sábado, 23 de novembro de 2019

A janela




Acredito no poder da arte. Mesmo quando fico em dúvida se uma obra seja arte ou não. Quando isso acontece fico a pensar sobre o efeito que ela me provoca. Às vezes, um efeito de desconforto, de inadequação, de desperdício.
Não é que eu seja daqueles que julgam uma obra pelo conceito de beleza, de harmonia, de superioridade. Sou alguém que, simplesmente, gosta de visitar mostras onde olha de perto e de longe um quadro, uma escultura, uma instalação. Saboreia as cores, os traços, os volumes. Enfim, gosta de mergulhar no ambiente de exposição artística. Isto me faz bem, porque me leva a um mundo além das pressões do cotidiano e me permite alimentar um outro gosto de sentir a vida.
Foi com esta perspectiva que visitei uma mostra fotográfica. Um amigo expunha fotos dele, e em outras ocasiões não pude prestigiá-lo. Era uma questão de honra fazê-lo, além da certeza de poder usufruir de momentos especiais de comunicação com a criação artística.
Minha certeza foi recompensada. Neste tempo tumultuado e revirado em que vivemos, onde valores e compromissos são destroçados em nome da ganância e da irresponsabilidade social, encontro-me diante de imagens que me falam com cumplicidade.
Vários fotógrafos expunham suas obras. Trabalhos primorosos. Uma, de meu amigo Leonardo Kerkhoven, se sobressaiu e colou em sentimentos que me acompanham diuturnamente. Ao ver aquela imagem veio-me imediatamente a frase dita muitas vezes com algumas variações “uma imagem vale mil palavras”. O título era “Abandono”.
A Galeria onde está aquela mostra fica a poucas quadras da Praça da Matriz. Aqui, há semanas, a presença de professores e de outras categorias de servidores públicos do estado acusa o descalabro do governo. Estão protestando contra o massacre promovido pelo executivo do Rio Grande do Sul em nome de mentiras e artifícios para encobrir o desejo de um estado mínimo que se desobriga de suas responsabilidades. Nada mais têm a perder, porque seus locais de trabalho estão sendo vilipendiados e nem os salários estão sendo pagos em dia.
Volto à imagem sob o título de Abandono: uma grande janela com grades numa parede desgastada. Por detrás dela, na base, o busto de uma jovem com os braços levantados e mãos agarradas aos ferros. Os tons e as esfumaturas emolduram a presença humana e são a materialização de parte do tanto que ela sugere. Esta descrição é precária, as palavras lhe são insuficientes, serve apenas de convite para visitar a mostra.
Para mim, além do gosto do olhar e dos sentimentos que me despertou, a fotografia comprovou-me mais uma vez a capacidade criativa do ser humano. E reafirmou a crença nos caminhos da arte para não nos destruirmos.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O Brasil e a barra de chocolate


Amanheço imaginando o que sucederá de novo. Novo no sentido de pior, no sentido de me roubarem mais alguma coisa, no sentido de me terem prendido em nova arapuca, tendo conseguido me livrar da última no dia anterior. Ou melhor, sentindo os efeitos de viver numa nova. Ainda, sendo ameaçado com outra pior.
Ontem, foi o preço feijão, uma questão de safra. Com o  tomate, a mesma coisa. O da farinha, nem explicaram. O dos ovos, deve ter sido o estresse das galinhas. Aumento de impostos, da gasolina, do gás, já nem procuram explicar mais. Viram que a população reclama cada vez menos e se arranja como pode. Importar-se em dizer o que está realmente acontecendo, nunca se preocuparam.
O que retrata melhor o que está acontecendo no país, especialmente desde o golpe de 2014, é o exemplo das barras de chocolate. Há quem nem se lembre mais que um dia pesavam 200g. A mudança deve ter sido calculada à sombra do funcionamento da memória do cidadão. Ela passou a diminuir sutilmente para 180g, depois foi para 160g, 140g. Fazia algum tempo que não comprava chocolate em barra. Na semana passada, quando peguei uma, duvidei do peso do que tinha nas mãos. Consultei as informações e,  ali estava escrito 92g. Achei até graça do número preciso, 92, não 95 ou 90. O preço, no entanto, não pode ter sido diminuído, pois custava mais de cinco reais. Quem faz contas nessa hora? A experiência avisa de todas as pequenas e grandes artimanhas sofridas para ludibriar o consumidor. Cresci e me criei na descrença, mas existiam órgãos reguladores, inspeções e de proteção ao consumidor. De vez em quando uma denúncia ocupava espaço na mídia. Confesso minha ignorância quanto a sua existência hoje.
            Então me dei conta que nem me surpreendi tanto. Tem sido uma rotina tirarem-me alguma coisa e mentirem de que o tenham feito. Uma coisa, no entanto, mudou. O ritmo com que o cidadão tem sido desrespeitado nos últimos cinco anos. O Brasil está indo ladeira abaixo é uma metáfora banal.
            Mas, afinal, quem precisa de chocolate?

