Mergulhei logo na grandiosidade das
esculturas romanas junto ao fluxo incessante de pessoas de todo o mundo. Era o
início do caminho pelo primeiro corredor da Galleria degli Uffizi e, adiante,
fui atraída pelo colorido vermelho e azul numa composição com muito ouro dos
quadros da idade média. Um desfile de
belezas que faz esquecer onde se está e o que viemos fazer ali, nesta fartura
de criações oferecidas por mais de dois milênios de história.
Nomes famosos,
alguns conhecidos para mim, outros nem tanto. Pinturas já vistas em inumeráveis
publicações estão ali a centímetros de meus olhos e de minhas mãos. A
reverência diante de tanto esplendor, mais do que a interdição para alcançá-las,
impede o gesto de aproximação. O maior museu renascentista do mundo é apenas
uma parte do que a humanidade criou desde sempre.
Então, entrei na
sala em que vejo o quadro. Naquele instante compreendi o que já sabia, porque Leonardo
da Vinci é considerado um gênio, sem lembrar suas invenções. Toda a beleza em
sua perfeição estava diante de mim na Anunciação. Sou uma apreciadora das
artes, não tenho conhecimentos específicos da área, encanto-me ou não diante do
que vejo. Ali fui atraída como limalha ao ímã. Mais do que explicar os porquês
de meu encantamento, surpreendo-me com o que sinto. Não sendo a primeira vez
que vejo obras de Leonardo, estar presente, no entanto, me coloca em outra
dimensão. Esqueci o havia visto até então na Galleria, fico imóvel diante da
pintura a óleo sem me perturbar com o movimento de tanta gente que também está
ali. Aos poucos dou forma ao meu encantamento, vejo a presença do ouro com
parcimônia, o azul na veste de Nossa Senhora, também um pouco de vermelho, este
acentuado nas vestes do anjo que fala com a Virgem. A distribuição de claridade
e sombras dão uma sensação de grande profundidade na paisagem e servem de
contorno aos semblantes dos dois personagens. Estes encontram-se envoltos no
ato da Anunciação, evento que mudará o curso dos milênios seguintes. Há no
conjunto da pintura uma aura de sublime acontecimento.
Sinto prazer em repassar
o olhar inúmeras vezes sobre os detalhes e sobre o conjunto dos elementos que
se me oferecem. Qualquer cansaço desaparece e rastreio a beleza, estou presa
por ela num estado suspenso da realidade. Gostaria de permanecer nesta
condição. No entanto o tempo segue.
Volto à minha
condição, é hora de sair da Galleria. Retorno ao mundo de fora com uma carga
emocional que me alimentará por muito tempo. Devaneio sobre o papel da arte na vida
do ser humano. Sou grata por esta experiência há tanto tempo desejada. Lamento
a inexistência para grande da humanidade de contatos com a beleza, encantamento
e provocações advindos das artes. Um mundo que produz subjetividade sensível, que
abre portas a outros pensares, que contribui para a realização de outras
potencialidades no ser humano.
Recuso pensar que
o Brasil está caminhando na contramão disto tudo, com todas as consequências
para a atual e futuras gerações. Desejo que aumentem as resistências
existentes. No entanto, os temores me cutucam, por isso mesmo opto por, ao menos
por algum tempo, agarrar-me à beleza que acabei de ver.

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