segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Vergonha ou valentia?



Fios cortam as árvores ao meio. Não, serras é que lhe amputam galhos fortes e sadios, apesar dos parasitas que vivem às suas custas. Lâminas acionadas com voracidade. A rede elétrica invade o espaço aéreo das copas, mutila-as e determina uma forma sem chances de apelo. A estética imposta é a da deformação da natureza. Braços sinuosos ou retilíneos, sempre protetores contra o sol de verão, são eliminados como se necrosados fossem. Algumas árvores vingam-se projetando um V que pode significar ideias díspares como voragem, valentia, vergonha ou vitória, segundo o sentimento que nos inspira. Pode ser também vértebra. Algumas árvores parecem ser sido desvertebradas. Dos tocos emergem circularidades que marcam o exato lugar da violência, acentuando uma imobilidade da espécie e do seu destino truncado. Uma natureza livre submetida às necessidades urbanas materializadas na quantidade de fios que foram crescendo aos poucos e se sustentam nos postes enfileirados na beira das calçadas, um exército fiel e indiferente às árvores mutiladas. Poderia ser diferente? Sim, há testemunhos pelo mundo afora. No país também há uma mutilação em curso, a dos programas e dos direitos sociais, ela também em nome de necessidades mistificadoras. Poderia ser diferente? Sim, a história recente e antiga nos ensina, embora boa parte da sociedade não queira aprender.



Eu me sinto como estes tocos. Espero que brotem com força nos próximos meses. Quanto à rede elétrica, será tarefa das próximas gerações, se conseguirem mudar a política e a gestão da coisa pública. A minha geração está em débito.

Um comentário:

  1. Maria Rosa, uma crônica perfeita que revela a tua indignação com a situação política de nosso País, fazendo uma bela metáfora com as árvores mutiladas. Mutilado está nosso coração, não é mesmo? Abraços.

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