quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Dante e o Inferno de hoje



“A obra de Dante, em poesia e em prosa, pressupõe a cidade de Florença, então um dos maiores centros urbanos europeus, como fonte e destinação, e mesmo depois do exílio.”, afirma Eduardo Sterzi. Ao mesmo tempo, destaca ter tido a influência de uma época de final de Idade Média onde foram criadas as primeiras universidades  europeias, quando houve a recuperação do direito romano, o ressurgimento da ciência grega e da medicina greco-árabe, dentre outros acontecimentos que mostraram um período efervescente a anunciar o Renascimento. Não haveria Dante sem este contexto. Nem tantos outros artistas e literatos da época e nos séculos posteriores.
Quando releio esta história, fico mais assustada e desesperançosa diante do que está acontecendo no país hoje. O pior não é a destruição das empresas brasileiras e a venda dos recursos nacionais a grandes grupos internacionais. A desgraça está na destruição de uma rede ainda em construçaõ, mas espalhada pelo país, de esforços para a inclusão da população marginalizada a um mínimo de consumo, mas também de possibilidades de estudo, de frequentar uma universidade, de viajar e conhecer outras realidades. Enfim, está na impossibilidade dos que vivem à margem de uma esperança de ampliar sua imaginação com coisas belas, supérfluas, sem interesse econômico, mas necessárias para fazer voar o pensamento e construir subjetividades abertas à criação e à alegria.
A grande tragédia do que está ocorrendo nos últimos dois anos no país é mandar de volta à miséria milhões de seres humanos, e manter outros tantos milhões que ainda não tinham sido atingidos por melhorias sociais, à luta pela sobrevivência, sem trégua para minutos de paz  e de fruição do gosto de viver.
E o mais perverso é que muitos nem saberão quem são os responsáveis pela sua desgraça, porque uma rede permanente de falsas informações lhes desfoca a origem. Poderão ser cooptados pelas seitas que se abastecem da fragilidade humana ou por qualquer expediente que lhes acene com a possibilidade de um ganho mínimo recusado por quem deveria protegê-los: o Estado com uma rede de benefícios e proteção social para os quais eles mesmos contribuem com o pagamento de impostos, estes sugados para fins escusos por muitos dos que deveriam representá-los.
Como então esperar que a realidade mude, que sementes de cultura, de escolas, de aprendizado com a história e o conhecimento de milênios possa produzir artistas, pesquisadores, cientistas?
O que sucede hoje nos segura no inferno, sem possibilidades de passar pelo purgatório e alcançar o paraíso como na Divina Comédia.

Resta apostar na imprevisibilidade da vida e na capacidade do ser humano de fugir a um destino anunciado.

Um comentário:

  1. Querida Rosa,
    tuas palavras traduzem nossa dor e sentimento. mas, manter a esperança e lutar/trabalhar pela reconstrução e transformação é o que podemos seguir fazendo! mais do que nunca, relembro das aulas da graduação, contigo, com Leonice, Rubens Prá entre tantos outros mestres da Fafimc para seguir ativa e apostando que é possível mudar o curso, mesmo em tempos de trevas; mesmo estando no inferno! É para dele sair que existe o paraíso, nossas utopias!

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