Toalha
Um dia, uma
amiga afirmou que a humanidade tinha evoluído, as coisas tinham ficado
melhores, éramos uma sociedade melhor. Eu lhe respondi que realmente as
mulheres não eram mais queimadas em praça pública, mas os estupros existiam em
todas as camadas sociais, as mulheres eram vítimas da violência de forma assustadora,
mas a maior parte dos casos sequer era denunciada, por medo, o que mudara era
que agora havia o silêncio, a agressão era oculta.
De lá para cá,
volta e meia esta conversa me vem à mente, e busco algum exemplo que dê razão à
minha amiga, mas não encontro, apesar dos meus esforços.
Um dia, olhando
pela janela, vagando com meus pensamentos, imaginei a humanidade como uma
grande toalha bordada e colorida, mas com muitas falhas, buracos e rasgos. Mãos
invisíveis a vão consertando e aumentando, e ela se expande para todos os lados
como uma galáxia. E as tramas, e os buracos, e os rasgos também. Só que mudam
de lugar e de contornos, e surgem coloridos nunca antes vistos em texturas
novas que parecem mais fortes, deixando a perspectiva de que a toalha vai
aumentar sem se estragar. Mas, pouco a pouco, também o tecido novo é tomado por
estranhas deformações, nunca antes vistas. E a cada pedaço que se estende, o
que era novo e resplandecente se transforma igualmente em tecido danificado.
Mas tudo
continua a se estender, e os pedaços exteriores e distantes do início têm suas
semelhanças esmaecidas, os padrões mudaram, mas continuam presos ao mesmo
tecido que se expande indefinidamente.
Então lembrei no
que dizia Deleuze sobre a diferença, vinda em relação a si mesmo num infinito
processo de duração da vida no complexo entremear de ações individuais,
próximas ou distantes, mas todas em relação umas com as outras.
Construímos
juntos e sempre o mesmo tecido.
Querida amiga...que as tramas sejam suaves e as cores diversas e que cada um se responsabilize, ao menos por sua parte!
ResponderExcluirSempre é bom ler tuas reflexoes...obrigada por compartilhar!