“A obra de
Dante, em poesia e em prosa, pressupõe a cidade de Florença, então um dos
maiores centros urbanos europeus, como fonte e destinação, e mesmo depois do
exílio.”, afirma Eduardo Sterzi. Ao mesmo tempo, destaca ter tido a influência
de uma época de final de Idade Média onde foram criadas as primeiras
universidades europeias, quando houve a
recuperação do direito romano, o ressurgimento da ciência grega e da medicina
greco-árabe, dentre outros acontecimentos que mostraram um período efervescente
a anunciar o Renascimento. Não haveria Dante sem este contexto. Nem tantos
outros artistas e literatos da época e nos séculos posteriores.
Quando releio
esta história, fico mais assustada e desesperançosa diante do que está
acontecendo no país hoje. O pior não é a destruição das empresas brasileiras e
a venda dos recursos nacionais a grandes grupos internacionais. A desgraça está
na destruição de uma rede ainda em construçaõ, mas espalhada pelo país, de
esforços para a inclusão da população marginalizada a um mínimo de consumo, mas
também de possibilidades de estudo, de frequentar uma universidade, de viajar e
conhecer outras realidades. Enfim, está na impossibilidade dos que vivem à
margem de uma esperança de ampliar sua imaginação com coisas belas, supérfluas,
sem interesse econômico, mas necessárias para fazer voar o pensamento e
construir subjetividades abertas à criação e à alegria.
A grande
tragédia do que está ocorrendo nos últimos dois anos no país é mandar de volta
à miséria milhões de seres humanos, e manter outros tantos milhões que ainda
não tinham sido atingidos por melhorias sociais, à luta pela sobrevivência, sem
trégua para minutos de paz e de fruição
do gosto de viver.
E o mais
perverso é que muitos nem saberão quem são os responsáveis pela sua desgraça,
porque uma rede permanente de falsas informações lhes desfoca a origem. Poderão
ser cooptados pelas seitas que se abastecem da fragilidade humana ou por
qualquer expediente que lhes acene com a possibilidade de um ganho mínimo recusado
por quem deveria protegê-los: o Estado com uma rede de benefícios e proteção
social para os quais eles mesmos contribuem com o pagamento de impostos, estes
sugados para fins escusos por muitos dos que deveriam representá-los.
Como então
esperar que a realidade mude, que sementes de cultura, de escolas, de
aprendizado com a história e o conhecimento de milênios possa produzir artistas,
pesquisadores, cientistas?
O que sucede
hoje nos segura no inferno, sem possibilidades de passar pelo purgatório e
alcançar o paraíso como na Divina Comédia.
Resta apostar na
imprevisibilidade da vida e na capacidade do ser humano de fugir a um destino
anunciado.
Querida Rosa,
ResponderExcluirtuas palavras traduzem nossa dor e sentimento. mas, manter a esperança e lutar/trabalhar pela reconstrução e transformação é o que podemos seguir fazendo! mais do que nunca, relembro das aulas da graduação, contigo, com Leonice, Rubens Prá entre tantos outros mestres da Fafimc para seguir ativa e apostando que é possível mudar o curso, mesmo em tempos de trevas; mesmo estando no inferno! É para dele sair que existe o paraíso, nossas utopias!