segunda-feira, 3 de setembro de 2012

“Flodar” ou compreender?


Li e reli o parágrafo. Verifiquei  o nome do autor e a página do jornal. Era o jornal de sempre, então a língua era mesmo o português, confirmei isso, apesar de sabê-lo. Aí, achei que alguma coisa não andava bem, eu não estava entendendo aquelas frases, mas me sentia na obrigação de entender. Afinal, sou leitora contumaz de textos impressos ou on-line, embora prefira os primeiros.
Resolvi pedir ajuda a amigas que dominam a língua inglesa, pois meu pouco conhecimento deste idioma sinalizou para a necessidade de uma investigação. Enviei a frase: “Avenida Brasil é um baita win: nunca uma novela rendeu tanto nas redes sociais. Memes e gifs flodam as timelines!”, e solicitei a gentileza de sua tradução. Enquanto isso, desafiada a tentar resolver sozinha a questão, fui consultando dicionários. Mais tarde, uma delas respondeu que não me preocupasse, pois ela também não havia entendido.
Mesmo não assistindo, impossível não saber que Avenida Brasil era uma novela e, deste início, comecei minha procura de entendimento. Win, remete a to win,  a ganhar, vencer, então poderia optar por traduzir como vitória ou sucesso, no contexto da primeira frase.
Para memes, por sua vez, depois de ler sobre a origem do termo criado por Dawkins na década de 1970, optei pela definição de unidade de informação que poderia ser socializada.
Com gifs foi mais complicado por ser um termo usual na internet, uma área do mundo atual com sua própria linguagem. Resolvi ficar com a explicação de formatos de imagens.
Para entender “flodam” busquei informações que me fizeram percorrer diferentes expressões e significados, recordando a beleza das possibilidades de compor palavras, tanto no inglês como no português. No entanto, é preciso ressaltar o aportuguesamento do verbo to flood: inundar, submergir, alagar, transbordar. Não existe “flodar” na nossa língua, mas descobri que é usado no sentido de ficar mandando palavras pequenas, sem nexo, só para dizer que alguém mandou mensagem, marcar presença. Fiquei devendo para esta explicação, embora tenha elaborado algumas hipóteses. Não quis me desviar da pesquisa.
Constatei também que existe um substantivo correspondente: flood que quer dizer inundação, enchente, cheia, dilúvio ou  mar, oceano, lago, rio, grande quantidade de água, corrente de água, para ficar apenas nestes sinônimos. Riqueza de sentidos, apropriados e, ao mesmo tempo, distantes do verbo criado.
Por último, obtive o significado de timelines: linhas do tempo, que nas mídias sociais é onde se organiza e sequencia as postagens conforme o tempo, conduzindo também o usuário na conversação.
Perguntei-me, por último, se aquele inocente as significaria a conjunção como, ou apenas um artigo. Considerando a composição da frase, optei por artigo feminino plural da língua portuguesa: as.
Assim, o meu parágrafo ficaria traduzido desta forma: “Avenida Brasil é um baita sucesso: nunca uma novela rendeu tanto nas redes sociais. Informações e imagens inundam as linhas de tempo das redes sociais!” Sem discutir o conteúdo, pareceu-me um parágrafo coeso. Então, porque inserir tantas palavras estrangeiras que parecem destinadas a uma turma específica, em jornal de ampla circulação?
Talvez, a diferença de gerações me coloque essa dificuldade de entendimento ou de aceitação. De qualquer forma, pergunto-me sobre o que está acontecendo com a língua que aprendi em criança e da qual fui testemunha de várias mudanças incorporadas.
Aceito o uso de termos de outra língua, às vezes, explicitam melhor que a nossa o que se quer dizer, ou mesmo, seu uso torna-se um hábito em áreas particulares da cultura. Por exemplo, em artigo sobre o Filme 360 de Fernando Meirelles, uma crítica de cinema usou o termo loop para dizer que o filme fazia uma volta, dava uma volta sobre o tema e, depois, empregou a expressão “não jogar spoilers” para explicar que não queria ser desmancha-prazeres e antecipar a narrativa do filme. Uma forma de se expressar para quem deve utilizar constantemente a língua inglesa no seu trabalho.
As línguas modernas estão cheias de termos de outros códigos linguísticos, faz parte do contínuo intercâmbio entre os mais variados grupos humanos desde sempre. No entanto, o parágrafo invocado permite perguntar: o que está havendo com nossa língua, especialmente a das redes sociais? Como andará a subjetivação e o entendimento do mundo pelos jovens que navegam por elas?
Linguagem e pensamento são íntimos há muito tempo, sussurra-me Vygotsky. Esta rememoração abre o arquivo das tantas experiências escolares, onde a preocupação com cada palavra para que se pudesse produzir uma capacidade subjetiva de crítica e de resistência à manipulação.
Assim, permanece a questão: a língua precisa estar a serviço da compreensão do que se faz e do que se vive. Sem isso, fica-se realmente a “flodar” pelo espaço etéreo do gastar o tempo e passar pelo mundo sem dar-se conta do que acontece ao redor e sem medir consequências.

4 comentários:

  1. Olá, já me deparei com situações assim. Pensei o mesmo que tu, mas nunca me detive para 'dissecar' a frase, como fizeste. Também não teria as palavras certas para colocar num texto tão bem escrito e dito, como este. Parabéns, faço minha a tua indignação. Abraço. Denair

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  2. Maria Rosa, lindo...
    teus textos me ajudam nas minhas aulas. Parabéns e saudades.
    Beijos
    Cláudia

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    1. Concordo contigo quando dizes que "a língua deve estar a serviço da compreensão do que se faz e do que se vive". Parece que os meios de comunicação não estão muito interessados nisso, direcionando as mensagens para um público específico. A minha dúvida é que público é esse e o que vai acontecer com a nossa língua tão dilacerada.Obrigada pelo texto que nos leva a refletir.
      Bjs.
      Geni

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  3. Por concordar inteiramente com as observações expressas no seu artigo, solicito sua permissão para reproduzi-lo em http://www.facebook.com/groups/114489758701016/
    PALAVRA ABERTA.
    Aguardo sua autorização.
    gilbertobwallace@gmail.com
    Gilberto Wallace Battilana

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