Em tempos
líquidos onde não se encontram ancoradouros, volto-me ao passado como uma das
formas de conter a ansiedade. Vários autores vêm em meu socorro. Dante é um
deles. A Divina Comédia nos conta a história da sociedade vivida por ele até
então através dos mais importantes personagens. Uns aprisionados no Inferno, outros,
esperando sua redenção, no Purgatório, e outros, tendo alcançado um final
feliz, o Paraíso. Ele escreveu o livro porque queria salvar moralmente a
humanidade. Julgou que alguns homens de seu tempo não teriam salvação, mas
outros, sim.
No tumulto em
que nos movimentamos atualmente, procuro desesperadamente compreender o que
acontece. Todo o dia somos atingidos por descalabros que fazem desaparecer o
ponto de luz que teimei em ver no fim do túnel no dia anterior. Então obrigo-me
a buscar com um resto de energia, as análises mais diversas. Converso com
amigos. Situo-me, mas há momentos em que preciso tomar distância e, então,
busco a arte. No caso, a literatura. Pergunto-me onde Dante colocaria o
presidente, se andasse por aqui hoje. Permito-me não ter dúvidas quanto ao
Inferno. Deixo de fora a turma que o circunda. Não haveria lugar para todos. Mas
há categorias de internos, distribuídos conforme a classificação dos pecados
que cometeram. Também existem subdivisões, por isso o poeta desenhou círculos
e, neles, valas. Assim, encontro-me em dificuldade, porque passo e repasso as
listas e o presidente se enquadra na maioria das infrações, segundo o que sei
de sua vida. Como ignoro boa parte dela, pode ser que ele pudesse ser enquadrado
em mais alguma. A vida pública dele permite este raciocínio.
Enfim, valho-me da
lista de Dante para escolher. O presidente tem manifestado “Violência e
Bestialidade” de forma usual ao longo de sua vida, o que o levaria para o Círculo
VII. No entanto, mais apropriado seria o Círculo IX, o último, o mais profundo,
lugar da “Traição” contra a Pátria e os Benfeitores (Jesus Cristo), e junto a
Lúcifer, para permanecer pela eternidade. Seus apoiadores se revoltariam com
minha escolha, mas as provas existem em abundância.
Minha opção não
exige poesia nem rimas. Dante me perdoaria. Numa realidade cruel é preciso imaginar, e
exorcizar o que a razão é incapaz de resolver. Aposto no alívio de um
sortilégio contra o poder escorado na ignorância, na alienação, no egoísmo, que
destroem as sementes de humanidade. Conto
com a força das ideias de solidariedade e de um mundo melhor para merecer o
purgatório com a aquiescência de Dante. O Paraíso é inalcançável.

Cara Mirosa, note que a vida também se move em círculos... uns tempos no céu, outros no purgatório, e mais uns no inferno. Depois recomeça o movimento. Uns presidentes são bons, uns nem tanto, outros péssimos (como o "vocêsabequem"). Mas santo, santo mesmo, tem nenhum. No fim, acho que todos acabam no inferno, de um jeito ou de outro...
ResponderExcluirParabéns pela excelente reflexão e análise do momento político atual.
ResponderExcluir