segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Raízes


 

Horrorizada com as mortes por falta de oxigênio em Manaus? Sim, sem dúvida. No entanto, é um horror duro, entorpecido, espinhento, porque sentido outras vezes. Repetido. Quantos horrores antes deste? É justamente por isso, não deveria acontecer mais nada para que ele voltasse a ser sentido.

            Acabo de ver a charge com o mapa do Brasil onde um joelho espreme Manaus e o pedaço de corpo que aparece com a faixa presidencial. Esta imagem é tão mais terrível, quanto mais lembramos os brasileiros que ainda louvam este joelho e tudo o que está junto com ele. Continuam no negacionismo da doença, do tratamento adequado, das medidas necessárias para enfrentar o contágio e, principalmente, dos governantes responsáveis por não implementarem medidas necessárias para proteger a população.

            Nossa história é cheia de horrores desde o início da colonização. Mesmo repassando o extermínio de índios e de negros, das guerras com nossos vizinhos, das torturas durante a ditadura, impossível não se escandalizar com a crueldade do atual governo em ignorar as necessidades dos hospitais de Manaus. Muitos mais ignoram ou negam tudo isso. Inconcebível.

O negacionismo é explicado de diferentes formas. É enorme a quantidade de textos publicados que nos mostram como ele tem raízes profundas, extensas e antigas na formação de nossa sociedade. Lendo apenas algumas, pode-se compreender quanta complexidade há na formação de subjetividades alienadas, egoístas e odiosas que continuam a aplaudir o que há de pior nesta terra. Somos um país tremendamente injusto não apenas economicamente, uns comem demais, outros morrem de fome próximos a supermercados abarrotados de gêneros alimentícios que vêm de tantas partes do mundo. Isto nós sabemos desde sempre. Somos um país tremendamente injusto no acesso à educação e à cultura. Também sabemos há muito tempo. O que acontece hoje de diferente é que nem tentamos mascarar a situação. O discurso da escola para todos não existe mais, universidade para os mais pobres não é necessária, só para quem pode pagar (declaração oficial), políticas públicas de incentivo à cultura aniquiladas,  até as manifestações culturais independentes são atacadas. Distribuição de renda uma idiotice. Continuam a se contrapor a estes horrores aqueles que clamam por uma sociedade mais justa onde a criação artística seja prioritária sobre o fabrico de armas. Onde um prato de comida pode fazer a diferença. E lutam bravamente na mídia alternativa, em organizações não governamentais, em sindicatos, em grupos independentes, no sistema político, em diferentes instâncias da sociedade. E a situação estaria muito pior se não existissem. Mas a luta é desigual.

            E o negacionismo sobre os processos em curso acerca do envolvimento do presidente e de seus três filhos políticos com as milícias do Rio de Janeiro? Este envolvimento estaria ocorrendo há muito tempo, durante os vários mandatos deste grupo. A raiz está ali. Está exposta. Por que eles se importariam com o que está ocorrendo em Manaus? E boa parte da população os elegeram e continua a apoiá-los apesar disso.

O crime instalado no poder é tão escandaloso quanto o são as mortes de Manaus. Ele mata todos os dias. É tão escandaloso quanto o são as mortes nas periferias das grandes cidades. Muitas delas poderiam ter sido evitadas desde sempre Mas estamos num país de banalização da morte e isto está insuportável.

Para enfrentar esta situação só a indignação. Só com ela poderemos fazer crescer mais e mais raízes para construir uma nova sociedade. Mesmo assim levará muito tempo. O fundamental é não nos deixarmos levar pelo desalento, embora humano e compreensível. Cada um de nós precisa encontrar a sua forma de dizer não à brutalidade que estamos testemunhando de mais longe ou mais perto. Mesmo no distanciamento que a pandemia exige. É preciso proteger as raízes que sustentam a indignação.

A palavra sempre será uma raiz de resistência, como nos diz Mia Couto. Que ela não nos falte.

           

 

 


5 comentários:

  1. Belo texto 👏🏼👏🏼👏🏼 Que não percamos a capacidade de nos indignar e de repudiar tantos absurdos.

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  2. Forte e necessário, que nunca te falte a palavra. ����
    Abraço minha amiga, Bel

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  3. Querida Maria Rosa,
    Nem sei como começar. Tão triste é morrer, ver morrer e não se poder fazer nada. Pior, muito pior, inconcebível para nossa mente e experiência social é a deixar morrer, é assassinar, conscientemente. Eles sabiam que iria faltar oxigênio dez dias antes. Deixar acontecer, não importa que morram.
    Nem sei o que te dizer que tempos tão inconcebiveis.

    Que sirva pra alguma coisa pra enterrar esses assassinos.

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  4. Forte, necessário, porém cheio de esperanças nas raízes profundas do conhecimento e da luta. Acredito na juventude que está aí! Sempre é um bálsamo ler tuas escritas.

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