sempre frutas da estação
compradas de fornecedores próximos. Lembro também da padaria onde ofereciam um
bufê de comidas para levar. Na volta de meu trabalho, passava por ali e levava
para casa a refeição. Um alívio diante da impossibilidade de cozinhar todo dia
para a família. Muito mais longe no tempo, lembro de uma loja de tecidos e de
todo tipo de artigos para costura e bordados. Encontrava-se de tudo, não
precisava ir ao centro, na matriz. E, uns cinquenta metros distante, uma bela e
sortida loja de artigos para presente, encontrava-se algo de todo preço e tudo
era muito bonito. Esta, não fechou, mas transferiu-se para um espaço menor e
próximo, e nunca mais foi a mesma. Foi substituindo a mercadoria por uma
miríade de quinquilharias vindas da China. A senhora mais velha e sua filha
continuaram a atender até venderem o negócio para alguém de fora.
E o caso da loja
de chás! Encontrava-se a espécie mais inusitada, oferecida com uma encantadora
explicação de sua origem e de suas propriedades pela senhora dona do negócio.
Em embalagens especiais, vendido em gramas, levava-se junto um aroma saboroso.
Entrar ali era um encanto, era viver um ritual que nos envolvia em momentos de estar
num outro mundo. Esta loja fez o movimento inverso, saiu de centro comercial
para aquela loja de calçada. Mas não sobreviveu. O afã do mundo de hoje foi
mais forte que os atrativos do ritmo e prazer que ela oferecia.
Os locais
fechados reabrem com novos negócios, duram algum tempo e depois fecham de novo.
Há alguns anos,
havia um dia da semana, penso que era terça-feira, no qual uma fila se formava junto à sala na
lateral da igreja e se estendia até a calçada. Era o dia do sopão para os sem
teto, predominância de homens, alguns velhos, todos maltratados pelas ruas,
sujos, roupas gastas, deixando um cheiro desagradável no entorno. A atividade
era exercida por paroquianos voluntários. Algumas vozes se manifestavam contra
aquele espetáculo no bairro de classe média alta. O pároco exercia suas funções
há muitos anos e sua autoridade prevalecia, mas aposentou-se. Outro sacerdote
ouviu os clamores dos que frequentavam a missa dominical. Fechou o espaço. Aqueles
serem humanos desprezados devem ter encontrado outro local para saciar a fome
um dia por semana. Ou não.
Na mesma época,
a algumas quadras daquela paróquia, a prefeitura tentou utilizar um pequeno
sobrado como local de acolhimento de sem teto. Desta vez não havia nem o velho
pároco a defender a ideia. A experiência durou poucas semanas. Mendigos não foram
bem vindos. Enfeavam as ruas bem cuidadas e ladeadas de verde. O local fechou. As
mesmas vozes vigilantes deram a sugestão de algum bairro distante, afinal, não dava para misturar os
problemas deles com as necessidades da região.
Então chegou o
tempo da pandemia.
E chegou a vez
dela. No outro dia, passei por ali e estava tudo escuro, mas os móveis estavam
dentro. Pensei que abririam mais tarde, afinal, era fevereiro e o movimento é
tradicionalmente mais escasso. A padaria tinha começado a funcionar cerca de um
ano antes. Eu gostava dos seus pães, dos sonhos, do bolo de iogurte.
Antes, fechou a
pequena livraria do bairro, fechou a pequena lavanderia, fechou a pequena loja
de roupas, fechou a pequena farmácia (até a farmácia, lugar mais procurado hoje
em dia), fechou a pequena loja, antigamente chamada de 1,99. Fechou. Fechou.
Fechou. Palavra pesada, vestida de fracasso. Quando tantos pequenos negócios
fecham, a questão do mérito ou demérito individual não se sustenta. A gravidade
está na falta de reservas do pequeno empreendedor, da situação limite em que
ele logo vai se encontrar, da dificuldade de sustento, da dificuldade de
recuperação e de novas oportunidades. Aí entra o papel do Estado, que,
atualmente, está encolhendo cada vez mais e deixa ao desabrigo os que mais
necessitam que ele cumpra seu papel.
