sábado, 18 de novembro de 2017

Ruídos da Praça 2



            Sento ao lado da senhora. Ela me sorri e eu retribuo. Ela logo puxa conversa, dizendo-me:
- Vim pra Feira só pra comprar esse livro (A Arte de ser Infeliz), dizem que o psicanalista é muito bom. Aí aproveitei e comprei este livro sobre D. Pedro II, gosto muito de história.
- Eu também, queria prestigiar uma pessoa conhecida.
- Consegui trocar o horário de um trabalho com o outro e deu tudo certo.
- Que bom, quando a gente consegue resolver tudo, não é?
- A senhora sabe que eu sou monarquista?
- Ah! Como é ser monarquista hoje aqui no Brasil?
- É um sistema de governo, como o presidencialismo, o parlamentarismo. A gente voltaria pelo parlamentarismo.
- Sei, mas como implantar uma monarquia. Quem assumiria o cargo de rei?
- Tem os descendentes que moram quase todos em São Paulo. Seria pelo parlamentarismo como na Espanha, Inglaterra, Suécia. A gente não quer partidos.
            A senhora retira uma publicação de várias páginas e dentro dele um folheto com a imagem de D. Luiz Gastão de Orleans e Bragança. Ela me mostra e declara:
- Seria ele, mas não anda bem de saúde, então poderia ser... Não entendi o nome, mas não lhe pedi para repetir.
- Por que voltar à monarquia?
- A senhora sabe que nos países com monarquia não têm corrupção? É pra mudar e gastar muito menos. O Congresso que está aí é muito caro.
- Eu ouvi que houve escândalo recente com os reis da Espanha.
- Mas, aí a gente tira. Olhe o que aconteceu na Arábia Saudita, teve um deles que se corrompeu e eles tiraram.
- Mas os reis também são caros pra sustentar.
- Mas é menos, o povo gosta, quer que continuem onde eles existem, porque tem mais transparência.
            A senhora, a quem não lembrei de pedir o nome, se levantou ao chagar perto de sua parada. Enquanto saía foi dizendo que a monarquia seria nossa salvação, ela estava trabalhando para isso.
            Fui olhando o material que continuou nas minhas mãos. Não o devolvi para ser gentil. Afinal, fiquei sabendo de mais um movimento que existe por aí. No alto da capa há uma bandeira do Brasil com um sinal de tráfego indicando curva à direita. Abaixo, outra bandeira que substitui o globo azul por um globo vermelho com a foice  e o martelo, tendo ao lado o sinal à esquerda. Abaixo das duas, em tamanho maior a bandeira verde e o emblema da monarquia substituindo o globo azul. Acima dela um sinal para cima e as palavras “Para frente!”. Na contracapa: “MONARQUIA: um sonho que pode se transformar em realidade”. Invocando o desejo de se transformar como os países do primeiro mundo com monarquia.
            Fico me perguntando que informações, que vínculos e que desejos se mesclam para produzir um pensamento fragmentado como o que acabo de ouvir. Ainda bem que a senhora desceu do ônibus logo. Se tivéssemos continuado a conversa, quase um monólogo dela, teria eu alguma informação ou pergunta com potência para fazê-la pensar além do círculo que mostrou ter construído ao redor?
Há momentos em que a palavra não vem em minha ajuda.

                

Um comentário:

  1. Tive uma experiência semelhante no 7 de setembro. Fiquei pasma com a veemência da indicação da volta à monarquia como uma saída anti-corrupção.
    Comentei que essa perspectiva está na contramão da história, que no Reino Unido, por exemplo, o movimento anti-monarquia cresce e se fortalece, sugerindo que a monarquia está com os dias contados.
    Não se convenceram. "Imagina, eles têm é muito lucro com o turismo quê a monarquia movimenta" . E o custo, pergunto? " Mas o quê eles fazem é trabalho"!
    Pode?

    ResponderExcluir