É uma ponte
sobre o rio, apenas uma ponte para olhos desatentos. Mas se o olhar se volta para
contemplá-la, ela se mostra sólida e tranquila. O formato em arcadas e os
grossos pilares, maiores que a pista sobre ela, indica uma idade avançada. Os
registros apontam sua construção no séc. XIII, mas supõe-se que havia outra antes,
à época dos romanos, porque por ali passa até hoje uma das tantas vias que eles
deixaram em boa parte da Europa.
Quanta
história impregna este conjunto de pedras areníticas, que sobreviveu a séculos
de uso e à segunda guerra mundial, oferecendo uma paisagem perpetuada ao fundo
do quadro de Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Hoje, são automóveis que invadem
seguidamente esse caminho, um mundo inimaginável cinco séculos atrás. No começo
da ponte, um sorriso enigmático a testemunhar que o artista esteve por lá a
pintar sua obra.
Sob
as arcadas passa o rio Arno que, após serpentear na Toscana e tocar muitos
pequenos aglomerados urbanos, lança-se no Tirreno. Ele corta Florença e faz
parte do conjunto histórico e cultural visitado por milhões de pessoas todos os
anos. Marca também a história contemporânea da cidade quando enlouqueceu e a
invadiu em 1966. Aqui ele é manso. Um arvoredo denso com seu
verde de primavera ocupa suas margens. Tem a superfície enrugada, fazendo os
raios do sol piscarem com seu movimento.
Tranquilidade
e força, história e esquecimento, natureza e criatividade concentrados num dos
inumeráveis lugares fascinantes da Itália. Aqui se respira um ar de irrealidade
diante dos testemunhos da história do homem, e do que sabemos ele ter se tornado
por aqui e alhures.
De
todo modo, um lugar que inspira a refletir sobre a própria identidade e o futuro
que nos aguarda, num presente tumultuado que parece não ter aprendido com a
história.


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