Lembro de quando
um cachorro me derrubou e eu me defendi com os braços para que não atingisse
meu pescoço. Ele os mordeu em vários
lugares. Chegou a arranhar minha garganta. Estava no jardim da casa de minha
melhor amiga. O costume era trancarem o cão num depósito de ferramentas, quando
recebiam visitas. Naquele dia, por certo não fecharam bem a porta e, de
repente, me vi atacada. É assim que eu me sinto hoje. Atacada, porque deixaram
uma fera solta. A diferença é que o ataque atual estava anunciado, não foi
surpresa. Na época eu tinha dezesseis anos. Cheguei a pensar que não mexeria
mais os dedos das mãos. Eu tinha o sonho de me formar em medicina, uma
cirurgiã. A vida ainda tinha que ser vivida. O medo foi grande, mas continuei a
ir para o colégio com a ajuda de minha amiga, dona do cachorro. Não sei quanto
tempo levei para constatar que meus braços e mãos seriam curados.
A vida me
levou por outros caminhos e usos das mãos. Apenas marcas ainda persistem,
pequenos sinais que foram suavizando com o tempo. Permaneceu por longo período,
no entanto, o medo de cachorro. Até um pequeno e inofensivo era capaz de me
fazer atravessar a rua. A diferença daquele tempo e de hoje é ter ampliado
minha compreensão do mundo e saber lidar com meus medos. Hoje não duvido que
vou reagir. Mas a dimensão do tempo mudou. Já vivi a maior parte que me cabe.
Estou cuidando das feridas, elas não me inutilizaram. Assistir à última eleição,
e seu resultado, foi terrível. E principalmente, conhecendo as formas torpes utilizadas,
dão lugar à indignação. Junto à família e amigos, em sintonia com eles, estamos
traçando estratégias para seguir. Não existe, porém, uma perspectiva de futuro
que me acalme. Lideranças de minorias, os desfavorecidos e os marginalizados
estarão em perigo maior. Serei solidária e farei o que for possível. O que me
impulsiona a viver em meu lugar e o meu tempo é a esperança de que filhos e netos tenham um mundo melhor. Quando
afirmo o desejo e a esperança de um mundo melhor para eles, é porque o almejo
para os outros também. Ou o será para
todos ou não o será. É minha utopia. É
para lutar por isso que acredito valer a pena viver.
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