Logo que o
cinamomo foi cortado, eu parava muitas vezes ao lado do toco que restou. Era
como olhar para o lugar onde antes havia existido uma perna ou um braço. Li que
alguém, que tenha perdido um pedaço de si mesmo, continua a senti-lo e olha o
vazio que ficou no conjunto de seu corpo, até se acostumar.
Eu me senti
derrotada quando o laudo feito por profissional particular foi aceito pela
prefeitura para cortar a árvore. A sombra na calçada não era espessa, mas aliviava
o calor dos prolongados verões da cidade. E a buganvília próxima havia se
entrelaçado até nos galhos mais altos numa composição que poderia servir de
imagem a um pintor impressionista. Em diversos momentos do dia, daria um belo
quadro. Eu enxerguei vários.
Lembro que uns
poucos galhos bem no alto estavam secando, mas não lhe davam o aspecto de
doente. Poder-se-ia podá-la, dizia-se. Eu compartilhava desta visão, talvez
estivesse comprometida pelo desejo de conservá-la junto às primeiras lembranças
daquele lugar. Quando nos mudamos para o edifício, ela era pouco mais que um
arbusto formado por dois finos troncos que subiam de uma mesma base. Com o
tempo eles se juntaram e formaram um único e vigoroso. Olhando aquela árvore
adulta, poder-se-ia dizer que tinha um tronco deformado. No que restava dela,
no entanto, viam-se dois conjuntos de círculos colados, um avançado sobre o
outro. Foram crescendo assim, como duas árvores siamesas. Um belo espécime.
Mas a árvore
também incomodava. Os cachos de frutos que deixava cair, como era de sua
natureza, sujavam a calçada. Foi o argumento não declarado de alguns moradores
ao sentenciá-la doente e perigosa. Logo lembrei do mecanismo que usam para
derrubar alguma liderança. Destacam alguma coisa “errada” feita por quem querem
eliminar – muitas vezes fake new – e acabam com o sujeito. A história está cheia
de exemplos.
Um dia, resolvi
fotografar o toco que não conseguiram exterminar. Lamentei não tê-lo feito
antes, quando se podia ver nele a saúde da árvore abatida. Círculos bem
definidos no plano bege deixado pela serra. Nenhuma intrusão de parasitas.
Depois de cortada, o tempo fez, e continua fazendo, seu trabalho. Uma parte, a
do tronco menor, mostra-se preta com seus anéis roídos pela umidade e transformados
em espaços circulares onde a água já entra com facilidade. A outra circunferência
sobrevive melhor às intempéries, conserva a cor clara com algumas nuances em
verde mofo. Resiste teimosa.
Durante algum
tempo, esperei que o cinamomo mostrasse uma interna e invisível rebeldia
através do surgimento de algum ramo, como eu havia visto com outras árvores em
outros lugares. Mas não aconteceu. Agora, o traçado dos círculos serve de
testemunho, mas como documento comprometido. Cada círculo presenciou a vida que
se movimentou pelo edifício. A chegada dos primeiros moradores, a mudança de
outros, crianças de nasceram, alguns velhos que morreram, convidados para
alguma festa em família, visitas, andanças de tanta gente. O círculo externo, presenciou
uma história de cerca quarenta anos. Cada círculo interno acompanhou a história
deste espaço um pouco menos, mas sempre testemunho junto aos outros que foram
se formando. Uma espécie de diário ignorado em frente ao prédio. Agora a marca
de cada ano vivido está sendo borrada
aos poucos.
Quantas
perguntas o cinamomo, e a falta dele, pode fazer brotar como galhos invisíveis.
No entanto, só quem ainda presta atenção no que ficou dele é capaz de atiçar
memórias. É assim no viver cotidiano. O cinamomo é meu braço cortado, cuja falta
persiste e me traz mil imagens de desperdícios, de injustiças, de paradoxos.
Que bobagem,
apenas uma árvore cortada, poderiam dizer. Vejo, no entanto, a metáfora do
descompromisso das ações humanas na capilaridade da rede social. Vivemos um
tempo no qual cada um invoca e faz valer sua opinião com o respaldado de
artifícios institucionais.
Imaginei as
tantas vozes silenciadas com o auxílio da lei para salvaguardar interesses particulares.
Uma vontade, uma mentira, ou mesmo, um pedacinho de verdade transformado em
verdade absoluta, e o poder arbitrário abre passagem.
A eliminação de
um cinamomo sadio na rua de uma grande cidade afrontou uma nesga do mundo vivido
hoje. E o espaço vazio privou-me do
quadro impressionista, cuja beleza enfeitava meus dias e ajudava a seguir
adiante.
Os golpes são os nossos braços cortados... adorei a reflexão. bjs!
ResponderExcluirMaravilhoso. Metáfora perfeita do que vivemos. Teus textos tocam a dor de quem não aceita a perversidade atual.
ResponderExcluirMaravilhoso. Metáfora perfeita do que vivemos. Teus textos tocam a dor de quem não aceita a perversidade atual.
ResponderExcluirLindo teu texto, Rosa. O simbolismo que a morte de uma árvore por ação humana contém traz uma profunda reflexão, perfeitamente explorada com tuas precisas palavras.
ResponderExcluirPresencio este destrato com a natureza aqui em Gramado onde me encontro atualmente durante a pandemia. Quantas vezes eu saía de casa e encontrava nas araucárias, nas hortênsias muito azuis, a alegria, a energia de uma natureza que me envolvia num abraço, e hoje, o poder do dinheiro,da especulação imobiliária, matou, arrasou com o que temos de melhor, para substituir por placas em néon, prédios que abrigam moradores passageiros, que não sabem o quanto foi destruído e sacrificado para isso. Nos privamos, dia a dia, de encontrar a beleza ao cruzar a esquina. triste. Lindo o teu texto!
ResponderExcluirBelo texto, Maria Rosa, todo corte é triste, mais ainda se não acontece resiliência da natureza e a nossa vida é uma constante tentativa de resiliar, quantas vezes sem sucesso.
ResponderExcluirBelo texto, Maria Rosa, todo corte é triste, mais ainda se não acontece resiliência da natureza e a nossa vida é uma constante tentativa de resiliar, quantas vezes sem sucesso.
ResponderExcluirQue belo e comovente texto, Rosa!
ResponderExcluirTambém fico triste quando escuto "sujeiras da árvore". Elas nos dão presentes silenciosos, pétalas e folhas que enfeitam as ruas e calçadas, as sombras refrescantes e abrigam pássaros e outras vidas da natureza.
Belo texto ...vou reler ..
ResponderExcluirParabéns pela sensibilidade ..