Eu vi os crocks cinzentos que ele calçava, quando se levantou e foi para a saída. As pernas magras estavam descobertas, então ele deveria estar de bermudas. Quando ele subiu, algumas paradas antes, meu olhar desfocado registrou que ele usava boné e estava mal vestido. Naquele momento, eu olhava a composição de casarões antigos e prédios novos da avenida, como costumava fazer ao passar de lotação por ali. Os testemunhos do passado lembravam-me as descrições de Josué Guimarães, que me encantavam. Pouco depois, ele se levantou. A rigidez do corpo e a proximidade demasiada junto ao motorista fizeram com que eu lhe prestasse atenção. Ouvi: passa, passa, passa logo, passa tudo, ligeiro. Tom baixo, seco e decidido. Motorista submisso, gestos mansos, sem pressa. Em seguida, outras palavras: abre a porta, abre a porta, ligeiro, ligeiro, vai, vai. Alguns segundos explosivos. A porta se abre e ele sai. O acontecido se desmancha no ar. Enquanto isso ocorria, olhei para as mulheres que estavam sentadas atrás do motorista. Uma delas tinha que estar vendo o que eu enxergava, era a mais próxima, mas olhava para fora. Da outra, não lhe vi o rosto. Os passageiros, mais ao fundo, nem devem ter percebido o que sucedia. Eu incrédula, à direita do veículo. Na fração de tempo testemunhado, cheguei a pensar: Levanto? Grito? E se ele tem um revólver? Isto não é um filme. Está acontecendo agora. O que o motorista vai fazer? Obedeceu e, ao final, olhou pelo espelho lateral por instantes, engatou a marcha e seguiu em frente. Nenhum telefonema, nenhuma conversa com qualquer um dos que estavam ali, como se nada tivesse acontecido. O motorista sozinho a digerir a agressão e o roubo. Na avenida dos casarões de Josué Guimarães passavam bondes com seus motorneiros e cobradores. Quais teriam sido os perigos naquela época? Imagino, apenas, alguma eventual altercação por falta de bilhete. Até o fim da linha, duas vezes, o motorista parado diante da sinaleira vermelha, ergueu levemente os braços e balançou a cabeça, como a falar consigo próprio. Algumas paradas adiante, uma passageira chega até a poltrona à minha frente, vazia até então, e despeja sua ansiedade na narrativa do que fizera para se proteger ao suspeitar do rapaz. Sobem e descem mais algumas pessoas, na rotina do trajeto. Elas são inteiradas do que acontecera. O motorista responde a uma pergunta e afirma que lhe fora apontado um canivete. Continua a dirigir da mesma forma até o fim da linha. Foi feita a sugestão de testemunhar o assalto para o fiscal. Ele respondeu: Não adianta, vão descontar do meu salário. Retomará o itinerário quantas vezes forem programadas para aquele dia, preso a trilhos invisíveis do seu trabalho.
A palavra continua sendo um caminho poderoso para estar no mundo. Ela tem sido de ajuda para resistir a tudo o que tem acontecido no entorno mais próximo e mais longínquo. Companheira sempre à disposição, embora nem sempre eu consiga aceitar seu convite para usá-la. Às vezes, ela me ajuda a seguir em frente. Sempre me coloca em contato com o outro. Isto é um privilégio. Compartilho-a com quem desejar me honrar com sua leitura.
Oi Rosa, muito bom, cada vez melhor! beijos mil vera renner
ResponderExcluirMais um belo texto, mais um presente a teus leitores. Beijo, Isabel
ResponderExcluirMuito bom, além de tudo serve como uma denúncia de como a vida tratamos a vida com banalidade.bjo
ResponderExcluirMaureen