Os livros trazem
infelicidade, trazem dúvidas. Não precisamos de pensamentos diferentes, nossa
felicidade está na certeza de uma só verdade. Nós queremos ser felizes. Estas
são algumas das crenças do mundo narrado no filme do homônimo livro Fahrenheit
451 de Ray Bradbury, escrito em 1953. Um mundo onde ter um livro é considerado
um crime e pago com a morte.
Poucos
anos antes, George Orwell, escreveu 1984, e trata de tema semelhante. Não narra
a queima de livros, mas a eliminação do pensamento divergente. O controle do sujeito numa sociedade onde deve
prevalecer também uma verdade única.
Bradbury
se inspira na sociedade americana. Orwell faz uma crítica ao regime soviético.
As duas realidades com ideários distintos.
Sem
aprofundar as semelhanças e diferenças entre os dois sistemas, chamou-me a
atenção a ideia de felicidade propagandeada na sociedade descrita por Bradbury.
Ela me remeteu a uma crônica de Umberto Eco de 2014 “O direito à felicidade”.
Nela, o autor coloca a suspeita de que muitos dos problemas que nos afligem
hoje seriam devidos à formulação da Declaração de Independência americana de e de julho de 1776 onde está
escrito que “todos os homens são dotados do direito à vida, à liberdade e à
felicidade”.
Eco nos agracia
com um retorno a alguns filósofos que tratam da questão da felicidade desde
antes da era Cristã. Falam de sua efemeridade e, principalmente, do seu caráter
individual. Hoje, destaca como ela se enraíza no mundo da publicidade e dos
consumos. Comprar alguma coisa é ser feliz. Publicidade nos alcança a todo o
momento e jamais mostra um produto relacionado ao trabalho que o produziu. Parece
que esta história precisa ser negada. No entanto, ao menos na Constituição Italiana,
o artigo primeiro afirma que o país está fundado no trabalho.
Voltando à
questão da felicidade, Eco encerra sua crônica dizendo que a Declaração de Independência
deveria ter reconhecido o “direito-dever de reduzir a cota de infelicidade no
mundo, inclusive naturalmente a nossa”. A história dos E. Unidos mostra estar
mais próxima do livro de Bradbury e de ter seguido o princípio da felicidade
individual, sem dever para com o outro. Apesar do acúmulo de riquezas e dos
seus progressos científicos, alguma coisa está dando errado na sociedade americana.
O sonho de felicidade não é alcançado por milhões de seus cidadãos. Não
bastasse o conjunto das estatísticas, a expectativa de vida do americano está
caindo e está aumentando a mortalidade por suicídio, acidentes e overdoses de
drogas ilícitas.
No nosso país, a
mortalidade tem estatísticas muito tristes. A nossa história sofre contínuos apagamentos,
numa diversidade de queimadas. Defender os livros, simbolicamente e
materialmente, mostra-se, hoje, uma necessidade tão urgente quanto na realidade
de Bradbury e Orwell. Nem a Declaração de Independência americana é defendida
por aqui.

A eterna busca da felicidade...
ResponderExcluir