quarta-feira, 31 de maio de 2023

Olhar através de uma lente de aumento

 

Estou em casa há alguns dias depois de uma viagem inesquecível no tempo da cultura grega. Todos os que frequentaram a escola, leram sobre história, foram ao teatro, prestaram atenção ao que acontece ao redor, sabem alguma coisa da história da Grécia. No entanto, andar por aquelas terras foi penetrar noutro portal de conhecimento, foi sentir, mais que conhecer os lugares sobre os quais lemos ou ouvimos. Meus pensamentos se envolveram em experiências sensoriais insubstituíveis. Vi-me frente a testemunhos de ensinamentos que servem até hoje, de obras de engenharia a serviço da arte – e que funcionam ainda –, dos alicerces de uma organização social utilizada por aqueles que a invadiram e a dominaram. Ela também tinha suas contradições como não poderia deixar de ser. De transformação em transformação, a Grécia enfrenta problemas comuns a tantos outros países, tendo sofrido um governo ditatorial num passado não tão remoto. Hoje, leio sobre a reeleição de um governo de direita, apesar das críticas graves e recentes sobre a sua administração.

Ouço as notícias sobre o nosso país e elas me perturbam, me deixam triste, desanimada.

Ouço as notícias sobre o  mundo e aumenta minha perturbação.

Vivemos um período de crescimento mundial de forças reacionárias, de direita xenófoba, de fakenews, de pós-verdade, de crescimento das seitas religiosas, que de religião não têm nada, vendo pobres defendendo ideias e políticos que os amordaçam e os constrangem a nunca sair do seu lugar (tudo sem se darem conta, como estivessem dopados), de ver cair os parâmetros de conhecimento – que balizaram nosso caminho ao longo da vida – sem que outros nos sustentem.

Somos testemunhas de um tempo tenebroso que parece durar uma eternidade diante do percurso individual. No entanto, significa uma fração mínima para a história da humanidade e poderá ser registrada com uma frase, uma citação a ler lida no futuro, se houver futuro para os humanos. E, ainda, uma fração infinitamente microscópica para a história do planeta.

A possibilidade de futuro para os humanos está enraizada na capacidade de enfrentamento dos extremismos. Felizmente, ou justamente porque a vida se alimenta de forças diversas, temos chances de sobreviver. Existem mentes brilhantes e aguerridas se erguem no tecido contaminado e destruidor da superfície terrestre. Elas lutam desde sempre e animam até quem como eu se sente descrente e com a esperança ajoelhada.

O encontro com a história da Grécia foi olhar através de uma lente de aumento o tempo presente à luz dos mais de 3.000 anos de história e voltar às perguntas iniciais sobre os problemas atuais e sobre o sentido da vida com os sentimentos mais diversos e intensos. Foi voltar a olhar o que acontece no país e no mundo a partir do que foi e do que nos ofereceu aquele pequeno país circundado pelos mares Egeu e Jônico. Seu enorme legado na filosofia, nas ciências e nas artes não impediu o contínuo deflagar de guerras entre os povos do ocidente e do oriente. Neste momento, enquanto alguns de nós mergulham nas maravilhas que o país nos ofereceu: ucranianos e russos matam-se a pouco mais de 2.000Km; o povo enfrenta questões étnicas e protesta nas ruas de Kosovo a cerca de 800Km; milhares de imigrantes fogem da guerra e da fome da Ásia e da África e morrem afogados no mar Mediterrâneo em busca de um lugar para viver em alguma parte da Europa. São apenas alguns exemplos próximos.

De qualquer forma, voltar ao passado serve para repensarmos e defendermos a possibilidade de um futuro. E porque isto tem sido feito por parte da população e das instituições que formam as sociedades mais diversas, não estamos em situação pior. E porque isto não tem sido feito na intensidade e profundidade necessária, estamos em risco de uma guerra nuclear, invocada não tão distante de Atenas. A falta deste retorno, e mesmo a negação do passado pela insensatez e arrogância humana, é que nos coloca no perigoso limite de nos destruirmos.

sábado, 29 de abril de 2023

O lugar das mulheres



Ela agita um véu incendiado, os braços erguidos ao céu dançam no ar como convite à rebeldia. É a imagem congelada de uma jovem de cerca vinte anos apenas, morta pela política moral de seu país pouco tempo depois.

Uma mulher negra empurra um carrinho no supermercado, apenas de calcinha e sutiã. Ela resolveu tirar a roupa em ato de repúdio e protesto por ser seguida e observada por um segurança durante todo o tempo de suas compras.

