Tanta coisa
acontecendo ao mesmo tempo em todos os países. Não sei se sonhei ou se li. No
redemoinho de notícias que me chegam, há momentos em que me confundo. Não sei
se li ou se sonhei que era preciso parar a guerra na Síria. Os fugitivos dela
estavam se espalhando desamparados. Haverá mais desamparo do que na guerra?
Então
me perguntei: E na Líbia? E no Iraque? E
em outros países já esquecidos?
Então
me perguntei: E nas periferias das grandes cidades? E nos cárceres? E nas casas onde existe
violência doméstica?
Então
me perguntei: E na periferia de minha cidade? E nos cárceres que existem ali? E
nas casas de onde ouvem gritos de socorro?
Então
me perguntei: E nos meus pensamentos de intolerância?
Ouvi
um médico do norte da Itália dizer que estava acontecendo num dia o que
usualmente acontecia em oito meses.
Então
me perguntei se já não havíamos sido avisados de alguma forma do que iria acontecer?
Avisados aos poucos. Uma inundação onde nunca havia acontecido, geleiras do
norte e do sul derretendo ano após ano, termômetros acusando temperaturas
endoidecidas, retorno de pragas a devastar plantações, retorno de doenças
erradicadas há anos, contaminação cada vez mais extensa de rios e mares. Tudo
veiculado na globalizada rede de informações.
Vozes
de diferentes cantos se fazem ouvir há muito tempo. Cientistas, ONGS,
instituições, vozes isoladas, e vozes reunidas aos milhares e aos milhões já se
pronunciaram. E continuam a se pronunciar.
Mas
continuamos a consumir mais do que necessitamos para viver com conforto.
Consumir, porque nos acostumamos a fazê-lo. E continuamos a suportar as guerras
externas e internas. As guerras necessárias para a posse de mais e mais
recursos para sustentar o consumo. E continuamos a contaminar e a depredar a
natureza para nosso consumo. E continuamos a consumir como se o pudéssemos
fazer indefinidamente, enclausurados numa surdez e numa cegueira autofágicas.
Às vezes, até
concordamos que alguma coisa tem que mudar, que não podemos continuar assim.
Momentos de lucidez colocados de lado a seguir.
Então, chega um
vírus. Enfrentamos tantos, daríamos conta deste também. Foi o dito no início.
Este, no entanto, driblou conjecturas e antecipações. Os cientistas
aceleram suas pesquisas, dezenas de
artigos são publicados e dados revistos. Não temos remédio para ele. Testamos
medicamentos conhecidos. Apostamos na vitória da ciência em pouco tempo.
Enquanto isso,
milhares de idosos morrem sem piedade. Milhares de pessoas com alguma patologia
também são ceifados. E o vírus não se satisfaz, chega aos mais jovens. Tudo
acontecendo muito rápido, desafiando a capacidade de atendimento dos
infectados, apesar dos esforços e do trabalho heroico de médicos, enfermeiros,
trabalhadores e voluntários.
Faz-me pensar
que a natureza cansou dos avisos que vem dando aos poucos há anos. Faz-me
pensar numa terra que cansou de ser maltratada. Enxergo tudo como se a terra
escrava se rebelasse, gritasse basta e atacasse quem sempre a violentou.
Enquanto acompanho
o que está ocorrendo, procuro fazer a minha parte. Permaneço isolada e ajudo no
que me é possível para o atendimento daqueles que estão em situação mais frágil
do que a minha.
Enquanto isso, espero que daqui a algum tempo, não sei
quanto, se possa dizer que a rebeldia da terra valeu, que a melhor parte da
humanidade se fortaleceu e foi vitoriosa. Com isso, não imagino que a
humanidade chegou ao fim de uma caminhada, mas ao início de outra. Espero.