A palavra continua sendo um caminho poderoso para estar no mundo. Ela tem sido de ajuda para resistir a tudo o que tem acontecido no entorno mais próximo e mais longínquo. Companheira sempre à disposição, embora nem sempre eu consiga aceitar seu convite para usá-la. Às vezes, ela me ajuda a seguir em frente. Sempre me coloca em contato com o outro. Isto é um privilégio. Compartilho-a com quem desejar me honrar com sua leitura.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Meu cotidiano diante do belicismo de Trump
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
As palavras têm peso
As palavras têm peso, cor e tamanho.
Algumas caem mais fundo em nós
“A
dor da mãe do policial é a mesma dor que a minha”. Estas foram as palavras de
uma mulher jovem negra diante das câmeras no complexo da Penha. Ela disse mais,
não apoiava o que seu filho de vinte anos fazia, mas ela era mãe e não podia
dar-lhe as costas, mas que o Estado tinha que ver o modo em que eles viviam,
ela trabalhava duro para sustentar o filho morto e mais uma menina, ela era
solteira, e o que mais via era falta de oportunidades para trabalhar e viver
melhor, era isto que precisava ter, oportunidades. Não adiantava sair matando
como fizeram.
Eu
ouvi as palavras desta mulher e me emocionei pela sua dor, mas também pela
dignidade com que as pronunciava. O que ela expressou em primeiro lugar foi sua
empatia por outra mãe do lado oposto ao seu na escala social. Não reivindicava
pena pela sua situação, nem ódio, mas indignação sobre as causas da situação em
que ela se encontrava. Na dor da perda, ela conseguia extrair o que deveria ser
pensado para o dia seguinte, para a vida que continuava ali, no mesmo lugar da
irrupção policial que havia se retirado. Ela e a população do lugar não teriam
para onde ir, não podiam sair dali como havia feito a polícia. Ela apontou para
o dever do Estado de se tornar presente para que as ações policiais daquela
natureza sejam repensadas.
Como
mãe pude rever os meus esforços para criar meus filhos da melhor forma que eu
podia. E não pude deixar de fazer comparações. A distância enorme entre o lugar
em que eu nasci e o dela, ponto de partida para nossas caminhadas. Ponto de
partida para nossas escolhas, se é que podemos falar em escolhas. Desde a
própria presença desde o nascimento, com direito a licença maternidade, o
acompanhamento do pediatra, a orientação para alimentação, os amigos, a escola
(os livros para gostar de ler), aula extra para o inglês, o clube para fazer um
esporte, tudo com enormes dificuldades, mas foi possível. O que não teve aquela
mãe? E tantas outras na mesma situação? Eu sei através da literatura, de
reportagens da imprensa que se interessa em dar voz a quem é invisível
socialmente, ao depoimento de mães em meus contatos com movimentos sociais. Há
um fosso muito grande em “ouvir” e “viver” uma realidade, embora a dor seja a
mesma como disse aquela mãe. Há, no entanto, diferença também em como cada mãe
pode receber amparo na sua dor.
A
empatia que todas as mulheres merecem, ao perder um filho daquela maneira, necessita
continuar. Uma forma é cobrar a presença do Estado nas periferias das cidades,
não só daquelas em evidência agora, através de participação popular em qualquer
lugar do país. A primeira, no entanto, é não esquecer.
sábado, 6 de setembro de 2025
Prêmio em dinheiro
Olho a foto que mostra o governador no palco com microfone na mão, diante de mil e cem gestores no Teatro da
Feevale em Novo Hamburgo. Só depois, leio a notícia de que o Governo do Estado
lança um Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha. Vou ao texto, leio e
releio. Confiro que está se tratando mesmo do Governo do Estado do Rio Grande
do Sul. Deveria estar no mínimo curiosa e entusiasmada, tenho a escola estadual
no meu coração. O Governo do Estado está preocupado com a Educação. Não
consigo, acompanho a lenta e degradante depauperização do sistema estadual de
educação há muitos anos, especialmente na última década, especialmente no
governo dele. Eu fui professora na escola pública, aposentei-me como professora
estadual.
Ano de 1965, eu chamaria
o ano da virada na minha vida. Fiz concurso para o Magistério Estadual, para
lecionar Geografia no 1º e 2º Graus.
Lembro dos primeiros
meses em que comecei a lecionar como professora de Geografia e me perguntavam o
que eu fazia, eu adorava que me perguntassem, e eu respondia com orgulho “sou
professora do Estado”. Revendo aquele tempo, vejo que não era um status
privilegiado, com salário extraordinário (embora bem melhor do que eu recebia no
emprego anterior), mas minha resposta estava ancorada no sentimento de respeito
e valorização que eu recebia pelo cargo exercido.
