terça-feira, 10 de novembro de 2020

Através das cidades

 

Depois de muito tempo (estou perdida nele) sinto um fiozinho, ou uma pequena chama, ou um pequeno sussurro de esperança agitando-se no entorno. Ele está sendo suficiente para espantar, ao menos momentaneamente, as ondas de más notícias que continuam sendo lançadas a cada dia. A diferença está que elas não dominam o espaço como há algum tempo.

            É como se estivesse saindo do lodo onde fui jogada depois de ter sido enroscada em cipós. O mundo volta a ser sentido aos poucos, uma aragem, uma nesga de luz, um som. E isso tudo ocupando novamente o ar em volta, delineado com o movimento de um pincel mágico. Algo de muito bom está crescendo em diferentes lugares.

            Passei os últimos tempos gerenciando um turbamento produzido pela saturação da insensatez, da ignorância, do ódio, da negação da vida perto e longe de mim. Incapaz de encontrar um antídoto potente para restabelecer meu equilíbrio, alimentava-me de outras notícias com reações, às vezes vigorosas, mas esparsas. Grupos de gente guerreira: mulheres, gays, negros, trabalhadores, sem teto, professores, motoboys, motoristas de aplicativos, intelectuais, artistas, servidores públicos, aposentados dando voz e contraposição ao poder instituído e destruidor de direitos e da economia do país. Meu corpo recebia tudo isso e procurava se conectar. É como se estivesse recebendo o remédio certo, mas em doses muito pequenas para recuperar a saúde. Era necessária uma terapia maciça para destruir o vírus que estava acometendo o organismo combalido do país e eu dentro dele. Muitas vezes, a sensação era de que a sociedade ainda estivesse em fase de pesquisa para a medicação certa, não era apenas questão de dose.

            Hoje sinto como se todas aquelas reações espalhadas pelo território imenso que é esta terra começassem a frutificar e a se unir como a limalha aproximando-se de um ímã.

            Os deuses do mal continuam agitados e fazendo estragos. Mas, em países vizinhos, o ódio e a ignorância estão sendo derrubados em fortes batalhas.  E, mais ao norte, a facção insana está no escanteio. Na minha cidade, a vilania continua eriçada, mas o desejo de ter de volta políticas sociais e culturais que a fizeram conhecida no mundo todo está crescendo e se espraiando. Ventos cheios de palavras resgatam histórias perdidas onde outro mundo foi possível.

            Acredito que o corpo doído deste país está reagindo e todo o remédio inoculado aqui e ali está conseguindo entrar em circulação e poderá curar as feridas provocadas até agora. Ele está em UTI, evito pensar no tempo que será necessário, mas vejo trilhas abrindo-se através das cidades que poderão se empoderar de nova política. Porto Alegre merece recuperar sua história e fazer parte desta caminhada. Falta pouco.

6 comentários:

  1. Ainda não estou conseguindo sentir essa pontinha de esperança porém não canso de um esperar um dia sentir.

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  2. É dessa possibilidade de acreditar e nela buscar forças para um movimento maior que precisamos para não permitir que o lodo nos soterre. Bjs

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  3. Somos todos uma constante tentativa de resiliência, nós que já fomos felizes, e reabilitar nossa força de voltar à vida, através da voz de uma mulher: Manuela.

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  4. Teu texto me fez suspirar. Ando sem ar. Te entendo e também me sinto abafada por forças que querem me vencer, mas procuro lembrar de quantas vezes me senti assim (por outros motivos) e que venci, por ser teimosa e por saber que tudo passa. Sejamos vitoriosas, sempre!!!

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  5. Teu texto faz com que eu me sinta melhor. O fio da esperança começa a renascer e, com ele, nós, os que nunca entregaram os pontos nessa luta diaria em busca da igualdade e bem estar de todos os desvalidos. Também sinto que o ar está se tornando mais respirável. Continuemos, e escreve sempre, amiga minha. Tuas palavras trazem luz e resgatam desânimos transformando-os em esperança de um tempo melhor.

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  6. A gente realmente acredita que um novo tempo é possível 🙏🙌🤩... Isso faz toda a diferença! ❣️

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