sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nas dobras do tempo

A casa já não estava lá.
Ao chegar, a mulher nem identificou o lugar. Tanto tempo passado. Uma barreira de edifícios fora erguida junto à calçada. Não conseguiu enxergar sequer o centro da quadra, mesmo contornando-a pelo lado direito, como fazia quando lá morava. Uma lembrança persistia: o entorno da casa, um pátio onde brincara com seu cachorro, uma parreira, hortas e um banhado coberto de copos-de-leite. No entanto, outra bordadura de edifícios impedia a confirmação do que deveria ter sumido. Chegou a duvidar que o quarteirão, onde havia vivido boa parte da sua infância e adolescência, fosse aquele.
Sentiu-se roubada. Foi tão confiante àquele lugar para mostrá-lo a seus parentes que tinham vindo de longe. Suas lembranças ficaram solitárias. Desejou tê-la fotografado. Não o fez, talvez, por achar que ela permaneceria para sempre. Perpetuar a casa era, de alguma forma, um desejo de permanência daquele tempo. Quem sabe, uma tentativa de driblar fantasmas.
Quando viu a casa pela última vez, alguns anos atrás, sequer pensou sobre o futuro dela, era um fato dado que ela permaneceria ali, à sua disposição, intacta. O seu desparecimento trouxe-lhe a sensação de um já visto, outros desaparecimentos nas dobras do tempo. Ela não existia mais, ou deixou de existir apenas para os seus olhos? Mãe, irmãos e ela, conheceram ali o desamparo com a morte do pai.  Naquele lugar, ela viveu os anseios da adolescência e os sonhos de um futuro que se mostrou radicalmente diverso, que a levou para longe, para outra cidade. A casa não existe mais, a rua recebeu calçamento e, talvez, apenas um ou outro prédio tenha sobrevivido.
O que ela desejava ao tentar rever onde morou? Folhar um álbum do passado? Alcançar o que já se havia ido sem que tivesse percebido? Uma dor insistente foi se definindo aos poucos, como na dissolução vagarosa do vapor sobre um espelho. No fim, a imagem que lhe está defronte. Uma mulher diante dos sofrimentos não chorados na pressa de seguir adiante. Uma mulher que queria olhar-se, mas não havia conseguido fazê-lo.
Necessitava encarar as repetidas dores que a acompanharam. Esgotá-las. Cortar as raízes que alimentavam essas dores. Guardar só as lembranças, despidas de tensões, alicerces e vigas de sua história. Só assim poderia entrar em nova casa.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fortes na ternura



Fortes, é o que elas são.
Como os cipós da floresta
Presos, permitem voos, liberdade.
O deserto na secura
E elas, os cactos enraizados
Generosos,  oferecem flores e sumo.
Juncos castigados pelo vento,
Dobrados até o chão,
Mas não quebrados,
Erguem-se e agitam-se ao céu,
Majestosos e verdejantes
Oferecem sombra e frescor.
Em rachaduras de velhas paredes,
Entre pedras das ruas e beiras  esquecidas,
Flores vicejam  e se oferecem indiferentes.
Têm espinhos, asperezas e calosidades,
Mágicas  vestes do amparo que sabem dar,
Cores e cheiros a encantar.
São as mulheres que teimam
Gritar e chorar desgraças,
Rir e partilhar vitórias, sonhos.
Resistir a cada instante,
No eterno gesto de agarrar
A vida triunfante
Feita abraço e aconchego.

Dedicado ao Grupo de Mulheres do MDCA - Movimento pelos Direitos da Criança e do Adolescente - Partenon/Porto Alegre

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meu rio


No lugar onde nasci há um rio.
Como lembro do meu rio?
Largo e profundo
Águas frescas
Alguns trechos das margens
Cobertos por tapetes de seixos.
Ali tomávamos banho no verão,
Meu irmão, meus amigos.
Hoje, voltei.
As águas baixaram
Os seixos afloraram
E alargaram as margens,
Elas estreitaram as águas.
Ouvi dizer que as neves das montanhas
Estão desaparecendo
Não alimentam mais o rio.
Talvez, nem profundo seja mais.
O que o faz ainda meu rio?
A lembrança que tenho dele.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Instantes fora de controle

