quarta-feira, 22 de maio de 2019

O sorriso e a ponte




É uma ponte sobre o rio, apenas uma ponte para olhos desatentos. Mas se o olhar se volta para contemplá-la, ela se mostra sólida e tranquila. O formato em arcadas e os grossos pilares, maiores que a pista sobre ela, indica uma idade avançada. Os registros apontam sua construção no séc. XIII, mas supõe-se que havia outra antes, à época dos romanos, porque por ali passa até hoje uma das tantas vias que eles deixaram em boa parte da Europa.

            Quanta história impregna este conjunto de pedras areníticas, que sobreviveu a séculos de uso e à segunda guerra mundial, oferecendo uma paisagem perpetuada ao fundo do quadro de Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Hoje, são automóveis que invadem seguidamente esse caminho, um mundo inimaginável cinco séculos atrás. No começo da ponte, um sorriso enigmático a testemunhar que o artista esteve por lá a pintar sua obra.

            Sob as arcadas passa o rio Arno que, após serpentear na Toscana e tocar muitos pequenos aglomerados urbanos, lança-se no Tirreno. Ele corta Florença e faz parte do conjunto histórico e cultural visitado por milhões de pessoas todos os anos. Marca também a história contemporânea da cidade quando enlouqueceu e a invadiu em 1966. Aqui ele é manso. Um arvoredo denso com seu verde de primavera ocupa suas margens. Tem a superfície enrugada, fazendo os raios do sol piscarem com seu movimento.
            Tranquilidade e força, história e esquecimento, natureza e criatividade concentrados num dos inumeráveis lugares fascinantes da Itália. Aqui se respira um ar de irrealidade diante dos testemunhos da história do homem, e do que sabemos ele ter se tornado por aqui e alhures.
            De todo modo, um lugar que inspira a refletir sobre a própria identidade e o futuro que nos aguarda, num presente tumultuado que parece não ter aprendido com a história.

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