Retornos
A imagem
permanece. Guardada? Adormecida? Cuidada? Preservada? Quiçá embalsamada? Que
nome devo dar-lhe? Ela reaparece como se tudo tivesse acontecido há pouco
tempo. O certo é que ela continua a reaparecer
e a me emocionar.
Hoje, são os
riscos brancos num céu totalmente azul que a trazem de volta. Uma imagem fixada
poucos anos atrás no pátio da casa de minha prima, numa das viagens de retorno.
Mas na minha lembrança não há riscos no céu, é uma sirene que avisa a chegada
dos aviões. Era preciso correr para o abrigo enquanto cobria a cabeça com o
casacão vermelho arrancado detrás da porta da cozinha. Naquela foto os riscos eram
inofensivos, vinham de aviões que decolavam próximo dali, sem sirenes, nem rumores.
Esta lembrança juntou-se à conversa com alguém da região que vim a conhecer em
meu último retorno. Tenho retornado ciclicamente. Ele contou que durante a
guerra havia um campo de aviação militar do outro lado do rio. Informação que
preencheu um vácuo. Então, fora ali que meu pai servira como militar, só sabia que ele fora
mecânico de aviões. Com esta pincelada no quadro daquele período compreendi a
perseguição dos nazistas em sua retirada pelo norte do país. O enfrentamento de
minha mãe com os fuzis apontados para ela. Sua coragem em negar o conhecido esconderijo
do marido. Ouvi esta e outras histórias inúmeras vezes. A guerra estava ao
redor de nós naqueles anos em meio aos quais nasci. A sirene, o rumor dos
aviões e o abrigo são tatuagens em minha memória. Outras guerras se sucederam.
Mesmo longínquas são sempre próximas. O
perto e o longe se avizinharam fatidicamente.
A
emigração da família ocorreu poucos anos após o fim da guerra. Primeiros tempos
no Brasil, eu não suportava os fragores da Esquadrilha da Fumaça, não entendia
as comemorações. Era insuportável, eu tapava os ouvidos e ia me esconder sob as
cobertas. Os anos foram passando e me convenceram que aquele perigo havia
passado. Outros rumores perigosos nos acompanham hoje.
Nem
sei se ainda existe a Esquadrilha da Fumaça. Recentemente vi um espetáculo de
jatos que desenhavam a bandeira italiana: La
tricolore. Minha admiração ficou turvada pela memória. Não há mais temor, mas
a lembrança da tenra infância cola-se obsessivamente e reaviva sentimentos.
Viajei
diversas vezes próximo às faixas brancas que se dissolvem aos poucos. Voos,
rumores e riscos no céu já não me ameaçam. Não temo mais a sirene. No entanto, aquela
lembrança cola-se ao mundo atual que não aprendeu a abominar a guerra. O
sofrimento dos outros, hoje, é o mesmo de todas as outras guerras e eu continuo
a fazer parte da tragédia, mesmo num outro papel.
Não
existem mais sirenes, os aviões foram aprimorados, chegam rápidos e de
surpresa. E matam muito mais.
Quanta sensibilidade ao encadear as palavras. Lembrança dura, de um tempo que não vivi, mas isso jamais deve ser desculpa para não entendermos a dor do outro. Ês especial por toda alteridade que carregas contigo.
ResponderExcluirObrigada pela solidariedade e compreensão do texto.
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