Hoje, as notícias
veiculadas pelo sindicato de professores e outras fontes dão conta da
precariedade estrutural de numerosas escolas, tanto físicas como de salários e ausência
de incentivos ao aprimoramento profissional. Este governo conseguiu extinguir
um plano de carreira que protegia minimamente os professores de políticas
arbitrárias. Por outro lado, as notícias veiculadas nos sites governamentais são
de realização de centenas de obras e com um atendimento fantástico à rede. Há
uma guerra de informações que não mascara a grande percentagem de professores
que adoecem, outros que abandonam a profissão, e mesmo o movimento de
diminuição de alunos da rede estadual e o acréscimo na rede particular.
Se não bastasse, os
problemas estão também nos ataques à questão curricular e as tentativas do
governo de colocar sob a orientação de grupos empresariais a condução do
trabalho pedagógico. É a privatização da educação subsidiada por dinheiro
público. Uma trama de consequências nefastas para a formação dos alunos.
Vejo tudo isto e lembro
quantas lutas fez a minha geração por uma escola pública e de qualidade. Esta
expressão me soa tão atávica, de um passado tão remoto que soa inverossímil.
Por Outro lado, o governo
se arvora de sucesso com o tratamento dado à educação, utilizando os dados do ENEM,
onde o Rio Grande do Sul teria se saído bem. Segundo a deputada estadual Sofia
Cavedon, o Estado sempre foi bem no ENEM, e os resultados de agora se sustentam
a partir de escolas de municípios pequenos onde as condições de vida e de
cuidados da escola são melhores. O ENEM não avalia a aprendizagem do Ensino
Médio. O indicador oficial para isso é o IDEB. Em 2023, o Estado perdeu
posições e ficou em 10° lugar no ranking nacional. E o RS tem um dos maiores
índices de jovens fora da escola no Brasil. 44% dos jovens de 15 a 29 anos
trabalham sem estudar.
Por último, a grande alternativa
oferecida pelo governo para melhorar a qualidade do ensino é um prêmio em
dinheiro para os professores e escolas que forem mais eficientes. Um incentivo
à disputa e à meritocracia num quadro como o descrito acima. O que podemos
esperar disto tudo???
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Sem palavras
A notícia de hoje (11.08.2025), sob o título Está Encerrada a Cobertura, é a morte dos cinco jornalistas da Al Jazeera que ainda estavam em Gaza. A tenda para os jornalistas foi
bombardeada por Israel.
Quantas vezes
escrevi “sem palavras” sob cada imagem terrível dos corpos e edifícios
destroçados em Gaza veiculada nas redes sociais? Minha impossibilidade fez eco ao
texto de Agualusa onde está sua afirmação de que nossa língua não tem palavras
para nomear os horrores que testemunhamos em tempo real em várias partes do
mundo, mas especialmente em Gaza. As palavras que conhecemos não mais dão conta
dos sentimentos que aqueles horrores nos provocam. Igualmente para descrever o
que vemos já não há palavras.
Há muito tempo já
não consigo nomear o que sinto quando vou verificar as notícias. Alguma coisa
trancada no peito quer sair, mas fica lá dificultando a respiração, ou
fazendo o coração acelerar. Pergunto-me se são o pudor e o medo que não a
deixam sair, aqui também faltam as palavras para nomear o que não vejo, apenas
sinto o que nunca senti.
Precede-me uma
teimosa e incontrolável esperança de que a manhã seguinte traga a notícia do
término do genocídio. E toda manhã esmoreço. Não neste dia. Ainda não. Ainda
estão lá mais destroços, mais rostos desesperados, mais crianças que choram, mais gente amontoada com panelas estendidas, mais corpos espalhados ou amontoados. Ainda está lá a
máquina destruidora de um país que se tornou o exportador de inferno para uma
população indefesa que está sendo estraçalhada ou morta de fome aos poucos. Tudo
isso passa por meus olhos em instantes toda manhã. E só consigo deixar de
olhar, quando meu mal estar está tão forte que me obriga a saltar umas horas
sem acessar as notícias daquele pedaço de mundo.
Eu, testemunha
disto tudo e continuo a comprar na feira semanal de orgânicos, a limpar a casa
a cada semana, a regar minhas plantas, a ir um show musical, a ver minhas
séries na tv, a tomar um café com minhas amigas, a fazer exercícios de
musculação três vezes por semana. Sei que não pode ser diferente, mas isto não
me consola. A recomendação que recebemos antes de iniciar um voo é de que, em
caso de despressurização, cai uma máscara e devo colocá-la em mim antes de
ajudar quem precisa. Este pensamento vem em minha ajuda para lidar com o sofrimento
que presencio como se estivesse ao alcance de minha mão ajudar alguém. E vivo
meus dias, esqueço. Não consigo alcançar a máscara a quem precisa.
