sábado, 28 de novembro de 2020

Fica a aposta

 

Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil,

mas a escolha é um imperativo necessário.”

Luigi Pirandello

 

O homem é capaz das atitudes mais extremas para o bem e para o mal. Sem me aprofundar em teorias que o comprovam, poderia elencar inumeráveis exemplos ao longo da história. Qualquer um pode fazer isso. Mesmo assim, ou justamente por isso, fico estarrecida com a frequência dos comportamentos destrutivos de hoje. A explosão de tais manifestações nos mais distantes cantos do país e em todas as classes sociais, alerta para um período particular e assustador. Tudo isso estava submerso? A complexidade do que acontece é explicada de diferentes formas, mas um modo de estar no mundo martela meu pensamento: o individualismo.

            O que se sobressai, mais do que eu tenha ouvido durante a minha vida, são opiniões sem argumentos e carregadas de emoção que cega e ensurdece. Certamente algumas sempre existiram, mas às vezes eram rechaçadas, outras, com pouca receptividade ou com reciprocidade disfarçada. Lembro que dificilmente alguém assumia publicamente ser de direita, ou ser racista, ou ser odioso. Hoje, os limites se esfumaçaram, existe orgulho de sê-lo. Estas pessoas não se sentem com algum freio, antes, encontram eco e aplausos. Assemelham-se a bolhas que circulam sozinhas, manuseadas por fios invisíveis a agrupá-las aqui e ali para um estardalhaço maior. Ignoram vozes divergentes.  Eu poderoso, eu que está acima de regras sociais, eu que se lixa para o outro, eu sem limites.

            Para contrapor, volto-me aos exemplos da natureza antes da existência do ser humano. Desde a formação da primeira célula, a vida só conseguiu  ser criada porque houve trocas e combinações de moléculas e, quando se formou a película para a sobrevivência da primeira unidade, o intercâmbio entre o dentro e o fora  precisou continuar. Sem trocas, não haveria a produção e a reprodução da vida.  Acelerando a história chegamos ao ser humano com um cérebro fantástico capaz de maravilhas. Um órgão composto de bilhões de células que se comunicam, se entendem, colaboram entre si.  O cientista e professor Miguel Nicolelis, em seu livro O Verdadeiro Criador de Tudo, nos conta como o cérebro humano foi aumentando à medida que o ser humano necessitou criar novas relações com o ambiente e com os semelhantes para a sua sobrevivência. O homem e seu cérebro foram se formando e modificando  até os dias. Ele não tem uma natureza dada.

            Então volto a pensar em como os sujeitos se produzem e reproduzem na contemporânea sociedade capitalista. Nela, o consumo é a medida, a meritocracia é defendida como a verdade, vencer o outro a qualquer custo é a regra. Nesta sociedade, nunca houve, nem haverá lugar digno para todos, porque a premissa é a desigualdade social. A pobreza e a exclusão não são erros de percurso, elas são necessariamente decorrentes do sistema. É ele que produz esta diferença entre seres humanos que podem usufruir dos benefícios do progresso, e outros não. É assim que se constrói o individualismo, que se destrói a rede de colaboração necessária à preservação da vida. E todas as nefastas consequências.

            O que estaremos deixando para as gerações futuras? A nossa singular individualidade só existe num sistema universal. Somos únicos na relação com o outro. Fico torcendo para que as manifestações de solidariedade e cooperação consigam ser bem mais potentes, só assim a humanidade será capaz de preservar a vida terrestre. Espero que minha geração ainda consiga ver sinais desta escolha. Fica a aposta.

4 comentários:

  1. Escrita profunda e realista. E também espero sinais dessa escolha.🥰

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  2. Instigante essa crônica, Rosa. E preocupante, também. O ser humano está se transformando em individualista e egocêntrico ao extremo na sociedade atual. O que restará? Essa auto-destruição da humanidade torna-se visível. Mas precisamos ser otimistas. Da mesma forma que tu, nesta tua primorosa crônica, também quero e procuro ter esperança de que nem tudo se perde. Ainda pode haver uma saída inteligente para a salvação do planeta. Aguardemos.

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  3. É o futuro transformando o ser que não chegou a ser home em máquina.
    Tristeza ..

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  4. Parte da sociedade atual é assim como tu descreves e é muito preocupante e mesmo devastador, se só nos fixarmos nelas ...mas há um sem número de pessoas sensíveis, atentas às necessidades do planeta e mesmo muitas pessoas verdadeiramente solidárias com o outro.... destas que eu gosto de me rodear, pra não perder a fé no ser humano... Eu tenho certeza que esse mundo ainda tem jeito, Trump não se reelegeu... 😃💪

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