Eu vi os crocks cinzentos que ele calçava, quando se levantou e foi para a saída. As pernas magras estavam descobertas, então ele deveria estar de bermudas. Quando ele subiu, algumas paradas antes, meu olhar desfocado registrou que ele usava boné e estava mal vestido. Naquele momento, eu olhava a composição de casarões antigos e prédios novos da avenida, como costumava fazer ao passar de lotação por ali. Os testemunhos do passado lembravam-me as descrições de Josué Guimarães, que me encantavam. Pouco depois, ele se levantou.  A rigidez do corpo e a proximidade demasiada junto ao motorista fizeram com que eu lhe prestasse atenção. Ouvi: passa, passa, passa logo, passa tudo, ligeiro. Tom baixo, seco e decidido. Motorista submisso, gestos mansos, sem pressa. Em seguida, outras palavras: abre a porta, abre a porta, ligeiro, ligeiro, vai, vai. Alguns segundos explosivos.  A porta se abre e ele sai. O acontecido se desmancha no ar. Enquanto isso ocorria, olhei para as mulheres que estavam sentadas atrás do motorista. Uma delas tinha que estar vendo o que eu enxergava, era a mais próxima, mas olhava para fora. Da outra, não lhe vi o rosto. Os passageiros, mais ao fundo, nem devem ter percebido o que sucedia.  Eu incrédula, à direita do veículo. Na fração de tempo testemunhado, cheguei a pensar: Levanto? Grito? E se ele tem um revólver? Isto não é um filme. Está acontecendo agora.  O que o motorista vai fazer? Obedeceu e, ao final, olhou pelo espelho lateral por instantes, engatou a marcha e seguiu em frente. Nenhum telefonema, nenhuma conversa com qualquer um dos que estavam ali, como se nada tivesse acontecido. O motorista sozinho a digerir a agressão e o roubo.  Na avenida dos casarões de Josué Guimarães passavam bondes com seus motorneiros e cobradores. Quais teriam sido os perigos naquela época? Imagino, apenas, alguma eventual altercação por falta de bilhete. Até o fim da linha, duas vezes, o motorista parado diante da sinaleira vermelha, ergueu levemente os braços e balançou a cabeça, como a falar consigo próprio. Algumas paradas adiante, uma passageira chega até a poltrona à minha frente, vazia até então, e despeja sua ansiedade na narrativa do que fizera para se proteger ao suspeitar do rapaz. Sobem e descem mais algumas pessoas, na rotina do trajeto. Elas são inteiradas do que acontecera. O motorista responde a uma pergunta e afirma que lhe fora apontado um canivete. Continua a dirigir da mesma forma até o fim da linha. Foi feita a sugestão de testemunhar o assalto para o fiscal. Ele respondeu: Não adianta, vão descontar do meu salário. Retomará o itinerário quantas vezes forem programadas para aquele dia, preso a trilhos invisíveis do seu trabalho.

Um passeio com Arte e História

Mergulhar nos cenários do passado histórico do estado é uma experiência rica de emoções e de surpresas, principalmente para aquele que, por alguma razão, não tem o salutar hábito de revisitar suas raízes.  Uma recente visita a Piratini propiciou partilhar prazerosamente diferentes cenas cotidianas da época da Revolução Farroupilha.

As dramatizações substituíram a narração didática linear. O enaltecimento de figuras proeminentes foi substituído por diálogos entre algumas elas, captados como que por acaso. Assim, o grupo assistiu ao encontro entre lideranças diante do Palácio onde funcionou o Governo Provisório da República Rio-Grandense 1836-1845, na antiga Rua Clara, hoje Rua Gomes Jardim.  Da mesma forma, numa esquina, ouviu-se um guri distribuindo o jornal O Povo, acompanhou sua volta ao lugar onde foi impresso, para entregar ao jornalista Rossetti  o dinheiro da venda. Em seguida a conversa deste com Garibaldi, diante da casa que foi gráfica e moradia de ambos. 


A visão de Barbosa Lessa menino, diante daquela que foi sua casa. A beleza de sua narrativa encantou e transportou os presentes ao longo dos anos que viveu ali e para o mundo da literatura gaúcha, um dos resgates das histórias locais que enraízam e fortalecem a identidade.
A voz de figuras comuns também foi ouvida. No diálogo entre duas mulheres  que, passeando na praça, expressavam seus anseios em relação ao casamento e aos temores pelos homens que iam à guerra.  Outras duas mulheres diante da Camarinha, a comentar os acontecimentos locais. Falas entre escravas sobre suas lides domésticas: lavar roupa e cozinhar. Também sobre seus descansos com a saída dos donos, ou mesmo, de suas fantasias, como a de experimentar as roupas lindas da sinhá. Conversas entre os membros de uma das grandes famílias que passeava pela, hoje denominada, Travessa Manoel R. Lucas. Explicações envolvidas em folclore sobre a arquitetura e materiais de construção empregados naquele tempo. 

Enfim, um pequeno mosaico de Piratini dos anos 1830 e 1840, onde não poderia faltar o Hino Rio Grandense, cantado com paixão pelos artistas da terra e pelos presentes.

A recuperação de fatos cotidianos, que chegam apenas a leitores aficcionados, tornou possível um mergulho na época, não apenas nos fatos históricos usualmente ressaltados, mas sempre policromáticos, como também com experiências prosaicas da vida comum.  

