quarta-feira, 31 de maio de 2023

Olhar através de uma lente de aumento

 

Estou em casa há alguns dias depois de uma viagem inesquecível no tempo da cultura grega. Todos os que frequentaram a escola, leram sobre história, foram ao teatro, prestaram atenção ao que acontece ao redor, sabem alguma coisa da história da Grécia. No entanto, andar por aquelas terras foi penetrar noutro portal de conhecimento, foi sentir, mais que conhecer os lugares sobre os quais lemos ou ouvimos. Meus pensamentos se envolveram em experiências sensoriais insubstituíveis. Vi-me frente a testemunhos de ensinamentos que servem até hoje, de obras de engenharia a serviço da arte – e que funcionam ainda –, dos alicerces de uma organização social utilizada por aqueles que a invadiram e a dominaram. Ela também tinha suas contradições como não poderia deixar de ser. De transformação em transformação, a Grécia enfrenta problemas comuns a tantos outros países, tendo sofrido um governo ditatorial num passado não tão remoto. Hoje, leio sobre a reeleição de um governo de direita, apesar das críticas graves e recentes sobre a sua administração.

Ouço as notícias sobre o nosso país e elas me perturbam, me deixam triste, desanimada.

Ouço as notícias sobre o  mundo e aumenta minha perturbação.

Vivemos um período de crescimento mundial de forças reacionárias, de direita xenófoba, de fakenews, de pós-verdade, de crescimento das seitas religiosas, que de religião não têm nada, vendo pobres defendendo ideias e políticos que os amordaçam e os constrangem a nunca sair do seu lugar (tudo sem se darem conta, como estivessem dopados), de ver cair os parâmetros de conhecimento – que balizaram nosso caminho ao longo da vida – sem que outros nos sustentem.

Somos testemunhas de um tempo tenebroso que parece durar uma eternidade diante do percurso individual. No entanto, significa uma fração mínima para a história da humanidade e poderá ser registrada com uma frase, uma citação a ler lida no futuro, se houver futuro para os humanos. E, ainda, uma fração infinitamente microscópica para a história do planeta.

A possibilidade de futuro para os humanos está enraizada na capacidade de enfrentamento dos extremismos. Felizmente, ou justamente porque a vida se alimenta de forças diversas, temos chances de sobreviver. Existem mentes brilhantes e aguerridas se erguem no tecido contaminado e destruidor da superfície terrestre. Elas lutam desde sempre e animam até quem como eu se sente descrente e com a esperança ajoelhada.

O encontro com a história da Grécia foi olhar através de uma lente de aumento o tempo presente à luz dos mais de 3.000 anos de história e voltar às perguntas iniciais sobre os problemas atuais e sobre o sentido da vida com os sentimentos mais diversos e intensos. Foi voltar a olhar o que acontece no país e no mundo a partir do que foi e do que nos ofereceu aquele pequeno país circundado pelos mares Egeu e Jônico. Seu enorme legado na filosofia, nas ciências e nas artes não impediu o contínuo deflagar de guerras entre os povos do ocidente e do oriente. Neste momento, enquanto alguns de nós mergulham nas maravilhas que o país nos ofereceu: ucranianos e russos matam-se a pouco mais de 2.000Km; o povo enfrenta questões étnicas e protesta nas ruas de Kosovo a cerca de 800Km; milhares de imigrantes fogem da guerra e da fome da Ásia e da África e morrem afogados no mar Mediterrâneo em busca de um lugar para viver em alguma parte da Europa. São apenas alguns exemplos próximos.

De qualquer forma, voltar ao passado serve para repensarmos e defendermos a possibilidade de um futuro. E porque isto tem sido feito por parte da população e das instituições que formam as sociedades mais diversas, não estamos em situação pior. E porque isto não tem sido feito na intensidade e profundidade necessária, estamos em risco de uma guerra nuclear, invocada não tão distante de Atenas. A falta deste retorno, e mesmo a negação do passado pela insensatez e arrogância humana, é que nos coloca no perigoso limite de nos destruirmos.

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