Entre estas duas pontas, a primeira no Irã (jovens que exigem liberdade continuam a ser mortas ou encarceradas e torturadas) e a segunda no Brasil (uma mulher é morta a cada seis horas – mulheres negras são mais agredidas) são denunciados diferentes graus de violência contra a mulher. Atrás de incontáveis e permanentes agressões, em lugares tão distantes, há uma história com origem comum.

O desfio é desnudar o gerador de violência invisível a olhos desatentos, e que funciona sem interrupção em todas as sociedades do mundo globalizado, mostrando-se em gestos e comportamentos no cotidiano das pessoas comuns, principalmente contra a mulher. Um sistema que potencializa a morte e se alimenta do medo e da negação.

O dramático é que as raízes da violência, em especial contra as mulheres,  continuam fortes apesar do avanço na conquista de seus direitos. Em algumas sociedades, parece que não saímos dos tempos da caça às bruxas e da fogueira. A imposição do ocultamento do corpo da mulher e seu banimento de qualquer direito mostra o ápice desta perseguição. Atos individuais alienados, dissociados do conhecimento sobre a formação das diferentes sociedades, levam ao comportamento coletivo continuamente obsessivo contra as mulheres, em diferentes graus e de diferentes formas, atualizando-as permanentemente.

Silvia Federici, em seu livro Calibã e a Bruxa, nos mostra que “as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar às formas de escravidão”. Em cada período histórico existem características próprias, mas é na transição pra o capitalismo que devemos compreender as origens da situação atual para ultrapassar a dicotomia gênero e classe. Através de dados históricos, a autora comprova que a opressão da mulher não é uma questão puramente cultural, mas está enraizada nas relações de classe.

Para Federici, pensar a violência que ocorre hoje contra as mulheres deve ser feita sob o entendimento da exploração dos trabalhadores (categoria à qual elas fazem parte) sob o capitalismo. Aqui está situado o gerador comum de violência com vestimentas diversas em cada cultura. Um sistema que se baseia no individualismo e na meritocracia, culpando o próprio explorado por suas derrotas: todos os que ficam às margens (descendentes de escravos africanos, imigrantes deslocados pela globalização, sujeitos das colônias europeias e, com lugar de destaque, mulheres). Nesta engrenagem é preciso ocultar o fundamento do sistema, a necessidade de uma massa de trabalhadores à disposição para serem explorados – com lugar de destaque para a mulher como reprodutora de força de trabalho e sempre à disposição segundo as regras do mercado – hoje globalizado – estabelecidas por ele. A história comprovou que a essência do capitalismo é oferecer ilusões de liberdade e prosperidade para todos, mas só alcançadas por poucos. Ilusões mascaradas de verdades para que possam ser engolidas e aceitas. Federici nos demonstra que é “impossível associar o capitalismo com qualquer forma de libertação ou atribuir a longevidade do sistema à sua capacidade de satisfazer necessidades humanas.” As crises cíclicas mostram que essa satisfação nunca vai ocorrer. O capitalismo se reinventa a cada crise, mantendo os mesmos males, dentre os quais dificultando a participação da mulher em todas as instâncias da sociedade em igualdade de condições com o homem.

Este cenário só pode realizar-se com a força e a violência, porque a resistência das trabalhadoras e dos trabalhadores sempre existiu, e a situação só não é pior por causa desta resistência. A história das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores é longa. Ela sofreu muitos apagamentos, especialmente a voz das mulheres. É preciso conhecê-la. Por isso, recuperar esta história, compreender os tortuosos caminhos para chegar onde chegamos na atualidade e, fundamentalmente, o lugar das mulheres neste caminho, é primordial para avançar rumo a uma sociedade equânime em qualquer cultura.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mudam apenas os caminhantes

 

 

Terminei  a releitura de As Memórias de Adriano onde acompanhei as viagens do imperador pelo vasto território romano do final do séc. I à primeira metade do séc. II. Nestas viagens, Marguerite Yourcenar fala pela voz dele. As reflexões abrangem os acontecimentos daquele tempo, as guerras, as disputas pelo poder; os entrelaçamentos da cultura romana com a grega que a antecedeu, mas continuava viva; as formas de convivência com os povos conquistados da Europa, da Ásia e do norte da África. Foi um repassar os pensamentos daquela época, suas visões de mundo, suas glórias, suas incertezas, seus sentimentos, seus desejos, seus valores. Dois mil anos depois, as querelas particulares e públicas não diferem do que vemos hoje. Elas apenas se manifestavam com as roupagens de seu estágio histórico. Muito do que acontece hoje mostra que a humanidade se desenvolveu cientificamente, mas não colheu seus frutos para viver em paz, continua a alimentar as disputas entre povos. Grupos no poder continuam a usar os mesmos motivos para guerrear com armas cada vez mais modernas e sofisticadas. Continuam a matar. E o poder continua predominantemente com os homens.

