Depois de muito
tempo (estou perdida nele) sinto um fiozinho, ou uma pequena chama, ou um
pequeno sussurro de esperança agitando-se no entorno. Ele está sendo suficiente
para espantar, ao menos momentaneamente, as ondas de más notícias que continuam
sendo lançadas a cada dia. A diferença está que elas não dominam o espaço como
há algum tempo.
É
como se estivesse saindo do lodo onde fui jogada depois de ter sido enroscada
em cipós. O mundo volta a ser sentido aos poucos, uma aragem, uma nesga de luz,
um som. E isso tudo ocupando novamente o ar em volta, delineado com o movimento
de um pincel mágico. Algo de muito bom está crescendo em diferentes lugares.
Passei
os últimos tempos gerenciando um turbamento produzido
pela saturação da insensatez, da ignorância, do ódio, da negação da vida perto
e longe de mim. Incapaz de encontrar um antídoto potente para restabelecer meu equilíbrio,
alimentava-me de outras notícias com reações, às vezes vigorosas, mas esparsas.
Grupos de gente guerreira: mulheres, gays, negros, trabalhadores, sem teto,
professores, motoboys, motoristas de aplicativos, intelectuais, artistas,
servidores públicos, aposentados dando voz e contraposição ao poder instituído
e destruidor de direitos e da economia do país. Meu corpo recebia tudo isso e procurava
se conectar. É como se estivesse recebendo o remédio certo, mas em doses muito
pequenas para recuperar a saúde. Era necessária uma terapia maciça para
destruir o vírus que estava acometendo o organismo combalido do país e eu
dentro dele. Muitas vezes, a sensação era de que a sociedade ainda estivesse em
fase de pesquisa para a medicação certa, não era apenas questão de dose.
Hoje
sinto como se todas aquelas reações espalhadas pelo território imenso que é
esta terra começassem a frutificar e a se unir como a limalha aproximando-se de
um ímã.
Os
deuses do mal continuam agitados e fazendo estragos. Mas, em países vizinhos, o
ódio e a ignorância estão sendo derrubados em fortes batalhas. E, mais ao norte, a facção insana está no
escanteio. Na minha cidade, a vilania continua eriçada, mas o desejo de ter de
volta políticas sociais e culturais que a fizeram conhecida no mundo todo está
crescendo e se espraiando. Ventos cheios de palavras resgatam histórias
perdidas onde outro mundo foi possível.
Acredito
que o corpo doído deste país está reagindo e todo o remédio inoculado aqui e
ali está conseguindo entrar em circulação e poderá curar as feridas provocadas
até agora. Ele está em UTI, evito pensar no tempo que será necessário, mas vejo
trilhas abrindo-se através das cidades que poderão se empoderar de nova política. Porto Alegre merece recuperar sua
história e fazer parte desta caminhada. Falta pouco.