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Diante da beleza


Mergulhei logo na grandiosidade das esculturas romanas junto ao fluxo incessante de pessoas de todo o mundo. Era o início do caminho pelo primeiro corredor da Galleria degli Uffizi e, adiante, fui atraída pelo colorido vermelho e azul numa composição com muito ouro dos quadros da idade média.  Um desfile de belezas que faz esquecer onde se está e o que viemos fazer ali, nesta fartura de criações oferecidas por mais de dois milênios de história.
Nomes famosos, alguns conhecidos para mim, outros nem tanto. Pinturas já vistas em inumeráveis publicações estão ali a centímetros de meus olhos e de minhas mãos. A reverência diante de tanto esplendor, mais do que a interdição para alcançá-las, impede o gesto de aproximação. O maior museu renascentista do mundo é apenas uma parte do que a humanidade criou desde sempre.
Então, entrei na sala em que vejo o quadro. Naquele instante compreendi o que já sabia, porque Leonardo da Vinci é considerado um gênio, sem lembrar suas invenções. Toda a beleza em sua perfeição estava diante de mim na Anunciação. Sou uma apreciadora das artes, não tenho conhecimentos específicos da área, encanto-me ou não diante do que vejo. Ali fui atraída como limalha ao ímã. Mais do que explicar os porquês de meu encantamento, surpreendo-me com o que sinto. Não sendo a primeira vez que vejo obras de Leonardo, estar presente, no entanto, me coloca em outra dimensão. Esqueci o havia visto até então na Galleria, fico imóvel diante da pintura a óleo sem me perturbar com o movimento de tanta gente que também está ali. Aos poucos dou forma ao meu encantamento, vejo a presença do ouro com parcimônia, o azul na veste de Nossa Senhora, também um pouco de vermelho, este acentuado nas vestes do anjo que fala com a Virgem. A distribuição de claridade e sombras dão uma sensação de grande profundidade na paisagem e servem de contorno aos semblantes dos dois personagens. Estes encontram-se envoltos no ato da Anunciação, evento que mudará o curso dos milênios seguintes. Há no conjunto da pintura uma aura de sublime acontecimento.
Sinto prazer em repassar o olhar inúmeras vezes sobre os detalhes e sobre o conjunto dos elementos que se me oferecem. Qualquer cansaço desaparece e rastreio a beleza, estou presa por ela num estado suspenso da realidade. Gostaria de permanecer nesta condição. No entanto o tempo segue.
Volto à minha condição, é hora de sair da Galleria. Retorno ao mundo de fora com uma carga emocional que me alimentará por muito tempo. Devaneio sobre o papel da arte na vida do ser humano. Sou grata por esta experiência há tanto tempo desejada. Lamento a inexistência para grande da humanidade de contatos com a beleza, encantamento e provocações advindos das artes. Um mundo que produz subjetividade sensível, que abre portas a outros pensares, que contribui para a realização de outras potencialidades no ser humano.
Recuso pensar que o Brasil está caminhando na contramão disto tudo, com todas as consequências para a atual e futuras gerações. Desejo que aumentem as resistências existentes. No entanto, os temores me cutucam, por isso mesmo opto por, ao menos por algum tempo, agarrar-me à beleza que acabei de ver.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

O sorriso e a ponte




É uma ponte sobre o rio, apenas uma ponte para olhos desatentos. Mas se o olhar se volta para contemplá-la, ela se mostra sólida e tranquila. O formato em arcadas e os grossos pilares, maiores que a pista sobre ela, indica uma idade avançada. Os registros apontam sua construção no séc. XIII, mas supõe-se que havia outra antes, à época dos romanos, porque por ali passa até hoje uma das tantas vias que eles deixaram em boa parte da Europa.