Ontem, vi a notícia que a Primeira Ministra da Escócia renunciou ao cargo por não aguentar as pressões políticas. O mesmo motivo que pouco tempo atrás a Primeira Ministra da Nova Zelândia utilizou para também renunciar. Ambas com ampla aprovação de seu eleitorado. Será um sinal de incompatibilidade entre o feminino, com tudo o que ele representa, e a máquina de poder? Há uma vasta literatura a respeito.

Temos um mundo que pode propiciar modos de vida com confortos fantásticos, doenças podem ser prevenidas e curadas, avançamos enormemente no conhecimento de nós mesmos e do universo, conseguimos produzir alimentos em larga escala. Mas tudo isso não é para todos. E, ainda, criamos novas doenças; os abusos de uns sobre outros, especialmente sobre os mais frágeis, estão disseminados nas famílias e nos lugares mais marginalizados; ainda existe o trabalho escravo; milhões de pessoas passam fome e sede, sequer sabem ler e escrever, vivem à margem de todo progresso da humanidade. Uma equação ainda não resolvida. Sabemos disso desde sempre.

Mesmo assim, há poucos dias um líder europeu afirmou que é preciso aumentar a produção de armas para ajudar a Ucrânia. Enquanto isso o país continua a ser bombardeado em todo o seu território. E não se vê frutificar a diplomacia. A disposição de vencer essa guerra é reafirmada todo o dia por Ucrânia e Rússia. Os milhares de mortos civis e de jovens soldados, não têm rosto. E nem falamos nas outras guerras que existem pelo mundo.

Há que escolher outra equação.

No Brasil, está sendo colocando a nu o que já sabíamos que o governo anterior estava fazendo. O horror no interior da Amazônia está sendo tratado com urgência. Muitas outras frentes estão sendo abraçadas. Um trabalho que exige muitos esforços e muito tempo. E há muita gente ligada ao passado – não só do governo anterior, mas do tempo da ditadura – que age contra esses esforços. Para quem não está no governo e deseja um mundo equânime precisa encontrar a própria forma de colaborar. Há muitas maneiras, cada um precisa encontrar a sua. É urgente fazê-lo.

Há vozes corajosas e competentes espalhadas pelos país que desconstroem diuturnamente o mundo paralelo de negação da realidade. Uma forma é somar-se a elas e dizer a própria palavra para multiplicá-las. É como aplicar um antibiótico à infecção que se apoderou do país. A dose deve ser forte o necessário e por um tempo longo, porque ela se espalhou por todo o território. O tratamento será longo e ninguém está fora.

Tomara que mais e mais mentes se somem nesta caminhada. Não há fim para ela, mudam apenas os caminhantes.

 

sábado, 7 de janeiro de 2023

Tempo de "devir"


A vitória de Lula assemelha-se a um conto de fadas. Um final feliz. Os bruxos maus foram expulsos.

Muitos me dirão calma lá, o governo recém começou, o país está sem dinheiro, o patrimônio público foi depredado, as instituições foram exauridas, há milhões que torcem para que dê errado, o mercado espera a sua vez para dar o bote, o congresso não é confiável, há tudo para ser reconstruído. A própria “esquerda” critica algumas escolhas para os ministérios. Dizem que é por ser, ela mesma, muito crítica. A lista de temores e obstáculos é muito grande. Os bruxos não morreram, estão à solta.

Continuo a sentir uma leveza que não sentia há anos.

Contrariamente àquilo que suportei – eu e milhões de brasileiros – desde o golpe contra a Dilma, o dia amanhece sem sustos. Fomos Sísifos, empurrando um saco de notícias ruins, de maldades cometidas pelo governo que se foi, de seguidores fanáticos replicando crueldades, de ameaças visíveis e mascaradas. Não quero falar dos horrores já barrados. Agora não. Li várias pessoas terem o mesmo sentimento.

Continuo a me encontrar saboreando uma paz há muito esquecida.

O ápice do terror instalado no país quatro anos atrás deu-se no processo da eleição. Tudo o que podiam fazer os antigos inquilinos da Alvorada colocaram em prática para ganhar as eleições. Utilizaram a máquina do governo a pressionar, a chantagear e a comprar votos. Tudo bem documentado pela imprensa. E perderam. Ainda assim, alguns setores que votaram no Lula, acharam que deveríamos ter ganhado no primeiro turno, que a diferença foi pequena, que merecíamos mais. Tudo foi analisado. Foi comprovado que a vitória foi grandiosa, inequívoca e estrondosa. A resistência e a luta por justiça e por um país melhor foram gigantes.

