sábado, 4 de janeiro de 2014

Devemos aprender



Estas palavras ficaram em minha cabeça como eco infinito. Fizeram-me pensar o presente tão difícil de entender e de aceitar que estou nele, que sou parte dele, que sou ele.

   “Não precisa”, o velho disse. Chorar por eles.
               “Não?”, disse Berta.
               “Não precisa chorar por nenhuma das coisas que acontecem hoje.”
               “Não precisa chorar?”
               “Se choramos, aceitamos. Não precisa aceitar.”
               “Homens são mortos, e não é preciso chorar?”
               “Se os choramos, os perdemos. Não é preciso perdê-los.”
               (...)
               “Mas o que devemos fazer?”, perguntou-lhe.
               “Ah!”, o velho respondeu. “Devemos aprender”.

Este diálogo do romance Homens e Não de Elio Vittorini referia-se aos fuzilamentos de cidadãos italianos pelos nazistas durante a República de Salò. Já se passaram mais de sessenta anos de sua publicação, o mundo se transformou. Venceu muitos desafios, mas, infelizmente, não parece ter aprendido a questão fundamental da defesa da vida.
Os imperadores das finanças e a multiplicação das ilusões vendidas contaminam as ramificações mais longínquas do tecido social. O poder político das diferentes nações mostra-se engessado e o cidadão de todas as classes parece não identificar o inimigo comum que induz ao consumo em excesso, à superficialidade das relações e ao rumo que o modo de vida atual nos conduz.
Continuamos a fazer guerras e a matar com desenvoltura. E, ainda, a incessante máquina de produzir alienação e individualismo continua indiferente. Então, o que precisamos aprender, hoje? Já não choramos pelas mortes e não nos indignamos na maioria das vezes com as tragédias mostradas pela mídia. Será possível, ainda, aprender? Aprender, então, o que?
Claro que também produzimos antídotos em gestos, palavras e manifestações, que emergem para denunciar e protestar. Sem eles seria ainda pior. Mas, muitas vezes, parecem surgir um passo atrás.
Talvez estejamos num momento em que não aceitar o que acontece e procurar aprender com as atrocidades longínquas ou próximas passe pela capacidade de voltar a chorar. Lágrimas que mostrem nossa humanidade hibernada e que nos levem a buscar outras formas de resistência, de luta por um mundo melhor. Já perdemos demais com a banalização da dor do outro.
As palavras do velho continuam: “Devemos aprender.” Precisamos desejar.

2 comentários:

  1. Acho que temos que acreditar no citado antídoto. Espero que se repitam manifestações como as de junho, pois os indignados com nossa sociedade materializada, submissa aos mandos do Mercado, precisam sair às ruas. Continuamos precisando aprender. Vinicius

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  2. Maria Rosa ,o texto me tocou profundamente, talvez pela força do conteúdo, talvez pela forma. O que importa é que nos faz olhar o mundo com olhos humanos, fraternos, justos e generosos. Vida longa aos teus escritos.

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