terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Vovó usava barba


Li o livro de Ione Mattos
com prazer e com surpresa. Passei horas intensas e prazerosas, tiraram-me da opressão do que está acontecendo no país. Como era minha vontade.
Inicialmente, o título me havia remetido a contos infantis. As crianças estão presentes, mas envoltas em histórias para os adultos. Adultos, especialmente avós, que envolvem as crianças rebeldes com sua sabedoria e afeto, numa conjugação enternecedora de falas.  
            Não há moralismos, há confrontos e conversas onde os próprios personagens dizem suas dores e suas aprendizagens. É a eles que Ione dá voz. O narrador preenche as páginas do livro com  contos de um cotidiano que rodeia a todos, mas só alguns o veem. Oferece ao leitor histórias nada comuns, intensas e coloridas de sentimentos. Situações que transbordam sabedoria de vida de uma gente simples e com forte cor identitária. Há também fracasso e lágrimas. É a vida dos muitos invisíveis socialmente que preenche as linhas escritas.
            Não precisaria destacar qualquer conto. No entanto, recente e deplorável acontecimento onde tentaram desmoralizar um dos símbolos mais importantes da história da educação do país, Paulo Freire, me fez vibrar de alegria ao ler Waldirene Maria perseguir seu sonho. Em cinco páginas a personagem deu razão à obra do educador. Certamente ele aprendeu no seu tempo pré golpe de 1964 com outras Waldirenes para escrever seu método, aqui está a comprovar sua potência.
            A literatura a alimentar o que há de melhor no ser humano.

            Obrigada, Ione.

Um comentário:

  1. Nossa,Maria Rosa,que alento o seu comentário, que leitura sensível e bonita. O que vc deseja como escritora na relação com o leitor- "momentos de surpresa e de cumplicidade"- é a moldura mesma que como leitora vc oferece ao que lê, e é também o que eu valorizo quando leio ou escrevo. Fiquei emocionada com suas palavras, e agradecida. Espero poder abraçá-la pessoalmente quando for ao RGS.

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