Continuo a me alimentar do que significa ter ganhado essas eleições para o país e para o mundo.

Preciso da paz, da serenidade, da crença que vale a pena lutar, da alegria de milhões de brasileiros irradiada com a posse de Lula e com os rituais que nos mandaram a mensagem de um país vivo e de um governo que lutará para reconstruir o que destruíram.

Continuo a me envolver nas imagens e discursos de algumas mulheres e de alguns homens escolhidos para dirigir os Ministérios.

A poucos dias de governo, e os analistas “do nosso lado” já apontaram a necessidade de demitir ministros. Mas não quero me envolver nesta discussão. Estou feliz porque meus netos compartilharam de minha alegria e vão poder falar destes momentos históricos, quando eu já não estiver. Eles terão vivido um tempo que lhe valerá para as futuras lutas que hão de viver e exigirão sua posição.

A trégua que me concedo é necessária para manter minha saúde psíquica e física. Preciso delas para acompanhar e apoiar o governo nos próximos quatro anos. Para apostar num tempo de “devir” novos sentidos e subjetividades a favor da vida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O desafio continua

 

                Eu passava por ela e pensava que devia ser paralítica ou deveria ter algum problema grave nas pernas. Durante muitos anos, eu vi a mulher sentada na calçada envolvida em trapos junto ao muro que delimitava o clube. A calçada ali era estreita e os pedestres passavam mais distanciados dela que podiam. Alguns até caminhavam no asfalto, mesmo na avenida movimentada. Eu também.  Ali era seu lugar, inclusive das suas necessidades fisiológicas. O cheiro era insuportável.  A sujeira dela e a da calçada davam nojo. E o nojo vinha enrolado na raiva que sempre sinto ao ver a degradação humana em meio à abundância da qual faço parte. A impotência se agregava e acionava o conhecido mecanismo do esquecimento um pouco adiante. Só me dava conta que ela desaparecia de tempos em tempos, quando voltava a sentar-se lá. Perguntava-me onde ela teria andado, mas também esquecia sem esperar resposta. Um dia, passei a ver um homem sentado ao lado dela, igualmente sujo e fedorento. A intervalos, os dois também desapareciam. Às vezes xingavam-se, às vezes conversavam baixinho como a compartilhar segredos, às vezes dormiam totalmente cobertos pelos trapos.

Um dia, encontrei-os na calçada em frente a uma agência bancária, uns duzentos metros adiante do primeiro local. Este, estranhamente limpo. A chuva deve ter feito a faxina. O casal, sentado em meio a uma quantidade muito maior de trapos e sacos, fixou ali seu novo ponto. O uso da calçada tornou-a imunda e mal cheirosa como a anterior. Ali a largura era bem mais ampla e os pedestres não precisavam desviar, nem mesmo para entrar na agência. Soou-me como uma irônica denúncia. A resposta sobre a origem de tanta diferença de vida numa mesma sociedade estava às costas deles em letras e logotipo nacionalmente conhecidos. Um retrato do país.

Um tempo depois, eles despareceram dali. Ou foram desaparecidos. Aquele local pertencia a bairro nobre da cidade. Grades circundaram o espaço antes ocupado pelo casal, e dentro dele foram plantas duas palmeiras. Tudo limpo e sem traços de qualquer ocupação. A calçada estava sob nova apresentação. Nunca mais vi o casal.

Durante alguns anos, aquele homem e aquela mulher eram testemunhos solitários de uma população de rua invisível no bairro. Uns e outros circulavam por tempo curto e desapareciam. Nunca foram muitos, mas num movimento que nunca cessou. Semelhante a mosquitos que invadem nossa sala numa noite de verão. Damos caça, fechamos as janelas e ligamos o ar.

Nos últimos anos, com aumento enorme na pandemia, está sendo impossível caminhar algumas quadras sem ouvir um pedido de ajuda, sem ter a oferta de balas ou panos de prato, sem ler “estou com fome” num cartaz. E não são somente moradores de rua. Homens vestidos modestamente, com filhos pequenos acomodados num canto, procuram vender alguma coisa. Nunca haviam sido vistos pelo bairro. Não são sempre os mesmos. Não há como não ver pessoas que devem ter perdido seu emprego, devem ter tido sua vida desestruturada, e se viram como podem. Perguntei-me que distâncias devem transpor para chegar até aqui e porque não são sempre os mesmos. Poucos são os que permanecem e se tornam conhecidos. Uma realidade que bate na nossa cara, e um gesto solidário de nossa parte é pequeno e insuficiente, embora necessário.

