sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nas dobras do tempo

A casa já não estava lá.
Ao chegar, a mulher nem identificou o lugar. Tanto tempo passado. Uma barreira de edifícios fora erguida junto à calçada. Não conseguiu enxergar sequer o centro da quadra, mesmo contornando-a pelo lado direito, como fazia quando lá morava. Uma lembrança persistia: o entorno da casa, um pátio onde brincara com seu cachorro, uma parreira, hortas e um banhado coberto de copos-de-leite. No entanto, outra bordadura de edifícios impedia a confirmação do que deveria ter sumido. Chegou a duvidar que o quarteirão, onde havia vivido boa parte da sua infância e adolescência, fosse aquele.
Sentiu-se roubada. Foi tão confiante àquele lugar para mostrá-lo a seus parentes que tinham vindo de longe. Suas lembranças ficaram solitárias. Desejou tê-la fotografado. Não o fez, talvez, por achar que ela permaneceria para sempre. Perpetuar a casa era, de alguma forma, um desejo de permanência daquele tempo. Quem sabe, uma tentativa de driblar fantasmas.
Quando viu a casa pela última vez, alguns anos atrás, sequer pensou sobre o futuro dela, era um fato dado que ela permaneceria ali, à sua disposição, intacta. O seu desparecimento trouxe-lhe a sensação de um já visto, outros desaparecimentos nas dobras do tempo. Ela não existia mais, ou deixou de existir apenas para os seus olhos? Mãe, irmãos e ela, conheceram ali o desamparo com a morte do pai.  Naquele lugar, ela viveu os anseios da adolescência e os sonhos de um futuro que se mostrou radicalmente diverso, que a levou para longe, para outra cidade. A casa não existe mais, a rua recebeu calçamento e, talvez, apenas um ou outro prédio tenha sobrevivido.
O que ela desejava ao tentar rever onde morou? Folhar um álbum do passado? Alcançar o que já se havia ido sem que tivesse percebido? Uma dor insistente foi se definindo aos poucos, como na dissolução vagarosa do vapor sobre um espelho. No fim, a imagem que lhe está defronte. Uma mulher diante dos sofrimentos não chorados na pressa de seguir adiante. Uma mulher que queria olhar-se, mas não havia conseguido fazê-lo.
Necessitava encarar as repetidas dores que a acompanharam. Esgotá-las. Cortar as raízes que alimentavam essas dores. Guardar só as lembranças, despidas de tensões, alicerces e vigas de sua história. Só assim poderia entrar em nova casa.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fortes na ternura



Fortes, é o que elas são.
Como os cipós da floresta
Presos, permitem voos, liberdade.
O deserto na secura
E elas, os cactos enraizados
Generosos,  oferecem flores e sumo.
Juncos castigados pelo vento,
Dobrados até o chão,
Mas não quebrados,
Erguem-se e agitam-se ao céu,
Majestosos e verdejantes
Oferecem sombra e frescor.
Em rachaduras de velhas paredes,
Entre pedras das ruas e beiras  esquecidas,
Flores vicejam  e se oferecem indiferentes.
Têm espinhos, asperezas e calosidades,
Mágicas  vestes do amparo que sabem dar,
Cores e cheiros a encantar.
São as mulheres que teimam
Gritar e chorar desgraças,
Rir e partilhar vitórias, sonhos.
Resistir a cada instante,
No eterno gesto de agarrar
A vida triunfante
Feita abraço e aconchego.

Dedicado ao Grupo de Mulheres do MDCA - Movimento pelos Direitos da Criança e do Adolescente - Partenon/Porto Alegre

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meu rio


No lugar onde nasci há um rio.
Como lembro do meu rio?
Largo e profundo
Águas frescas
Alguns trechos das margens
Cobertos por tapetes de seixos.
Ali tomávamos banho no verão,
Meu irmão, meus amigos.
Hoje, voltei.
As águas baixaram
Os seixos afloraram
E alargaram as margens,
Elas estreitaram as águas.
Ouvi dizer que as neves das montanhas
Estão desaparecendo
Não alimentam mais o rio.
Talvez, nem profundo seja mais.
O que o faz ainda meu rio?
A lembrança que tenho dele.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Instantes fora de controle

