Vejo um pai que ri com sua filha, uma menina
de poucos anos. No fundo ouve-se a explosão de bombas? Pai e filha falam uma língua diversa da minha,
mas pode-se compreender a cumplicidade entre eles e sua alegria. A explicação
vem em off: o pai diz à menina que ouvem
fogos de artifício, antecipa-lhe a chegada dos sons e, quando chegam, riem. O
pai sabe que há uma guerra lá fora e o que ocorre próximo a eles. Aquele pai
faz sua filhinha brincar despreocupadamente como tem direito de o fazer.
Distancia a criança da tragédia que os está engolindo. Talvez, por poucos
instantes.
Esta
cena me acompanha durante dias e me deixa desacomodada, incrédula, admirada. Vejo
aquele pai protegendo sua filha como pode. O pouco que pode é tudo, brinca com
ela, deixa-a alegre. A cena tira-me da zona de desesperança em que me encontro,
me faz pensar. Como é possível descolar-se de um perigo tão grande como a morte
próxima, e criar uma fantasia de vida?
Todas
as manhãs, caio em meio à explosão de bombas. Notícias locais e nacionais me
atingem como petardos. Não são paredes que caem, nem veículos estraçalhados ou
crateras nas vizinhanças, mas trazem mortes, muitas mortes, encobertas com
um manto de legalidade e de justiça, e
geradas por uma guerra de ódio e de indiferença. Elas destroem esperanças,
resistências, energias de quem se importa e não finge ignorância. Um estrago mental
e psíquico menos visível a olho nu. Quem sabe?
Não
sei o que aconteceu àquele pai com sua filha. Gostaria de saber que foram
salvos. No entanto, se tiverem sucumbido, eles permanecem na lembrança como um
ato de amor embrionário, primeiro, originário. Sei que não é o único ato de
amor no meio da guerra, desta e de tantas outras. Lembro as palavras do personagem
de Hatoum “A imaginação não seria uma realidade possível em qualquer lugar do
mundo?” Recapturo minha crença na possibilidade
do imprevisível e a esperança de construção de um mundo melhor.
Que as bombas se
transformem em fogos de artifício!
Texto muito tocante.
ResponderExcluirNada dura para sempre, então dias melhores virão, mesmo que seja para os nossos descendentes, como a criança da tua crônica.
(Dante)