É lugar comum
ler ou ouvir uma notícia sobre ataque ao conhecimento, à ciência, às artes no
país, principalmente desde a posse do atual pseudopresidente. É lugar comum a
aversão às universidades públicas que o atual governo demonstra, e as medidas
que foram sendo tomadas de modo sistemático para desmontá-las nestes quase
quatro anos.
Nefastos estão
sendo as consequências, as inúmeras leis e os provedimentos que continuam a
asfixiar as excelentes contribuições que as universidades federais têm
oferecido à nação ao longo de décadas. A lista seria muito longa. Vale falar
sobre a última (se, depois, já não ocorreu outro ataque). No Curso de Doutorado
em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, foi aprovada a tese: Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de
São Paulo e a Ascensão de Bolsonaro e do Bolsonarismo. No dia 11 de agosto,
a tese conquistou “Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese de 2022” – o maior
reconhecimento feito a autores de teses de doutorado no país. O assunto,
entretanto, não pôde ser divulgado pelos veículos internos na universidade por
alegações de que feririam a legislação eleitoral no presente período. O que é
considerado falso, portanto, um ato arbitrário de censura.
Haveria uma
lista longa demais também com ataques às escolas públicas e seus professores no
Ensino Médio e Fundamental no país. Para me deter apenas no Rio Grande do Sul,
um dos últimos exemplos (aqui também podem ter acontecido outros no intervalo
até este texto) é a demissão de uma professora de escola particular, porque
alguns alunos não aceitaram que ela expusesse o fato da exclusão histórica das
mulheres nas ciências, nas artes e na política. Claro está que o motivo declarado
foi outro. Este tipo de demissão é comum, e uma simples pesquisa na internet
pode confirmar.
Em outra face da
história do Estado do Rio Grande do Sul, o governador que está se
recandidatando tem sido implacável na destruição da escola estadual. Nem os governadores
biônicos da ditadura foram tão desrespeitosos e cruéis com o magistério e os
funcionários. Ele foi cínico com o CPERS, não ouviu reivindicações, negou
fatos, foi indiferente à situação das diversas comunidades escolares, acabou
com o Plano de Carreira dos Professores, eliminou benefícios para quem
trabalhava em escola de difícil acesso, desqualificou os professores
aposentados, porque eles não contribuiriam para a melhoria da educação, como se
fossem descartáveis depois de terem cumprido seu tempo de trabalho.
Encontramos
também as investidas para implantar a escola sem partido, o abandono a prédios,
propostas de reformas curriculares que retiram disciplinas da área das humanas
e que ignoram todo um referencial a embasar a formação integral de um aluno,
são algumas das medidas apoiadas indiretamente ou diretamente pelo governo do
Estado. Estas atingem principalmente as crianças e jovens mais pobres que
teriam um espaço fundamental para a sua formação, porque há boas escolas
particulares sem estas reformas para quem pode pagar. Esta é uma as faces do
governo em defesa do Estado mínimo. Se não bastasse isso, ele propõe “vender”
as escolas públicas através da oferta de vouchers para as escolas particulares.
As empresas estatais ele as está vendendo diretamente sem disfarces. O discurso
que o governador fazia na sua primeira campanha ao governo do Estado era
exatamente o contrário. Já foi publicada a pergunta: Quanto vale sua palavra, senhor
governador?
Com tudo o que
foi feito pelos últimos governos estaduais, principalmente o último de Eduardo
Leite, nem é preciso fazer o que está
fazendo o governador da Flórida, EUA: uma lei com 200 livros proibidos para as
escolas (O comum dos livros, referência a qualquer tipo de opressão, ao
racismo: O apanhador no campo de centeio, O sol é para todos, Uma dobra no
tempo, Amada. Também Harry Potter); toda vez que um aluno tirar um livro da
biblioteca, o pai vai saber; também fará o financiamento de campanha para quem
se candidata aos Conselhos Escolares. Ele está tratando de exercer seu poder
sobre a formação da geração que está na escola hoje através de seus pais, os
seus eleitores.
No nosso Estado,
o abominável reducionismo dos currículos da Educação Básica e a alternativa de
entregá-la à iniciativa privada, são propostas tão ou mais ameaçadoras. Elas
também contemplam censura e autoritarismo, embora sem as cores e a visibilidade
do que está acontecendo no país do norte do continente.
É desesperador esquecer
tantos anos de luta pela educação. Quantas experiências excelentes o nosso
Estado propiciou, já tivemos o melhor sistema educacional do país. Lugar este
perdido há bastante tempo. A minha geração estudou em escola pública de
excelência. Uma história esquecida pelos últimos governos que a desprezam como
desprezam as camadas da população que mais necessitam dela e, com isso, o maior
prejuízo é o de impedir-lhes acesso ao lugar de construção de conhecimento, de
formação de pensamento crítico pelo confronto de ideias e convivência com a
diversidade de saberes. Significa impedir-lhes um dos caminhos privilegiados
para compreender os direitos que lhes são subtraídos.
Quem está no
poder conhece muito bem esta história. Os que estão sendo prejudicados,
massacrados por falsas notícias, é que precisam saber quem são seus inimigos.
Este é o grande desafio.
Sinceramente, não tenho palavras 😢
ResponderExcluirParabéns Maria Rosa, disseste tudo. Fica um alerta.
ResponderExcluirMaria Rosa, obrigada. Por tudo: pelo que disse há 25 anos e pelo que dizes agora!
ResponderExcluirCada vez mais o livro do Orwell, 1984 e o do Bradbury, Farenheit 451 nos assombram porque se tornam muito reais. Que tempos vivemos. Muito triste tudo.
ResponderExcluirÉ tudo muito lamentável! Realmente, precisaríamos de um novo alfabeto para falar dos momentos que vivemos. Excelente como sempre, Rosa.
ResponderExcluirContundente, verdadeiro e triste, Maria Rosa. Educação é vital, isso em termos dos sistemas escolar e acadêmico, como você tão berm colocou, mas também em termos de oportunidades para criar as nossas utopias. Sou totalmente a favor das ações que começam por iniciativas das bases, que assumem a responsabilidade por atos de formação e por seus próprios sonhos de um mundo mais justo e mais irmanado. Parabéns pelo seu texto.
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