Eu vi os crocks cinzentos que ele calçava, quando se levantou e foi para a saída. As pernas magras estavam descobertas, então ele deveria estar de bermudas. Quando ele subiu, algumas paradas antes, meu olhar desfocado registrou que ele usava boné e estava mal vestido. Naquele momento, eu olhava a composição de casarões antigos e prédios novos da avenida, como costumava fazer ao passar de lotação por ali. Os testemunhos do passado lembravam-me as descrições de Josué Guimarães, que me encantavam. Pouco depois, ele se levantou.  A rigidez do corpo e a proximidade demasiada junto ao motorista fizeram com que eu lhe prestasse atenção. Ouvi: passa, passa, passa logo, passa tudo, ligeiro. Tom baixo, seco e decidido. Motorista submisso, gestos mansos, sem pressa. Em seguida, outras palavras: abre a porta, abre a porta, ligeiro, ligeiro, vai, vai. Alguns segundos explosivos.  A porta se abre e ele sai. O acontecido se desmancha no ar. Enquanto isso ocorria, olhei para as mulheres que estavam sentadas atrás do motorista. Uma delas tinha que estar vendo o que eu enxergava, era a mais próxima, mas olhava para fora. Da outra, não lhe vi o rosto. Os passageiros, mais ao fundo, nem devem ter percebido o que sucedia.  Eu incrédula, à direita do veículo. Na fração de tempo testemunhado, cheguei a pensar: Levanto? Grito? E se ele tem um revólver? Isto não é um filme. Está acontecendo agora.  O que o motorista vai fazer? Obedeceu e, ao final, olhou pelo espelho lateral por instantes, engatou a marcha e seguiu em frente. Nenhum telefonema, nenhuma conversa com qualquer um dos que estavam ali, como se nada tivesse acontecido. O motorista sozinho a digerir a agressão e o roubo.  Na avenida dos casarões de Josué Guimarães passavam bondes com seus motorneiros e cobradores. Quais teriam sido os perigos naquela época? Imagino, apenas, alguma eventual altercação por falta de bilhete. Até o fim da linha, duas vezes, o motorista parado diante da sinaleira vermelha, ergueu levemente os braços e balançou a cabeça, como a falar consigo próprio. Algumas paradas adiante, uma passageira chega até a poltrona à minha frente, vazia até então, e despeja sua ansiedade na narrativa do que fizera para se proteger ao suspeitar do rapaz. Sobem e descem mais algumas pessoas, na rotina do trajeto. Elas são inteiradas do que acontecera. O motorista responde a uma pergunta e afirma que lhe fora apontado um canivete. Continua a dirigir da mesma forma até o fim da linha. Foi feita a sugestão de testemunhar o assalto para o fiscal. Ele respondeu: Não adianta, vão descontar do meu salário. Retomará o itinerário quantas vezes forem programadas para aquele dia, preso a trilhos invisíveis do seu trabalho.

Um passeio com Arte e História

Mergulhar nos cenários do passado histórico do estado é uma experiência rica de emoções e de surpresas, principalmente para aquele que, por alguma razão, não tem o salutar hábito de revisitar suas raízes.  Uma recente visita a Piratini propiciou partilhar prazerosamente diferentes cenas cotidianas da época da Revolução Farroupilha.

As dramatizações substituíram a narração didática linear. O enaltecimento de figuras proeminentes foi substituído por diálogos entre algumas elas, captados como que por acaso. Assim, o grupo assistiu ao encontro entre lideranças diante do Palácio onde funcionou o Governo Provisório da República Rio-Grandense 1836-1845, na antiga Rua Clara, hoje Rua Gomes Jardim.  Da mesma forma, numa esquina, ouviu-se um guri distribuindo o jornal O Povo, acompanhou sua volta ao lugar onde foi impresso, para entregar ao jornalista Rossetti  o dinheiro da venda. Em seguida a conversa deste com Garibaldi, diante da casa que foi gráfica e moradia de ambos. 


A visão de Barbosa Lessa menino, diante daquela que foi sua casa. A beleza de sua narrativa encantou e transportou os presentes ao longo dos anos que viveu ali e para o mundo da literatura gaúcha, um dos resgates das histórias locais que enraízam e fortalecem a identidade.
A voz de figuras comuns também foi ouvida. No diálogo entre duas mulheres  que, passeando na praça, expressavam seus anseios em relação ao casamento e aos temores pelos homens que iam à guerra.  Outras duas mulheres diante da Camarinha, a comentar os acontecimentos locais. Falas entre escravas sobre suas lides domésticas: lavar roupa e cozinhar. Também sobre seus descansos com a saída dos donos, ou mesmo, de suas fantasias, como a de experimentar as roupas lindas da sinhá. Conversas entre os membros de uma das grandes famílias que passeava pela, hoje denominada, Travessa Manoel R. Lucas. Explicações envolvidas em folclore sobre a arquitetura e materiais de construção empregados naquele tempo. 

Enfim, um pequeno mosaico de Piratini dos anos 1830 e 1840, onde não poderia faltar o Hino Rio Grandense, cantado com paixão pelos artistas da terra e pelos presentes.

A recuperação de fatos cotidianos, que chegam apenas a leitores aficcionados, tornou possível um mergulho na época, não apenas nos fatos históricos usualmente ressaltados, mas sempre policromáticos, como também com experiências prosaicas da vida comum.  

