segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Embeber-se em poesia

              Uma história que nos mostra como a cultura é fonte de rebeldia e pode fazer a diferença na escolha de um caminho para a própria vida.
A história começa com João Carneiro da Fontoura, de Chaves em Portugal, cuja família viera das Astúrias onde cristãos lutavam para expulsar os mouros. E com Isabel, filha de Gabriel Ignácio, do acampamento cigano nas cercanias de Lisboa, onde seus antepassados estavam radicados há cerca de duzentos anos.
Ele, dragão d’El Rei D. João V, cansado das mentiras e intrigas da corte, embarcou para a colônia Brasil onde tinha o sonho de ajudar a estabelecer uma sociedade melhor e mais justa. Ela acompanhou seu povo expulso de Portugal e embarcado para a mesma colônia.
Início do século XVIII, um homem e uma mulher que viviam além de seu tempo. Ele um homem que lia Camões. Ela uma mulher que sabia ler e refletia sobre as histórias que assimilava. Encontraram-se em terras brasileiras e se uniram contra todas as convenções. Os horrores que João presenciou em Minas Gerais onde aportou o desiludiram e não o deixaram compactuar com as falcatruas, roubos e tratamento aos escravos. A saga do encontro e vida com Isabel, e os perigos que ela e seu povo enfrentavam com a inquisição em seu encalço, é narrada de modo atraente. A ida para o Rio de Janeiro e, depois, para o Rio Grande do Sul; a formação de uma família numerosa; o exemplo de ética e de sabedoria dos dois; tudo se constituiu num embrião que produziu frutos por várias gerações e espalhou descendentes pelo Brasil afora.
“João Carneiro da Fontoura, quando atacado pela vida, embebia-se em poesia e recomendava aos filhos para fazerem o mesmo”, isso incluía as filhas mulheres, incomum para a época.
O cruzamento destes dois seres deu à história uma família numerosa, e vários homens e mulheres que se destacaram.  Uma delas, Isabel Dorothea,  filha de José Carneiro da Fontoura, neta de João, conhecedora e encantada com as histórias de seus avós, conhece o comendador João Simões Lopes, emigrado de Portugal durante a invasão de Bonaparte. 
No entanto, o destino das mulheres não fugia  a uma realidade que as cerceava: casarem e terem numerosos filhos, num cotidiano que as limitavam nos movimentos de independência e participação em outras esferas da vida.
Isabel Dorothea e João tiveram vários filhos, dos quais João Simões Lopes Filho. Este teve formação no Rio de Janeiro e uma visão de mundo diferenciada. Mas repetiu seu tempo com uma descendência enorme com três mulheres. Entre eles Catão Bonifácio, pai de Simões Lopes Neto (1865-1916). Este, um escritor que penetrou a alma dos homens de seu tempo e a registrou para a posteridade.
Nesta história, escrita de forma atraente, onde as subjetividades se destacam no panorama da história do país e do estado, há o testemunho da importância do acesso à formação cultural para a produção de espírito aberto ao mundo, às diferenças, às possibilidades de criação de outras realidades e rompimento de condicionantes.

Infelizmente, seres excepcionais e em pequeno número não conseguem revolucionar uma sociedade. O testemunho, no entanto, é fermento para quantos acreditam no caminho da cultura, das artes, do estudo, de participação social como trajetória política em busca de um mundo mais justo.

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