            Quanta história impregna este conjunto de pedras areníticas, que sobreviveu a séculos de uso e à segunda guerra mundial, oferecendo uma paisagem perpetuada ao fundo do quadro de Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Hoje, são automóveis que invadem seguidamente esse caminho, um mundo inimaginável cinco séculos atrás. No começo da ponte, um sorriso enigmático a testemunhar que o artista esteve por lá a pintar sua obra.

            Sob as arcadas passa o rio Arno que, após serpentear na Toscana e tocar muitos pequenos aglomerados urbanos, lança-se no Tirreno. Ele corta Florença e faz parte do conjunto histórico e cultural visitado por milhões de pessoas todos os anos. Marca também a história contemporânea da cidade quando enlouqueceu e a invadiu em 1966. Aqui ele é manso. Um arvoredo denso com seu verde de primavera ocupa suas margens. Tem a superfície enrugada, fazendo os raios do sol piscarem com seu movimento.
            Tranquilidade e força, história e esquecimento, natureza e criatividade concentrados num dos inumeráveis lugares fascinantes da Itália. Aqui se respira um ar de irrealidade diante dos testemunhos da história do homem, e do que sabemos ele ter se tornado por aqui e alhures.
            De todo modo, um lugar que inspira a refletir sobre a própria identidade e o futuro que nos aguarda, num presente tumultuado que parece não ter aprendido com a história.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Qual parte do inferno?




Em tempos líquidos onde não se encontram ancoradouros, volto-me ao passado como uma das formas de conter a ansiedade. Vários autores vêm em meu socorro. Dante é um deles. A Divina Comédia nos conta a história da sociedade vivida por ele até então através dos mais importantes personagens. Uns aprisionados no Inferno, outros, esperando sua redenção, no Purgatório, e outros, tendo alcançado um final feliz, o Paraíso. Ele escreveu o livro porque queria salvar moralmente a humanidade. Julgou que alguns homens de seu tempo não teriam salvação, mas outros, sim.
No tumulto em que nos movimentamos atualmente, procuro desesperadamente compreender o que acontece. Todo o dia somos atingidos por descalabros que fazem desaparecer o ponto de luz que teimei em ver no fim do túnel no dia anterior. Então obrigo-me a buscar com um resto de energia, as análises mais diversas. Converso com amigos. Situo-me, mas há momentos em que preciso tomar distância e, então, busco a arte. No caso, a literatura. Pergunto-me onde Dante colocaria o presidente, se andasse por aqui hoje. Permito-me não ter dúvidas quanto ao Inferno. Deixo de fora a turma que o circunda. Não haveria lugar para todos. Mas há categorias de internos, distribuídos conforme a classificação dos pecados que cometeram. Também existem subdivisões, por isso o poeta desenhou círculos e, neles, valas. Assim, encontro-me em dificuldade, porque passo e repasso as listas e o presidente se enquadra na maioria das infrações, segundo o que sei de sua vida. Como ignoro boa parte dela, pode ser que ele pudesse ser enquadrado em mais alguma. A vida pública dele permite este raciocínio.

Enfim, valho-me da lista de Dante para escolher. O presidente tem manifestado “Violência e Bestialidade” de forma usual ao longo de sua vida, o que o levaria para o Círculo VII. No entanto, mais apropriado seria o Círculo IX, o último, o mais profundo, lugar da “Traição” contra a Pátria e os Benfeitores (Jesus Cristo), e junto a Lúcifer, para permanecer pela eternidade. Seus apoiadores se revoltariam com minha escolha, mas as provas existem em abundância.
Minha opção não exige poesia nem rimas. Dante me perdoaria.  Numa realidade cruel é preciso imaginar, e exorcizar o que a razão é incapaz de resolver. Aposto no alívio de um sortilégio contra o poder escorado na ignorância, na alienação, no egoísmo, que destroem as sementes de humanidade.  Conto com a força das ideias de solidariedade e de um mundo melhor para merecer o purgatório com a aquiescência de Dante. O Paraíso é inalcançável.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Felicidade, onde?




