Estou em
casa há alguns dias depois de uma viagem inesquecível no tempo da cultura
grega. Todos os que frequentaram a escola, leram sobre história, foram ao
teatro, prestaram atenção ao que acontece ao redor, sabem alguma coisa da
história da Grécia. No entanto, andar por aquelas terras foi penetrar noutro portal
de conhecimento, foi sentir, mais que conhecer os lugares sobre os quais lemos
ou ouvimos. Meus pensamentos se envolveram em experiências sensoriais
insubstituíveis. Vi-me frente a testemunhos de ensinamentos que servem até hoje,
de obras de engenharia a serviço da arte – e que funcionam ainda –, dos
alicerces de uma organização social utilizada por aqueles que a invadiram e a
dominaram. Ela também tinha suas contradições como não poderia deixar de ser.
De transformação em transformação, a Grécia enfrenta problemas comuns a tantos
outros países, tendo sofrido um governo ditatorial num passado não tão remoto.
Hoje, leio sobre a reeleição de um governo de direita, apesar das críticas
graves e recentes sobre a sua administração.
Ouço as
notícias sobre o nosso país e elas me perturbam, me deixam triste, desanimada.
Ouço as
notícias sobre o mundo e aumenta minha
perturbação.
Vivemos um
período de crescimento mundial de forças reacionárias, de direita xenófoba, de
fakenews, de pós-verdade, de crescimento das seitas religiosas, que de religião
não têm nada, vendo pobres defendendo ideias e políticos que os amordaçam e os
constrangem a nunca sair do seu lugar (tudo sem se darem conta, como estivessem
dopados), de ver cair os parâmetros de conhecimento – que balizaram nosso
caminho ao longo da vida – sem que outros nos sustentem.
Somos
testemunhas de um tempo tenebroso que parece durar uma eternidade diante do
percurso individual. No entanto, significa uma fração mínima para a história da
humanidade e poderá ser registrada com uma frase, uma citação a ler lida no
futuro, se houver futuro para os humanos. E, ainda, uma fração infinitamente
microscópica para a história do planeta.
A
possibilidade de futuro para os humanos está enraizada na capacidade de
enfrentamento dos extremismos. Felizmente, ou justamente porque a vida se
alimenta de forças diversas, temos chances de sobreviver. Existem mentes brilhantes
e aguerridas se erguem no tecido contaminado e destruidor da superfície
terrestre. Elas lutam desde sempre e animam até quem como eu se sente descrente
e com a esperança ajoelhada.
O encontro
com a história da Grécia foi olhar através de uma lente de aumento o tempo
presente à luz dos mais de 3.000 anos de história e voltar às perguntas
iniciais sobre os problemas atuais e sobre o sentido da vida com os sentimentos
mais diversos e intensos. Foi voltar a olhar o que acontece no país e no mundo a
partir do que foi e do que nos ofereceu aquele pequeno país circundado pelos
mares Egeu e Jônico. Seu enorme legado na filosofia, nas ciências e nas artes
não impediu o contínuo deflagar de guerras entre os povos do ocidente e do
oriente. Neste momento, enquanto alguns de nós mergulham nas maravilhas que o país
nos ofereceu: ucranianos e russos matam-se a pouco mais de 2.000Km; o povo enfrenta
questões étnicas e protesta nas ruas de Kosovo a cerca de 800Km; milhares de
imigrantes fogem da guerra e da fome da Ásia e da África e morrem afogados no
mar Mediterrâneo em busca de um lugar para viver em alguma parte da Europa. São
apenas alguns exemplos próximos.
De qualquer
forma, voltar ao passado serve para repensarmos e defendermos a possibilidade
de um futuro. E porque isto tem sido feito por parte da população e das
instituições que formam as sociedades mais diversas, não estamos em situação
pior. E porque isto não tem sido feito na intensidade e profundidade
necessária, estamos em risco de uma guerra nuclear, invocada não tão distante
de Atenas. A falta deste retorno, e mesmo a negação do passado pela insensatez
e arrogância humana, é que nos coloca no perigoso limite de nos destruirmos.
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