Final de maio,
outono, o verde ainda predomina. Naquele esqueleto de árvore, no entanto, o
marrom da secura. Ainda dá para entrever como a árvore deveria ser com a seiva
a correr-lhe nas veias. Agora, é a pura ruína de um anterior esplendor a céu
aberto, sugado pela parasita sem piedade, num percurso autofágico. Continuam os
carros estacionados junto às calçadas, outros circulando pelo meio da rua,
enfim, a cidade a se movimentar no seu eterno vai e vem. Aquela árvore, porém,
sucumbiu. Em cima de tudo, o espectro da coroa de folhas secas, que deveria ter
sido uma exuberante erva-de-passarinho, agora apenas fantasma de sua existência
a denunciar o abuso. Por baixo, os antigos sustentáculos, ramos ressequidos, esgotados, desnudos, nem
uma folha a testemunhar sua espécie. Sinal de uma exploração que desde o
primeiro instante pressagiava o fim. Nada foi feito. A morte anunciada
concretizou-se.
Final de junho,
o registro de outras árvores também consumidas pela voracidade da mesma espécie
de parasita, uma praga disseminada ante olhares insensíveis. Último recurso da
falta de cuidado, as árvores foram cortadas. Gesto a apagar o drama que poderia
ter sido evitado. Tentativa de acabar com as evidências da incompetência de
quem precisa cuidar da cidade e da indiferença dos outros.
Final de agosto,
o vazio das árvores sugadas até a última gota, e depois ceifadas, é disfarçado pela
natureza que cumpre seu destino. Numa primavera antecipada, a grama cobre de verde
o entorno dos restos de troncos.
Mais difícil e
complexo é rastrear as ruínas humanas que o consumo desenfreado produz nos
corações e mentes. Mas o processo é similar, a seiva que poderia estar a
serviço da criação para o bem viver, é sugada pelo parasita da necessidade de
ter cada vez mais coisas desnecessárias. Diferentes das árvores, os seres
humanos continuam a perambular em domesticação de pensamentos e afetos,
processo mais complexo e difícil de detectar. Os esqueletos estão disfarçados.
No começo de
cada dia, haverá um galho de erva-de-passarinho a brotar de nossos poros, as
suas sementes foram disseminadas pela avalanche de palavras, imagens e coisas
que enchem olhos e ouvidos. Não há como negar nosso tempo. Como não deixá-la
multiplicar-se, não nos transformarmos em hospedeiros, não adoecer?
Adorei o texto principalmente: "Mas o processo é similar, a seiva que poderia estar a serviço da criação para o bem viver, é sugada pelo parasita da necessidade de ter cada vez mais coisas desnecessárias"
ResponderExcluirPenso que a humanidade tem se esforçado para construir a própria ruína.
Melancólico. E o fecho faz sentido, na mais dolorosa constatação da nossa irresponsabilidade. Abraço da Scyla.
ResponderExcluirmuito legal, mirosa!! Adorei!! Helena
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