Há outro
movimento mais trágico que ultrapassa o bairro e a maioria da população não
toma conhecimento. Ele é provocado pelo Senado, pela Câmara de deputados, pelas
Assembleias estaduais e municipais. Não freiam o “presidente” da República, nem
os governadores aliados no lamaçal de promiscuidade em que jogaram o país. Estes
que deveriam ser os representantes de toda a sociedade, estão acabando com
direitos dos trabalhadores, das minorias, das verbas para a educação, para a
cultura, para a saúde. Desmontam uma rede de proteção social construída ao
longo dos anos e com muitas lutas. Defendem portas abertas para interesses de
poucos. Continuam a fechar portas para quem mais precisa, mas toda a população
sente de alguma forma. A ponta do iceberg são as crianças, as mulheres e os
homens que voltaram para as sinaleiras, junto aos supermercados ou outros
pontos onde imaginam conseguir algum auxílio.
Desta forma,
longe dos olhos da maioria, o Estado está desobrigando-se cada vez mais de suas
funções, com a cumplicidade de políticos a serviço de particulares e de grandes
grupos econômicos. Só porque o Estado é sempre
necessário para que uns poucos continuem no poder é que ele não “fecha”.
O desafio para
quem tem a visão do que está acontecendo é furar as barreiras da desinformação
e da cooptação por falsos profetas. Uma disputa que continuará árdua e longa.
Cabe a cada sujeito consciente da situação fazer o que pode, mesmo que se veja
como uma formiga no meio da imundície. A
mídia alternativa é quem continua a manter as portas abertas para a resistência
das instituições e quem dentro delas continua a lutar.
Não
dá para fechar os olhos, os ouvidos e a boca para a tragédia de nosso país.
Belo texto sobre a tragédia em wue mos encontramos. Dá vontade de chorar diante desse lamaçal.Não sei se é nostalgia mas sinto saudade daqueles pequenos e frescos empreendimentos, onde nos tornávamos amigos e éramos tratados como setes humanos.
ResponderExcluirRealmente, Maria Rosa, está muito difícil a sobrevivência para muitos. O discurso do Estado mínimo alastra a fome e tira a esperança de quem um dia acreditou que poderia ser diferente. Sinto um engasgo na garganta, um aperto no peito e não consigo escrever. Sinto vergonha alheia pelos absurdos de um desgoverno nas diversas esferas, da falta de empatia e do negacionismo diante da pandemia que vem roubando a vida e a dignidade de muitos. Um dia me disseste que ao calarmos compactuamos com os algozes. Que bom que consegues mostrar de maneira clara o que vem acontecendo. Parabéns!
ResponderExcluirO número de pessoas pedindo em sinaleiras é assustador. A miséria e a desigualdade tornaram-se invisíveis para a sociedade. Estamos acostumados com o inaceitável. Sociedade adoecida. Escrever é uma forma de gritar.
ResponderExcluirUm texto de sensibilidade às pequenas transformações que saltam aos olhos de poucos, embora sejam muito perceptíveis para quem mantém a sintonia com os detalhes do cotidiano que alteram nossa qualidade de vida. Houve um tempo em que compreendemos o mote do "small is beautiful", quando vivíamos os nossos bairros e nossos bairros viviam dessa relação com cada um e todos nós. Há uma perversidade que a partir de ignorar nossos pequenos vínculos nos torna a todos "desconhecidos" e obra através da indiferença. Neste momento, infelizmente, estamos como sociedade em meio a uma tragédia em diferentes níveis, e o mais próximo desses níveis é aquele que ocupamos em confronto direto com os efeitos da tragédia nos pequenos com os quais convivemos e dos quais somos parte. Não devemos e não podemos fechar a sensibilidade e os sentidos para o que está acontecendo. Parabéns pelo enfoque do texto, Maria Rosa.
ResponderExcluirTua crônica me deixou mais engasgada ainda do que já estou. Faz tempo que sinto esse nó terrível porque me sinto impotente diante da barbárie que acomete nosso país. Desgoverno total. Despreparo total, ou, o que é bem pior,descaso proposital, palavras obscenas ditas calculadamente para desviar a atenção de algo ainda mais grave, se é que isto é possível. Estamos à deriva, no meio de uma pandemia que dissolve vidas, comércios, sonhos.Retratas muito bem neste texto a situação de absoluto caos em que nos encon tramos. O angustiante é não ver solução à vista, não há terra à vista neste oceano de incertezas em que mergulhamos. Um triste e belo texto. Parabéns por tão certeiro raciocínio.
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