segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Preciso voar

 

Voar. Sobre as ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela, ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora. Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época. As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos, lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto, só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.

Um comentário:

  1. Nada como voar com as palavras! Se não temos esse dom de voar sem asas, ganhamos asas com as palavras. Um refresco no meu dia ler tua crônica. Frescor e esperança!

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