Estas palavras ficaram em minha cabeça
como eco infinito. Fizeram-me pensar o presente tão difícil de entender e de
aceitar que estou nele, que sou parte dele, que sou ele.
“Não precisa”, o velho disse. Chorar por
eles.
“Não?”, disse Berta.
“Não precisa chorar por nenhuma das coisas
que acontecem hoje.”
“Não precisa chorar?”
“Se choramos, aceitamos. Não precisa
aceitar.”
“Homens são mortos, e não é preciso chorar?”
“Se os choramos, os perdemos. Não é preciso
perdê-los.”
(...)
“Mas o que devemos fazer?”, perguntou-lhe.
“Ah!”, o velho respondeu. “Devemos
aprender”.
Este diálogo do
romance Homens e Não de Elio
Vittorini referia-se aos fuzilamentos de cidadãos italianos pelos nazistas
durante a República de Salò. Já se passaram mais de sessenta anos de sua
publicação, o mundo se transformou. Venceu muitos desafios, mas, infelizmente,
não parece ter aprendido a questão fundamental da defesa da vida.
Os imperadores
das finanças e a multiplicação das ilusões vendidas contaminam as ramificações
mais longínquas do tecido social. O poder político das diferentes nações
mostra-se engessado e o cidadão de todas as classes parece não identificar o
inimigo comum que induz ao consumo em excesso, à superficialidade das relações
e ao rumo que o modo de vida atual nos conduz.
Continuamos a
fazer guerras e a matar com desenvoltura. E, ainda, a
incessante máquina de produzir alienação e individualismo continua indiferente. Então, o que
precisamos aprender, hoje? Já não choramos pelas mortes e não nos indignamos na
maioria das vezes com as tragédias mostradas pela mídia. Será possível, ainda,
aprender? Aprender, então, o que?
Claro que também
produzimos antídotos em gestos, palavras e manifestações, que emergem para
denunciar e protestar. Sem eles seria ainda pior. Mas, muitas vezes, parecem
surgir um passo atrás.
Talvez estejamos
num momento em que não aceitar o que acontece e procurar aprender com as atrocidades
longínquas ou próximas passe pela capacidade de voltar a chorar. Lágrimas que mostrem
nossa humanidade hibernada e que nos levem a buscar outras formas de
resistência, de luta por um mundo melhor. Já perdemos demais com a banalização
da dor do outro.
As palavras do
velho continuam: “Devemos aprender.” Precisamos desejar.
Acho que temos que acreditar no citado antídoto. Espero que se repitam manifestações como as de junho, pois os indignados com nossa sociedade materializada, submissa aos mandos do Mercado, precisam sair às ruas. Continuamos precisando aprender. Vinicius
ResponderExcluirMaria Rosa ,o texto me tocou profundamente, talvez pela força do conteúdo, talvez pela forma. O que importa é que nos faz olhar o mundo com olhos humanos, fraternos, justos e generosos. Vida longa aos teus escritos.
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