Fico me
perguntando se sinto raiva e não sei responder. É algo diferente que não sei
nomear. Sinto raiva daqueles rostos que pronunciam atrocidades, daqueles rostos
que sei terem mandado matar, daquelas bocas que mentem, daqueles olhos de gente
corrupta? Sinto raiva de toda esta maldade? Não sei responder. Talvez, porque
sei que o que vejo é apenas a ponta do mal que está disseminado não só neste
grupo que nestes últimos meses tem disseminado o horror do inferno. Sei que a
origem está difusa pelo mundo que alimenta o que está acontecendo por lá. Uma máquina
cujos tentáculos são os do sistema financeiro, da produção de armas, de
agrotóxicos, de pedófilos, de ilusões disseminadas pelas redes sociais e
conquistam as mentes dos próprios escravizados.
Quando vejo o que
está acontecendo em Gaza, vejo o restante do mundo responsável pelo que está
acontecendo lá. E continua a acontecer, apesar das multidões que estão saindo
às ruas pra protestar. Milhões de pessoas desejam e gritam para que este
genocídio termine, que a Palestina seja livre e reconstruída. No entanto, as
instituições que poderiam fazê-lo estão contaminadas e são surdas a esses
gritos.
Então, para onde
dirigir minha raiva? Ou, ódio?
No século passado
tínhamos inimigos visíveis, nazismo e fascismo.
Lembro
da segunda guerra mundial do século passado, volto a ela constantemente, mas
nada se compara àquilo que testemunho hoje. Embora a maior parte dos que estão
ainda vivos da minha geração não imaginassem testemunhar o genocídio em Gaza,
existiram vozes que anunciaram um futuro de permanente conflito na região. No
entanto, aquelas vozes não anteciparam os mesmos horrores sobre os palestinos, pelos próprios judeus.
sábado, 5 de abril de 2025
Figos-da-índia, pardais e castores
A viagem a Ushuaia e a El Calfate foi tão impactante que já se passaram alguns dias, continuo a olhar as fotos e a sentir as emoções que aqueles lugares me provocaram. Ali mergulhei em verdades apenas imaginadas.
O
que vi e vivi fez-me voltar a ler o livro Nação das Plantas de Stefano
Mancuso. Ele expõe a relação entre diferentes plantas, insetos e animais,
formando sistemas. Por sua vez, há a existência de íntima relação entre os
diferentes sistemas, formando uma única rede de relações que recobre o planeta.
Quando um dos elementos é eliminado, toda a rede sofre alterações, como numa
rede de pesca. Se ali é feito um furo a alteração é pequena, mas à medida que
mais furos possam ocorrer, inviabilizaria a pesca. Assim é com a camada de
águas, terras, vegetação, insetos e animais que recobre a Terra. O que havia
entendido lendo, meus olhos, ouvidos e arrepios pelo corpo compreenderam ao
testemunhar a queda de blocos de gelo a poucos metros à nossa frente na proa do
barco. Num jato, vieram-se as imagens da poluição na cidade onde vivo. E as de
muitas partes do mundo. Cenas distantes e, ao mesmo tempo, conectadas. Tudo
está conectado.
Mancuso,
o neurobiólogo vegetal, ilumina a experiência física e emocional que ali
experienciei. Rico em exemplos de ações desastradas do homem ao longo do tempo,
desde a importação do figo-da-índia com a cochonilha (inseto ali incrustado e
que produz a cor) na Austrália no século XVII – para a produção de pigmento
vermelho necessário aos uniformes dos militares da Inglaterra –, à eliminação
dos pardais que devastavam os arrozais na década de 1950 na China. Ambos os
experimentos alteraram os sistemas existentes com consequências desastrosas.
Darwin já escrevia a respeito da existência de sistemas naturais no séc. XIX na
sua teoria da evolução das espécies. Disseram-nos que ele teria navegado pelo
Canal de Beagle.
O
que a ciência nos mostra há muito tempo continua sendo ignorado e pudemos vê-lo
nos abrigos dos castores no Parque Nacional Tierra del Fuego,
foram indevidamente introduzidos do Canadá, sem a existência de um predador
natural (o urso), por isso reproduzem-se incontroladamente, criando um sério
problema na cadeia alimentar.
