Cada qual pode
ser um, nenhum, cem mil,
mas a escolha é
um imperativo necessário.”
Luigi
Pirandello
O homem é capaz
das atitudes mais extremas para o bem e para o mal. Sem me aprofundar em
teorias que o comprovam, poderia elencar inumeráveis exemplos ao longo da
história. Qualquer um pode fazer isso. Mesmo assim, ou justamente por isso,
fico estarrecida com a frequência dos comportamentos destrutivos de hoje. A explosão
de tais manifestações nos mais distantes cantos do país e em todas as classes
sociais, alerta para um período particular e assustador. Tudo isso estava
submerso? A complexidade do que acontece é explicada de diferentes formas, mas um
modo de estar no mundo martela meu pensamento: o individualismo.
O
que se sobressai, mais do que eu tenha ouvido durante a minha vida, são
opiniões sem argumentos e carregadas de emoção que cega e ensurdece. Certamente
algumas sempre existiram, mas às vezes eram rechaçadas, outras, com pouca
receptividade ou com reciprocidade disfarçada. Lembro que dificilmente alguém
assumia publicamente ser de direita, ou ser racista, ou ser odioso. Hoje, os
limites se esfumaçaram, existe orgulho de sê-lo. Estas pessoas não se sentem
com algum freio, antes, encontram eco e aplausos. Assemelham-se a bolhas que
circulam sozinhas, manuseadas por fios invisíveis a agrupá-las aqui e ali para
um estardalhaço maior. Ignoram vozes divergentes. Eu poderoso, eu que está acima de regras
sociais, eu que se lixa para o outro, eu sem limites.
Para
contrapor, volto-me aos exemplos da natureza antes da existência do ser humano.
Desde a formação da primeira célula, a vida só conseguiu ser criada porque houve trocas e combinações
de moléculas e, quando se formou a película para a sobrevivência da primeira
unidade, o intercâmbio entre o dentro e o fora
precisou continuar. Sem trocas, não haveria a produção e a reprodução da
vida. Acelerando a história chegamos ao
ser humano com um cérebro fantástico capaz de maravilhas. Um órgão composto de
bilhões de células que se comunicam, se entendem, colaboram entre si. O cientista e professor Miguel Nicolelis, em
seu livro O Verdadeiro Criador de Tudo,
nos conta como o cérebro humano foi aumentando à medida que o ser humano necessitou
criar novas relações com o ambiente e com os semelhantes para a sua
sobrevivência. O homem e seu cérebro foram se formando e modificando até os dias. Ele não tem uma natureza dada.
Então
volto a pensar em como os sujeitos se produzem e reproduzem na contemporânea
sociedade capitalista. Nela, o consumo é a medida, a meritocracia é defendida
como a verdade, vencer o outro a qualquer custo é a regra. Nesta sociedade,
nunca houve, nem haverá lugar digno para todos, porque a premissa é a
desigualdade social. A pobreza e a exclusão não são erros de percurso, elas são
necessariamente decorrentes do sistema. É ele que produz esta diferença entre
seres humanos que podem usufruir dos benefícios do progresso, e outros não. É
assim que se constrói o individualismo, que se destrói a rede de colaboração
necessária à preservação da vida. E todas as nefastas consequências.
O
que estaremos deixando para as gerações futuras? A nossa singular
individualidade só existe num sistema universal. Somos únicos na relação com o
outro. Fico torcendo para que as manifestações de solidariedade e cooperação
consigam ser bem mais potentes, só assim a humanidade será capaz de preservar a
vida terrestre. Espero que minha geração ainda consiga ver sinais desta escolha.
Fica a aposta.
Escrita profunda e realista. E também espero sinais dessa escolha.🥰
ResponderExcluirInstigante essa crônica, Rosa. E preocupante, também. O ser humano está se transformando em individualista e egocêntrico ao extremo na sociedade atual. O que restará? Essa auto-destruição da humanidade torna-se visível. Mas precisamos ser otimistas. Da mesma forma que tu, nesta tua primorosa crônica, também quero e procuro ter esperança de que nem tudo se perde. Ainda pode haver uma saída inteligente para a salvação do planeta. Aguardemos.
ResponderExcluirÉ o futuro transformando o ser que não chegou a ser home em máquina.
ResponderExcluirTristeza ..
Parte da sociedade atual é assim como tu descreves e é muito preocupante e mesmo devastador, se só nos fixarmos nelas ...mas há um sem número de pessoas sensíveis, atentas às necessidades do planeta e mesmo muitas pessoas verdadeiramente solidárias com o outro.... destas que eu gosto de me rodear, pra não perder a fé no ser humano... Eu tenho certeza que esse mundo ainda tem jeito, Trump não se reelegeu... 😃💪
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