Uma
manta espessa sobre o solo pedregoso entremeada de ramos secos, arbustos e
árvores baixas, tudo da mesma cor bege amarelada a perder de vista ao redor do
estreito caminho. Vi Riobaldo e Diadorim rastejando no solo protegidos apenas
pelo couro de suas roupas, desvencilhando-se das espetadas inevitáveis, rosto
quase tocando a poeira a dificultar a respiração que também deveria ser
silenciosa, cena de páginas lidas muito tempo atrás. Esta primeira visão ao
vivo do sertão do Nordeste se sobrepôs às imagens da literatura e permanece
intacta. Fiquei estupefata quando o guia nos perguntou: “Vocês acham que tudo
isso está morto?”. Sem esperar resposta, ele seguiu: “Olhem aqui” e nos mostrou
minúsculas folhas verdes esparsas, despontando nas junções dos galhos secos,
invisíveis a olhos desacostumados. “Está tudo vivo” disse, enquanto falava da
chuva abundante e extensa de uma semana atrás. “A natureza é paciente e renasce
sempre”.
Continuou contando
com paixão como ela era generosa, jamais deixava de gerar vida, atendia os que
permaneciam teimosos ali, e não tardava em recompensá-los após qualquer água
que recebesse. “Brotar era a resposta daquela vegetação áspera, seca, sem
brilho, espinhosa e arisca ao contato humano” disse. Consegui aproximar-me do
sentido das palavras de Guimarães Rosa, do que deveriam ser “vidas secas” de
Graciliano Ramos, das pinturas de Portinari e Tarsila do Amaral. O tom
apaixonado do guia ligou-me àquela terra
muitas vezes incompreendida. Ele desfiou histórias de vida de um povo que ama
sua terra e seu modo de ser é lutar por ela. Mesmo quando tem que se distanciar
dali.
Outra
visão nos esperava junto a um local hoje preservado. Uma pequena encosta, um
arranjo de enormes pedras e o testemunho de uma antiga passagem de indígenas
por aquela região. Andou-se entre um conjunto de cactos e vegetação de pequeno
porte cuja serventia era explicada com encanto e reverência. Tudo ali tinha uma
história e não podia ser arrancado sem razão. Nada de carregar uma lembrança
dali. Só a necessidade de cura permitia retirar alguma folha ou ramo. A natureza
era reverenciada.
Estas lembranças
vêm em meu socorro porque tenho buscado motivos para continuar a ter esperanças,
continuar a acalentar meus sonhos, continuar
a acreditar que um mundo melhor é possível. Continuar a acreditar. Palavras amigas, doses de sabedoria ancestral,
experiências vividas e compartilhadas, um arsenal de imagens e palavras já
chegaram até mim. No entanto, os sistemáticos, ininterruptos e cruéis
acontecimentos que ceifam vidas sem piedade têm abalado minhas esperanças sobre
o futuro. Dói muito presenciar tudo isso. Posso fazer pouco agora. Faço. Várias
vezes, pensei em desistir. Apresenta-se o vazio.
Eis que voltei a
prestar atenção num vaso com alguns exemplares de cactos. Sua beleza espinhosa
trouxe-me o Sertão de volta. Senti-me insignificante e covarde. Minha condição
de isolamento físico criou o hábito de acercar-me daquelas pequenas plantas
toda vez que desanimo. Elas me conectam a uma resistência distante, mas também
próxima, tramada pelo país afora em lugares que conheço e que desconheço, onde
a palavra desistir não existe, porque ocupada por resistir. Desejo espelhar-me
nos pequenos cactos. Leio neles a mensagem: resiste.
Quanta empatia me causa teu belo texto. É preciso resistir, cara amiga. A natureza sábia nos dá lições o tempo inteiro. Quem sabe olhar os "subtextos" da mãe terra não perde a esperança. Resistir é preciso, fazer florescer a esperança para antecipar o tempo da colheita. Nem todos veem essa lição. Amei teu texto.
ResponderExcluir(Ana Maria Pérez da Silveira)
Lindo, mãe! te amo! Bjs
ResponderExcluirMirosa, vc foi muito feliz em sua inspiração. Parabéns.
ResponderExcluirFui parar lá sertão, onde a vida resiste e nos dá esta lição de persistência. Obrigado pelo teu texto, Rosa!
ResponderExcluir(Dante)
Parabéns,Mirosa! Um texto poderoso e criativo que retrata a capacidade do ser humano de se reinventar, apesar das circunstâncias, muitas vezes, dolorosas. Que tenhamos a sensibilidade, a resistência e a generosidade para prosseguir nessa caminhada. Bjs
ResponderExcluirMaria Rosa,
ResponderExcluirQue bela a lembrança do sertão agreste e seco que esconde, durante tempos de saudades da vida, esconde a vida e, de repente, começa a desnudá-la generosamente, mostrando que vale a pena a esperança e resistência em tempos ruins. Amanhã há de ser outro dia. Um beijo. Teu texto está lindo.
Que lindo texto, Maria Rosa! Como os cactus, seguimos resistindo!
ResponderExcluirQue lindo, Mirosa! Quanta sensibilidade para descrever aquela nossa viagem tão especial e conectá-la com o momento presente. Um beijo!
ResponderExcluirTua capacidade de enxergar sopro de vida no que parece seco, transformá-lo em palavras, traz a essência do que temos de perseguir: resistir, ainda mais quando tudo parece estar perdido. 🌹😘
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