Testemunhamos o desprendimento de
blocos dos Glaciares de Upsala e Spegazzini, belíssimo espetáculo, apesar de
tristes as suas causas. O Glaciar Perito Moreno, sem a ponte de gelo que o unia
à terra, caído em 2018. Sua imponência provocou múltiplos e profundos
sentimentos, inclusive o de alegria por saber que se mantém estável desde aquele
ano. Sabemos, no entanto, que os perigos continuam com a insanidade de quem exerce
poder no mundo e nega os efeitos da elevação da temperatura global por nosso
modo de viver.
Para
quem faz esta viagem e mora numa cidade, pequena ou grande, é entrar noutro
mundo mesmo que tenha acessado suas imagens. Vimos um território limpo (cada um
leva consigo o que precisa descartar), o ar é puro, o silêncio nos permite
ouvir a queda de um bloco de gelo a centenas de metros de distância (mesmo o
rumor das águas depois que o bloco mergulhou). A cor das águas é intensa (o
azul turquesa nos faz duvidar do que vemos), a vegetação é de tonalidades
opacas nas zonas muito secas, mas explode em amarelo, dourado, marrom no outono
onde as chuvas ocorrem. Enfim, vivemos as relações entre plantas, insetos, animais,
temperatura, água, ações do ser humano que Mancuso explica de modo exaustivo e
apaixonadamente.
Finalmente,
a experiência vivida durante uma semana propiciou-me outra grata relação. Para
mim, esta viagem só foi possível, porque em grupo. As sensações foram únicas
para cada pessoa, mas houve trocas e elas ampliaram o sentido da experiência.
Tudo transcorreu com tranquilidade e segurança, porque alguém havia organizado os
roteiros com o acompanhamento da guia que nos informava, nos orientava e nos
seguia. A convivência foi maior entre algumas pessoas, como é previsível num
grupo de dezenas de pessoas, mas foi um grupo harmônico e empático. Enfim, foi
uma experiência humana prazerosa, trago lembranças de um tempo especial onde
muito boas energias circularam. Um exemplo de sistema harmônico entre humanos, circulando
através de vários outros sistemas. Poderia não ter ocorrido.
Encerro
com a questão: se todos pudessem sair de seus lugares e para viver uma experiência
como essa, o mundo poderia ser melhor?
quarta-feira, 12 de março de 2025
O mundo é uma mineira
Leio um livro e
encontro uma frase que me faz parar como no vermelho de uma sinaleira. Ela me
chama para escrever, não diretamente sobre o tema lido, mas sobre algo que foi
despertado a partir daquelas palavras. A personagem fala sobre seu sentimento
diante do enterro da mãe e surge-me a ideia de escrever um conto sobre a morte
recente de uma amiga querida.
Depois, o
pensamento pula sobre possíveis pontos de partida. Começar pela tristeza e
vazio que substituíram a presença da amiga? Pelas recordações que permaneceram?
Pela gratidão pelos anos de convivência? Pelo desejo de escrever sobre ela?
Os pontos de
partida são os atletas à espera do sinal para iniciar a corrida. Uma ideia será
a primeira. As outras não são descartadas necessariamente, disputam também
espaço para serem registradas, a vencedora é o começo, mas outras que nem
existiam no início juntam-se na trajetória, são aquelas enraizadas em
sentimentos mais fortes, em histórias que se juntaram à sua própria história,
como os nutrientes da terra que fazem germinar as flores do campo. As flores
colhidas são as palavras, as frases, formam o texto que preenche linhas e
laudas, como os ramos de flores juntam-se dentro de um vaso.
Flores, palavras,
nutrientes, pensamentos, terra, emoções, ventos, tensões, luz, decisões em
resposta ao desafio no jogo do escritor de criar uma história, uma poesia, uma
narrativa, uma memória, tudo o que constrói o ser humano, ou seja, os movimentos
ininterruptos constitutivos da própria maneira de viver de cada um de nós.
A escrita alavancada
na palavra de outro, na página que não a própria, num livro que gostaria de ter
escrito. Ler é fonte contínua de inspiração, de ligar a chave da corrente de
onde brotarão as próprias ideias e palavras. No entanto, existem outras fontes,
elas estão por toda a parte cutucando a sensibilidade de quem escreve. O mundo
ao redor é uma mineira com inesgotáveis filões. O que acontece é que, às vezes,
os olhos estão embaçados ou os sentidos anestesiados, e não os reconhecem.
O conto sobre
minha amiga poderia ter um início a partir do momento em que passei de táxi
pelo cruzamento com a rua onde ela morava. “Ela já não está mais aí, a rua
deixou de ter importância.”
