Escutar
como se as palavras lidas fossem ditas em voz alta e refletir, é o que continua
me provocando a leitura do livro.
“Nada daquilo
por que ela viveu está naquilo por que eles morreram. Mas dizem que morreram
também por ela. Por que também por ela?”
(...)
“Mas eles respondem sempre que é natural.
Também por ela, respondem.”
De
novo as vozes de Vittorini. A mulher não entende que aqueles mortos, os assassinados
pelos nazistas e jogados pelas ruas de Milão durante a República de Salò,
tenham morrido também por ela que não participa da resistência e que só trata
de sobreviver. Ela não compreende o resgate que fazem do significado de “natural”.
Para eles era natural se sentirem iguais como seres humanos. Por isso
defenderem que a libertação de um implicava a libertação de todos.
O
próprio Vittorini foi um deles, os que lutaram e que sabiam que era por todos, pela libertação de
todos. Este é o ponto crucial. Pensar em todos e não só em si mesmo ou nos
seus.
Hoje,
continuamos com a mesma questão. Continuamos com a questão exacerbada.
Nós
só nos constituímos como sujeitos porque vivemos com os outros. Não seríamos o
que somos se não estivéssemos num determinado contexto, com os outros. Então,
porque insistimos em esquecer ou negar que o que fazemos, no mínimo gesto, tem
repercussão no grupo humano em que vivo e repica como o badalar dos sinos? E,
no multiplicar-se, já não acompanho o resultado alhures? Mas ele existe, mesmo
que o ignore.
Os
que compreenderam sabem que morreram por todos, mesmo que nem todos os que
queriam salvar tivessem consciência disso. Hoje, posso exercer minha consciência
e minha compreensão do mundo de muitas maneiras. Posso começar desnaturalizando
preconceitos e a ilusão da vitória pelo individualismo. Posso não ceder às
ofensas, mas indignar-me contra a opressão de uns sobre os outros. Posso lutar
contra toda a forma de injustiça. Há mil e uma maneiras de fazê-lo. Só assim,
os que continuam morrendo não morrerão em vão.
Lutar
por um mundo melhor é tomar o “bom remédio” de “ser capaz”, como afirma outra das
vozes de Vittorini. Além de ser “um bom remédio para tudo”.
A
única coisa natural é termos nascido, todo o resto nós construímos.
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