Ouço o historiador italiano Mauro
Canali dizer que foi o medo a mola propulsora para Mussolini ascender ao
poder. Fragmentos de notícias de hoje colam-se ao que ouço por aqui.
A economia em
frangalhos depois da Primeira Grande Guerra e a população passando enormes
dificuldades. Mais uma vez uma analogia com o país: desemprego em alta,
direitos sociais eliminados, milhões de brasileiros voltando ao mapa da fome.
Havia então um
desejo de salvação dos desafortunados e um líder que a prometia. Aqui também
foram feitas promessas de salvação, mas não havia uma liderança promissora, apenas
um subproduto da política e um complô para derrubar o governo constituído.
Mussolini juntou
as promessas de arrumar o país com a construção da mídia a seu favor e a censura
de quem estivesse contra para consolidar o poder. Até a imprensa estrangeira
se embeveceu com sua retórica e custou a entender seus reais propósitos. No
Brasil, a mídia já existia e sempre esteve ao lado do poder. Só não conseguiu
barrar um governo voltado para a maioria excluída por alguns anos. Retomou com
fúria seu papel de desinformar e mentir durantes as últimas eleições,
continuando com o apoio ao golpe e a sustentação da turma golpista.
Mussolini tinha
um sonho de engrandecimento da Itália e ele seu líder máximo que o realizaria.
Aqui param as analogias. O grupo que se apossou do poder está se lixando para a
terra natal, vende o país às multinacionais sem nenhuma vergonha. Promove o
retrocesso a um Brasil Colônia, não mais de Portugal, mas do poder econômico e
financeiro.
O entrevistador
pergunta se a Itália estaria vivendo em momentos iguais e ele responde “Não”. Os
desafios são outros, hoje a Itália vive outra realidade. Apenas o medo é que
volta a assumir um forte papel para a tomada de decisões. Voltamos às
semelhanças. O medo está contaminando a população brasileira. Embora aqui sejam
sempre desenterrados velhos fantasmas que fariam rir o mundo lá fora. É chamado
de comunista aquele que se manifesta por justiça social. Pesquisadores das
áreas das humanidades em universidades estão sendo ameaçados. Um obscurantismo
de Idade Média.
O problema maior
é que a mídia vem alimentando o medo, desfocando os reais problemas do país.
Apresenta consequências como causas, remexe a superfície e escolhe sempre os
mesmos alvos, os pobres e qualquer diferença que dificulte seus intentos. Neste
momento, se alinha ao invés de se contrapor a um discurso e ação moralizadores de
grupelhos atuantes em constranger a sociedade civil, como os que apoiaram
Mussolini. Neste tsunami contra direitos sociais, até o mundo artístico está
sendo violentado como durante o fascismo. Todos os sistemas ditatoriais
buscaram “disciplinar” a arte. Mais uma forma de ampliar o medo.
Um esforço
gigantesco precisa ser feito por quem compreende a história e os mecanismos de
sua produção e reprodução. Felizmente, existem inumeráveis micromovimentos
espalhados pelo tecido social como anticorpos à destruição do país: intelectuais,
professores, artistas, advogados, pequenos produtores rurais, políticos (nem todos
fazem parte da corja dominante), sindicatos, pessoas comuns que lutam pela
sobrevivência, uns poucos estados que caminham na contramão do desmando
federal. Falta-lhes a visibilidade da grande mídia. Ela os ignora como sempre
fez. Que os golpes diários contra a
maioria da população não nos imobilize. É preciso alimentar esses anticorpos, é
preciso não desistir.
O fascismo
necessitou de uma guerra mundial para ser derrubado. Temos que encontrar outro
caminho por aqui.