Um colar recebido
no aniversário de muitos anos atrás, e encontrado na arrumação do armário,
trouxe a cena de um tempo com esperanças, embora turbulento na política do
país. O conto poderia iniciar ali, com contraponto do que se realizou e do que
se perdeu.
Um telefonema de uma amiga comum
desencadeou sentimentos ligados a um carnaval junto a grupo de amigos e alguns
segredos compartilhados, um tributo à amizade de tantas décadas. Poderia ser
outro começo.
Tenho que escolher
o início, sem o primeiro passo não haverá história. Este é um dos momentos
cruciais, a abertura de um caminho, ou caminhos. É preciso decidir. Escolhas
para continuar se apresentarão ao longo da narrativa, um espectro de ideias,
combinações possíveis.
Vou deixar o que
escrevi em banho-maria, um tempo de espera também faz parte da escrita. Talvez
escreva algo completamente diferente do que pensei até agora.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025
Tempo de recordar
O mês de janeiro
colocou-me muito perto da morte.
Não ouvirei mais a
voz de uma amiga de mais de quarenta anos e da prima com quem mais convivi na
infância. Estas perdas vêm somar-se a
outras anteriores, mesmo que com sentimentos de outra cor e intensidade, a de
figuras importantes da cenografia nacional, mulheres e homens das artes, do
jornalismo e das ciências. Um a um estão indo, como pedras de um jogo de damas.
Permanece o tabuleiro e outras disputas.
T. era sincera,
amiga fiel, tomava partido de quem gostava, a neutralidade não lhe era próxima,
suas falas eram afirmações, tinha certeza do que dizia, não discutia, podia-se
ouvir seus pensamentos além de suas palavras, ela sempre foi transparente,
mesmo ao esconder suas dores.
E. era a prima que
reencontrei quarenta e sete anos depois de emigrar para o Brasil. Eu a achava
delicada quando ainda éramos meninas, achava-a mais bonita do que eu nas fotos
que trocávamos, quando já distantes. Ao retornar pela primeira vez à pequena
cidade natal, muito elegante, e continuava mais bonita.
T. separou-se há
cerca de 30 anos.
E. reencontrei-a
já separada, quando retornei à Itália depois de quase cinquenta anos.
Nenhuma de nós
três voltou a casar-se.
Expusemos o motivo
de nossa separação, ele se encaixou como peça única de um quebra-cabeça, nossos
maridos resolveram iniciar nova relação. Nenhum drama, nenhum segredo horrível,
apenas a repetição conhecida no cotidiano ao redor. Merecíamos uma história marcante,
não um clichê, é o pensamento que me ocorre.
Todas atingimos os
oitenta anos.
Conheci T. através
do marido que foi meu professor na Faculdade, quando nos mudamos do interior
para P. Alegre. Foram padrinhos de um dos meus filhos. Eu admirava a inteligência
dele, e contava sem reservas com a amizade dela. Ela me ajudou a cuidar do
afilhado, quando precisei atender minha mãe que estava morrendo. Conheci seus
temores e dificuldades dos primeiros anos da ditadura de 1964, quando foi
atingida diretamente.
Eu e E. passávamos
tempos uma na casa da outra, ela vivia numa cidade maior que meu pequeno comune.
Foi numa das visitas a ela que vimos Branca de Neve e os Sete Anões (sem
intervalos, como achava que eram os cortes nas projeções do pequeno cinema ao
lado de minha casa). Fiquei fascinada pelo filme colorido, em 1948 ou 1949. Meu
pai era irmão da mãe dela, uma costureira que imagino fosse habilidosa ao
lembrar o vestido de primeira comunhão, confeccionado por ela, lindo, me foi
emprestado, era na época pós-guerra.
Houve
um tempo em que planejamos, T. e eu, viajarmos para a Itália. Se tivesse
acontecido, T. teria conhecido E. Elas não se conheceram, mas não impediu de
sermos três mulheres que viveram oito décadas de história com a aceleração das
mudanças difíceis de acompanhar e compreender nos últimos tempos. Vivemos
proximidades afetivas, sociais e intelectuais, em países diversos. A distância
física não nos separou de uma mesma visão de mundo e do mesmo desejo de uma
sociedade justa e solidária, o que marcou escolhas políticas de mesma direção,
aqui e lá.
Fomos
muito próximas, mesmo distantes.
Enquanto
registro um arco de lembranças, recupero o pensamento de Fernanda Montenegro
quando afirmou que o difícil da velhice era ir perdendo os amigos. Ao escrever,
faço-as permanecer comigo mais um pouco, enquanto vou incorporando a sua falta
no tempo que me cabe.