Como é mesmo o
nome daquele vereador que quis ser prefeito, ficou na rabeira da eleição e
ficou indignado com a renovação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre? Ele
chegou a dizer, no alto de sua estupidez, que estavam entrando jovens
desqualificados. Um nome para esquecer. Ele que deve estar arranjando um cargo
por aí entre seus iguais.
Eis
que ocorre a posse dos novos eleitos e um fato inesperado marca um período
promissor para aquela Câmara e para a cidade. Um fato que ofereceu algum ânimo
para quem apostava numa mudança do executivo e não aconteceu. Um ato pacífico de
alguns vereadores, recusaram-se a levantar e cantar o hino rio-grandense. Jovens
negros eleitos pela primeira vez, sabem muito bem porque escolheram não seguir
o rito tradicional da casa. Denunciaram o racismo contido no hino que exalta a
guerra e a história do Estado, racismo sofrido por seu povo naquela guerra, racismo
que eles conhecem desde que nasceram, racismo que o seu povo escravizado
continuou sofrendo mesmo depois de “liberto”. Uma pseudoliberdade que os
marginalizou ao longo do século e meio que se seguiu.
O
fato novo não foi a denúncia em si, mas acontecer dentro do legislativo da
cidade e, pode ter atingido grande parte da população que habitualmente não lê
e não estuda história, menos ainda a do nosso Estado. Fato produzido por uma
nova geração cuja identidade está enraizada na história de seu povo. Fato que
exigiu um espaço na grande mídia, rompendo a hegemonia de um discurso ufanista.
Fato que repercutiu nas redes sociais e se espalhou como fagulha em campo seco
pela estiagem. Fato que deu voz a outras vozes habitualmente deixadas de lado. Vozes
que exigem lugar para os seus iguais. Foi
posto em xeque um dos símbolos mais exaltados da pretensa superioridade
rio-grandense no cenário nacional. E o foi no lugar mais apropriado, no lugar
de representação da sociedade.
Muito
foi escrito e dito sobre fatos não tão heroicos, nem tão gloriosos durante o conflito entre farroupilhas e
Império, por diversos historiadores e cronistas. Mário Maestri nem chama aquele conflito de revolução, mas de
guerra. Juremir Machado tem escrito livros e crônicas em abundância onde
resgata a história que muitos querem omitida ou esquecida. Para citar apenas
dois escritores. Mesmo assim, o negativismo funciona, e muitos teimam a
glorificar o que nem conhecem. Um período que contém parte mais vil e cruel de
quem teve poder de decisão naquelas hostilidades, e que envergonha qualquer um
que deseje justiça. Pior, outros omitem fatos vergonhoso, mesmo conhecendo bem
tudo o que aconteceu, afinal, refere-se apenas aos negros. Entendo a posição de
alguns deixarem pra lá o massacre dos negros que lutaram na Revolução
Farroupilha, o seu recrutamento à base de promessas de liberdade, o tratamento
diferenciado que lhe foi dado durante o conflito, o aparelhamento apenas com
lanças para lutar uma guerra desigual para eles. Enfim, entendo que parcela da
população ache tudo isso de menor importância, um simples efeito colateral sempre
existente em qualquer guerra, como costuma-se dizer. É a mesma parcela da
população que sempre se negou a ver a realidade de nossa sociedade autoritária
e racista. Mas existem intelectuais que também compactuam com a omissão e o negacionismo,
apesar de sua história compromissada com a democracia e com o desejo de uma
sociedade melhor. Paradoxo. Felizmente, existe outra parte da população que não foi e
não quer ser cúmplice do mascaramento da história. O que aconteceu na Câmara de
Vereadores neste começo de ano de 2020 deu força a esta parte da sociedade.
Os símbolos têm
forte poder, fazem parte de narrativas que povoam nosso cotidiano e alimentam a
subjetividade de quem está rodeado deles. Isto, de uma maneira diversa para
quem não estuda, não lê e apenas repete hábitos e tradições. A Câmara de
vereadores é um lugar de decisão sobre muitos destes símbolos. É só andar pela
cidade e ver os nomes de suas ruas e logradouros aprovados ali. Muitos nomes de
homens, de heróis brancos, de militares, onde a vitória é sempre à custa de
muitas vidas. Os nomes perpetuam a memória dos conflitos e uma mensagem de sua
aprovação, afinal são homenageados numa rua ou avenida. Como a adoção de um
hino. Não existe neutralidade nas escolhas, há sempre uma disputa. É
sintomático o ocorrido não muito tempo atrás quando foi quebrada a placa em
homenagem a Marielle Franco no Rio de Janeiro. Um recorte da nossa sociedade em
tempos tristes e cruéis, onde a prepotência exerce sua força, a ponta do
icebergue. Outro exemplo não tão remoto, em Porto Alegre, foi a substituição do
nome da Avenida Castelo Branco por Avenida da Legalidade. A substituição não
durou muito tempo. A força antiga prevaleceu. São poderes nem sempre nomeados,
mas representados no legislativo e executivo a decidir sobre qual história a
ser dita e cantada.
Daí a importância
da recusa dos jovens negros vereadores. Que seu primeiro ato tenha sido o início
de diferentes desdobramentos em favor de novo modo de discutir o público e o
privado. Que seja sinal de bons augúrios para que interesses coletivos sejam
mais fortes de interesses particulares. Que a renovação na Câmara de Vereadores
de Porto Alegre possa propiciar de fato um trabalho legislativo para a maioria
da população como deveria ser.
Estejamos atentos
aos nossos representantes.
Bravo!
ResponderExcluirTeu texto alia emoção e técnica para ressaltar a ação histórica e corajosa dos jovens vereadores.
ResponderExcluirFico feliz em te ver motivada a escrever.
(Dante)
Linda escrita, maravilhosa leitura. Esse fato nos leva a acreditar nas pessoas, e também a refletir sobre as necessidades de mudanças, por óbvio que muitas das tradições merecem serem preservadas, pelo fato histórico, porém há tradições que ferem a existência de alguns muitos, e isso no mínimo deve ser motivo de pauta, de reflexão e ação. Negar a crítica-reflexiva é negar o diálogo. Obrigada pela reflexão de hoje!
ResponderExcluirEste ato de muita simbologia merece ser exaltado e falado. Mais uma vez foste esta voz.
ResponderExcluirMuito oportuna tua crônica. O momento atual do legislativo municipal começa rompendo barreiras e escancarando o preconceito existente na cultura do povo riograndense. Os valentes vereadores começam muito bem suas gestões e tu fazes uma excelente análise desse momento. Parabéns.
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