quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Erva-depassarinho 2


Final de maio, outono, o verde ainda predomina. Naquele esqueleto de árvore, no entanto, o marrom da secura. Ainda dá para entrever como a árvore deveria ser com a seiva a correr-lhe nas veias. Agora, é a pura ruína de um anterior esplendor a céu aberto, sugado pela parasita sem piedade, num percurso autofágico. Continuam os carros estacionados junto às calçadas, outros circulando pelo meio da rua, enfim, a cidade a se movimentar no seu eterno vai e vem. Aquela árvore, porém, sucumbiu. Em cima de tudo, o espectro da coroa de folhas secas, que deveria ter sido uma exuberante erva-de-passarinho, agora apenas fantasma de sua existência a denunciar o abuso. Por baixo, os antigos sustentáculos,  ramos ressequidos, esgotados, desnudos, nem uma folha a testemunhar sua espécie. Sinal de uma exploração que desde o primeiro instante pressagiava o fim. Nada foi feito. A morte anunciada concretizou-se.
Final de junho, o registro de outras árvores também consumidas pela voracidade da mesma espécie de parasita, uma praga disseminada ante olhares insensíveis. Último recurso da falta de cuidado, as árvores foram cortadas. Gesto a apagar o drama que poderia ter sido evitado. Tentativa de acabar com as evidências da incompetência de quem precisa cuidar da cidade e da indiferença dos outros.
Final de agosto, o vazio das árvores sugadas até a última gota, e depois ceifadas, é disfarçado pela natureza que cumpre seu destino. Numa primavera antecipada, a grama cobre de verde o entorno dos restos de troncos.
Mais difícil e complexo é rastrear as ruínas humanas que o consumo desenfreado produz nos corações e mentes. Mas o processo é similar, a seiva que poderia estar a serviço da criação para o bem viver, é sugada pelo parasita da necessidade de ter cada vez mais coisas desnecessárias. Diferentes das árvores, os seres humanos continuam a perambular em domesticação de pensamentos e afetos, processo mais complexo e difícil de detectar. Os esqueletos estão disfarçados.
No começo de cada dia, haverá um galho de erva-de-passarinho a brotar de nossos poros, as suas sementes foram disseminadas pela avalanche de palavras, imagens e coisas que enchem olhos e ouvidos. Não há como negar nosso tempo. Como não deixá-la multiplicar-se, não nos transformarmos em hospedeiros, não adoecer?

3 comentários:

  1. Adorei o texto principalmente: "Mas o processo é similar, a seiva que poderia estar a serviço da criação para o bem viver, é sugada pelo parasita da necessidade de ter cada vez mais coisas desnecessárias"

    Penso que a humanidade tem se esforçado para construir a própria ruína.

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  2. Melancólico. E o fecho faz sentido, na mais dolorosa constatação da nossa irresponsabilidade. Abraço da Scyla.

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  3. muito legal, mirosa!! Adorei!! Helena

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