domingo, 5 de novembro de 2017

Ruídos da praça



- Boa tarde, preciso ir para a rua...
- Qual o caminho que a senhora prefere?
- Pode seguir à esquerda e lá adiante tomar a avenida principal. Obrigada.
- Certo, a senhora manda.
- Parece-me que a Feira está fraca este ano, não é?
- É. O movimento pra gente também está fraco. E deveriam boicotar, cada vez menor, este prefeito está acabando com a feira e com a cidade.
- É verdade, a cidade está abandonada. E já não tem bancas no cais do porto, só aqui concentradas na praça. Mas um boicote prejudicaria os escritores, as editoras, todo mundo.
- Odeio esse cara está nos prejudicando como nenhum outro.
- Os dois prefeitos anteriores foram omissos realmente e desconstruíram o que feito anteriormente. O atual, então, está sendo pior ainda.
- Este prefeito é um guri mimado, o que sabe ele do que passa um trabalhador? Sou profissional há 37 anos e nunca vi coisa como agora.
- O senhor...
- Nunca passei dificuldades como agora. Nunca. Tenho mulher, filhos, netos e nunca passei as necessidades que estou passando agora.
- E...
- O Uber, o Cabify, tudo solto, fazendo o que querem. Os motoristas de Gravataí vêm para cá, porque o prefeito de lá é macho, não deixa eles dominarem, não. Aqui tem motorista com tornozeleira, tem ladrão, tem bandido na direção. Eu nunca tive problema com a EPTC, com os azuizinhos, mas gora sim, porque eu dou neles se vierem se atravessar.
- Eu não tenho aplicativos pra pedir esses carros, continuo a chamar um motorista que conheço há muito tempo, então nem sei o que acontece.
- A gente conhece a cidade, tem muitas regras pra obedecer, eles não, qualquer um pode pegar um carro e se meter a taxista.
- Eu fui professora, meu trabalho foi outro, então...
- A senhora sabe que eu tenho o maior respeito pelas professoras, lhe digo que devo tudo o que eu sou às professoras que eu tive, o que eu sou agora. Este país tinha que pagar muito bem às professoras. Como no tempo do Brizola, ele sim que valorizava a educação. Este país tinha que botar dinheiro é na educação.
- Lembro, o senhor tem razão. A educação é fundamental para qualquer país, mas...
- Ele foi um grande governador.
- O senhor pode parar em frente àquele prédio à esquerda.
- Gostei da senhora, gostei mesmo. A senhora sabe que sou diabético, tenho quatro tipos de câncer, pressão alta, isto é saúde? Trabalho desde manhã cedo, depois daqui acho que vou pra casa, mas antes quero lhe dizer uma coisa: a senhora não fique braba comigo, mas o que iria melhorar tudo isso é voltar a ditadura.
- Não precisa me dar o troco, não. Tenha um resto de dia tranquilo, boa noite.

- A senhora pode ter certeza, a ditadura é a única solução. Boa noite.

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