Os livros trazem infelicidade, trazem dúvidas. Não precisamos de pensamentos diferentes, nossa felicidade está na certeza de uma só verdade. Nós queremos ser felizes. Estas são algumas das crenças do mundo narrado no filme do homônimo livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, escrito em 1953. Um mundo onde ter um livro é considerado um crime e pago com a morte.
            Poucos anos antes, George Orwell, escreveu 1984, e trata de tema semelhante. Não narra a queima de livros, mas a eliminação do pensamento divergente.  O controle do sujeito numa sociedade onde deve prevalecer também uma verdade única.
            Bradbury se inspira na sociedade americana. Orwell faz uma crítica ao regime soviético. As duas realidades com ideários distintos.

            Sem aprofundar as semelhanças e diferenças entre os dois sistemas, chamou-me a atenção a ideia de felicidade propagandeada na sociedade descrita por Bradbury. Ela me remeteu a uma crônica de Umberto Eco de 2014 “O direito à felicidade”. Nela, o autor coloca a suspeita de que muitos dos problemas que nos afligem hoje seriam devidos à formulação da Declaração de Independência  americana de e de julho de 1776 onde está escrito que “todos os homens são dotados do direito à vida, à liberdade e à felicidade”.
Eco nos agracia com um retorno a alguns filósofos que tratam da questão da felicidade desde antes da era Cristã. Falam de sua efemeridade e, principalmente, do seu caráter individual. Hoje, destaca como ela se enraíza no mundo da publicidade e dos consumos. Comprar alguma coisa é ser feliz. Publicidade nos alcança a todo o momento e jamais mostra um produto relacionado ao trabalho que o produziu. Parece que esta história precisa ser negada. No entanto, ao menos na Constituição Italiana, o artigo primeiro afirma que o país está fundado no trabalho.
Voltando à questão da felicidade, Eco encerra sua crônica dizendo que a Declaração de Independência deveria ter reconhecido o “direito-dever de reduzir a cota de infelicidade no mundo, inclusive naturalmente a nossa”. A história dos E. Unidos mostra estar mais próxima do livro de Bradbury e de ter seguido o princípio da felicidade individual, sem dever para com o outro. Apesar do acúmulo de riquezas e dos seus progressos científicos, alguma coisa está dando errado na sociedade americana. O sonho de felicidade não é alcançado por milhões de seus cidadãos. Não bastasse o conjunto das estatísticas, a expectativa de vida do americano está caindo e está aumentando a mortalidade por suicídio, acidentes e overdoses de drogas ilícitas.  
No nosso país, a mortalidade tem estatísticas muito tristes. A nossa história sofre contínuos apagamentos, numa diversidade de queimadas. Defender os livros, simbolicamente e materialmente, mostra-se, hoje, uma necessidade tão urgente quanto na realidade de Bradbury e Orwell. Nem a Declaração de Independência americana é defendida por aqui.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Águas

A água fria desce abundante sobre meu corpo. O calor é temporariamente afastado. Posso repetir quantos banhos quiser ao longo do dia. É só abrir a torneira. Mas não o farei. Agora, interrompo a delícia de imaginar-me numa cascata, porque não posso desperdiçar o que muitos não têm. Serei parcimoniosa. Agradeço à vida este prazer negado a milhões de seres humanos. Isto é um privilégio esquecido no banal ato de todo o dia ter o corpo limpo e de lavar tudo o que for necessário. Isto determina haver seres humanos cheirosos e outros que fedem. Apesar de não ser só uma questão de ter ou não ter água. Lembrando que a vida surgiu da natureza líquida, o que a humanidade fez para chegarmos onde estamos? Nós tratamos a água, e não só, como bem infinito. Nós a poluímos e a desperdiçamos. Nós a negamos a grande parte dos seres humanos. No entanto, não há como não misturarmos cheiros apesar das distâncias e das ilhas onde teimamos em nos isolar. Nós somos uma só ilha que voa pela galáxia, embora redonda e não plana como alguns voltam a afirmar.  Quanto tempo durará para que não haja mais fuga possível para ninguém? Há quem negue esse futuro. Há quem projete a compra de um terreno na lua ou em Marte. Se eu fosse uma divindade, neste primeiro dia de 2019, não distribuiria títulos e dividendos, carros e viagens, cartões de crédito e títulos honorários. Limparia todas as águas e as distribuiria igualmente para cada ser humano. Haveria extensa limpeza e, com a equidade, muitos se sentiriam prejudicados. Imagino o rebuliço. Correria o risco de ser apedrejada como comunista.