À tardinha, uma surpresa.  No balcão do hotel, o “jornalista Rossetti”  foi quem atendeu com um sorriso, em seu trabalho cotidiano somado ao do teatro recém desempenhado. Passado e presente num entrelaçamento entre trabalho, diversão, cultura e arte, com os pés na história que alguns contribuem para não ser esquecida.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Vozes submersas


Vozes submarinas que vem à tona através das bandeiras, feitas outras bandeiras com recortes delas, costuradas  por  mãos anônimas.
Combinações, contradições, contravenções, subversões, todos territórios da arte que não quer fronteiras, como não o querem as vozes que são represadas em frascos com rótulos de centro, de bairro, de periferia, de marginal.
Composições que são o olheiro do mundo, o periscópio à cata do inimigo lindeiro, fronteiriço, do lado de lá.
Obras que levam a rupturas do já conhecido. Corredores de diferentes conexões, pensamentos, avanços e recuos. Desvelos de sucessivas ocultações, resultado da marcha cotidiana do mesmo passo, da mesma cooptação.
Movimento, desacomodação pelo captar de um eu que se repete na diferença entre bandeiras, entre nações, entre territórios, entre imposições a povos silenciados.
Fragmentos transformados em costuras de poderes desmascarados, expressos em novos símbolos a gritar, em rachaduras para emersões de novas forças.
Desmascaramento do poder dos símbolos e produção de novos territórios com fronteiras móveis e flexíveis,  que convidem à participação e à partilha. Não ao isolamento e à disputa. Derrubada de cercas, de moirões, de traçados imaginários que impedem  a circulação de ideias e sentimentos para congregar o ser humano num mesmo círculo.
Não somente o isolamento do espaço e tempo de um estúdio, mas partilha do caminho na produção da obra.
Caminhos para estranhar e perguntar sobre os laços, finos e implacáveis, a que cada um é preso no viver cotidiano, onde marcas, compras, automatismos são instituídos no vazio de um não pensar, não reivindicar, não criar.
Convite para substituição do concordar, disciplinar, seguir. Convite a parar, surpreender-se, emocionar-se e ver o duplo, triplo ou quádruplo como outras potências.
Atração para outras virtualidades de mundo. Portas para outras formas de estar no mundo.
Recusa contra a estagnação. Há outra porta, janela, entrada e saída para o acontecimento cotidiano, para a imaginação, para alcançar o outro. Quebra de correntes que imobilizam num mesmo modo de pensar.
Não importa a classificação, se arte conceitual ou moderna, se instalação ou obra, se melhor ou pior que em outros períodos. São sucessivos e ininterruptos convites para ultrapassar as mil sutilezas que nos aprisionam na mesmice travestida na ilusão de mudança. É convite à curiosidade e à descoberta.
Esses são os territórios sem fronteiras atravessados por Sandras, Brunas, Zíngaros, Marias, Marcelos, Jessicas e Joãos, mediadores que acompanham e conversam com quem se dispõe a andar pelos armazéns do cais do porto, pelo Santander, pelo MARGS, pela Casa M e pela cidade não vista.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Neblina

Neblina, sempre neblina.
A neblina está presente na cena final de Deuses e Homens, na peça Histórias de Amor Líquido, em acidente com centenas de carros em estrada de São Paulo.
A neblina mascara, reveste, esconde ou sugere. Uma certa neblina envolve o cotidiano, em situações de não saber ou quase saber.  Ela serviria de manto protetor e, ao mesmo tempo, dissimulador da incapacidade de um seguir confiante e seguro? Ignorância ou ocultamento da ignorância. Nebulosidade.
         Guerra pela independência de uma nação, uma história contemporânea e engavetamento de automóveis. Excessos e impossibilidades conectados na luta pelo poder, na fluidez dos contatos humanos e nas tragédias urbanas.  Três tempos/lugares diversos e, no entanto, o mesmo esfumaçar da visão.  Três atos, replicados indefinidamente antes e depois deles. Na repetição, a diferença em cada contexto.
         Sempre fica algo oculto, impossível de alcançar, como se uma neblina eterna negasse a porta para a resposta final. A neblina mostra-se como negação de, enfim, um chegar lá. Ao mesmo tempo – há sempre um “ao mesmo tempo” – ela poderia transformar-se em impulso para seguir adiante, para a busca, para a possibilidade.
         Paisagens, nas quais a neblina emoldura, preenche espaços, delineia planos, contrasta níveis são um convite a pressupor e a criar. O mesmo motor oculto que gesta rios etéreos de fantasias e sonhos. Aí, ela convida à ultrapassagem, não ao recuo ou à estagnação da dominação, do isolamento e da restrição .
         Se a neblina perturba, mas, também, encanta, o seu poder não estaria nela própria, mas nos toques e imersões que o homem se permite nela. Então, a potência do acontecer estaria na relação entre neblina e homem, não numa ou noutro.
         Neblina, nunca só neblina.