Chegamos ao fim do ano, aliás, ao fim de seis anos de retrocesso no país. Domingo, enfim, assumirá nosso Presidente. A reconstrução do país estará começando com um caminho difícil, com muitos obstáculos a superar, com instituições a serem reconstruídas, mas com muita gente – nos postos chave da administração federal – que tem o mesmo sonho de fazer deste país um lugar melhor para viver. Aliás, já está sendo feito.

Embora, não tenhamos nem o governo estadual e nem o municipal na mesma sintonia, os reflexos de nova política social do Governo Federal se farão sentir também nas nossas ruas. Que elas sejam cobertas apenas das flores de cada temporada. Este é o horizonte à nossa frente, porque a maior parte do povo brasileiro disse sim à esperança, à empatia, ao afeto, à alegria espelhada no outro.

 O próximo ano colocará em ato a vitória do desejo de vida expressa na vitória de LULA. E cada um que compartilha deste desejo precisa continuar a estar vigilante e a apoiar o que foi conquistado. O desafio continua.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Preciso voar

 

Voar. Sobre as ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela, ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora. Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época. As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos, lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto, só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Alegria contida


Acordei no meio da noite com o peito oprimido e com sensação de ansiedade, havia dormido pouco?, o que havia acontecido?, por que eu me sentia com medo? Lembrei que o domingo havia terminado bem, não como eu desejaria, mas muito bem diante de tudo o que havia ocorrido nos dois últimos dois meses de campanha onde o poder econômico da máquina do governo esteve o tempo todo a favor do atual presidente. Sem falar nos últimos quatro anos. Eu tinha certeza de que LULA venceria, mas o perigo estava sempre rondando. Chorei muito diante do Presidente LULA enquanto fazia seu discurso de líder onde resgatava todos os nossos desejos para o país.  Foi um choro gritado, soluçado e sem conseguir parar. Eu estava feliz e queria rir, mas chorava. Precisava expulsar a ansiedade nas lágrimas contidas diante das inúmeras injustiças praticadas pelo governo que está terminando. Precisava aliviar meu corpo e minha alma das tensões que não encontravam fim, porque as barbáries deste governo eram diuturnas. Incessantes. Então veio o cansaço e fui dormir. Adormeci logo. Por isso, não entendia as razões de ter acordado no sufoco. Eu havia optado por não ir festejar na rua, queria estar recolhida, precisava de isolamento para recarregar minhas energias. Eu me sentia esgotada e minha alegria era uma alegria contida, como eu havia dito a uma amiga algumas horas antes. Contida por quê? Não tenho certeza das razões. As que consigo identificar estão ligadas aos medos que não deixam minha alegria explodir. Medos construídos a partir das ameaças e ações que o atual presidente pode desencadear nestes dois meses que lhe restam. Sabendo de sua maldade e de sua falta de limites. Dele e do grupo que o cerca. Nosso primeiro passo foi alcançado que foi eleger o Presidente LULA, apesar dos milhões que ainda votaram nele apesar de todos os horrores advindos do governo dele. Uma fantástica vitória que tem de valorizar e saborear como um fruto raro entregue pelas forças da natureza brasileira. Na verdade, uma façanha de milhões de brasileiros, muitos dos quais em linha de frente e ao alcance das garras do poder. Muitos perderam a vida neste enfrentamento. Devemos festejar também por eles, pela sua memória. Minha forma de festejar foi em recolhimento, sintonizando-me com todas as boas energias que estão explodindo país afora. Eu disse várias vezes que já alcancei uma idade que não vai me permitir ver a sociedade brasileira alcançar um nível de civilidade desejado, mas estive lutando pelos meus filhos e, principalmente meus netos. E todos os filhos e netos do país.

                Como disse LULA, nosso Presidente, só envelhece quem não tem uma causa e a causa dele é cuidar do povo brasileiro, por isso ele não envelhece. Neste sentido, apesar da idade cronológica, eu também não envelheço porque estarei sempre ao lado de quem luta por um governo que cuida deste povo tão culturalmente rico, sofrido e resistente. Sei que milagres não vão acontecer, nos últimos quatro anos o país foi massacrado e saqueado. Espero, no entanto, ver os sinais de um novo tempo nas ruas sem crianças a pedir ajuda para comer.

            Que as forças do universo estejam em sintonia com o Presidente LULA nas suas decisões. Milhões de brasileiros espalhados pelo país, embora mais concentrados no Nordeste, também estarão ao seu lado.