À tardinha, uma surpresa.  No balcão do hotel, o “jornalista Rossetti”  foi quem atendeu com um sorriso, em seu trabalho cotidiano somado ao do teatro recém desempenhado. Passado e presente num entrelaçamento entre trabalho, diversão, cultura e arte, com os pés na história que alguns contribuem para não ser esquecida.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Vozes submersas


Vozes submarinas que vem à tona através das bandeiras, feitas outras bandeiras com recortes delas, costuradas  por  mãos anônimas.
Combinações, contradições, contravenções, subversões, todos territórios da arte que não quer fronteiras, como não o querem as vozes que são represadas em frascos com rótulos de centro, de bairro, de periferia, de marginal.
Composições que são o olheiro do mundo, o periscópio à cata do inimigo lindeiro, fronteiriço, do lado de lá.
Obras que levam a rupturas do já conhecido. Corredores de diferentes conexões, pensamentos, avanços e recuos. Desvelos de sucessivas ocultações, resultado da marcha cotidiana do mesmo passo, da mesma cooptação.
Movimento, desacomodação pelo captar de um eu que se repete na diferença entre bandeiras, entre nações, entre territórios, entre imposições a povos silenciados.
Fragmentos transformados em costuras de poderes desmascarados, expressos em novos símbolos a gritar, em rachaduras para emersões de novas forças.
Desmascaramento do poder dos símbolos e produção de novos territórios com fronteiras móveis e flexíveis,  que convidem à participação e à partilha. Não ao isolamento e à disputa. Derrubada de cercas, de moirões, de traçados imaginários que impedem  a circulação de ideias e sentimentos para congregar o ser humano num mesmo círculo.
Não somente o isolamento do espaço e tempo de um estúdio, mas partilha do caminho na produção da obra.
Caminhos para estranhar e perguntar sobre os laços, finos e implacáveis, a que cada um é preso no viver cotidiano, onde marcas, compras, automatismos são instituídos no vazio de um não pensar, não reivindicar, não criar.
Convite para substituição do concordar, disciplinar, seguir. Convite a parar, surpreender-se, emocionar-se e ver o duplo, triplo ou quádruplo como outras potências.
Atração para outras virtualidades de mundo. Portas para outras formas de estar no mundo.
Recusa contra a estagnação. Há outra porta, janela, entrada e saída para o acontecimento cotidiano, para a imaginação, para alcançar o outro. Quebra de correntes que imobilizam num mesmo modo de pensar.
Não importa a classificação, se arte conceitual ou moderna, se instalação ou obra, se melhor ou pior que em outros períodos. São sucessivos e ininterruptos convites para ultrapassar as mil sutilezas que nos aprisionam na mesmice travestida na ilusão de mudança. É convite à curiosidade e à descoberta.
Esses são os territórios sem fronteiras atravessados por Sandras, Brunas, Zíngaros, Marias, Marcelos, Jessicas e Joãos, mediadores que acompanham e conversam com quem se dispõe a andar pelos armazéns do cais do porto, pelo Santander, pelo MARGS, pela Casa M e pela cidade não vista.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Neblina

Neblina, sempre neblina.
A neblina está presente na cena final de Deuses e Homens, na peça Histórias de Amor Líquido, em acidente com centenas de carros em estrada de São Paulo.
A neblina mascara, reveste, esconde ou sugere. Uma certa neblina envolve o cotidiano, em situações de não saber ou quase saber.  Ela serviria de manto protetor e, ao mesmo tempo, dissimulador da incapacidade de um seguir confiante e seguro? Ignorância ou ocultamento da ignorância. Nebulosidade.
         Guerra pela independência de uma nação, uma história contemporânea e engavetamento de automóveis. Excessos e impossibilidades conectados na luta pelo poder, na fluidez dos contatos humanos e nas tragédias urbanas.  Três tempos/lugares diversos e, no entanto, o mesmo esfumaçar da visão.  Três atos, replicados indefinidamente antes e depois deles. Na repetição, a diferença em cada contexto.
         Sempre fica algo oculto, impossível de alcançar, como se uma neblina eterna negasse a porta para a resposta final. A neblina mostra-se como negação de, enfim, um chegar lá. Ao mesmo tempo – há sempre um “ao mesmo tempo” – ela poderia transformar-se em impulso para seguir adiante, para a busca, para a possibilidade.
         Paisagens, nas quais a neblina emoldura, preenche espaços, delineia planos, contrasta níveis são um convite a pressupor e a criar. O mesmo motor oculto que gesta rios etéreos de fantasias e sonhos. Aí, ela convida à ultrapassagem, não ao recuo ou à estagnação da dominação, do isolamento e da restrição .
         Se a neblina perturba, mas, também, encanta, o seu poder não estaria nela própria, mas nos toques e imersões que o homem se permite nela. Então, a potência do acontecer estaria na relação entre neblina e homem, não numa ou noutro.
         Neblina, nunca só neblina.




sábado, 3 de setembro de 2011

Uma questão de pertencimento


Escolas atacadas por vandalismos, igrejas com portas cerradas, monumentos públicos depredados ou roubados, telefones coletivos inutilizados, prédios pichados, sinalização viária desfigurada, lixo nas calçadas escarafunchado.
Estaríamos nos tornando piores? Seriam as minorias marginalizadas o “mal” que ataca a parte mais beneficiada da cidade? Faltariam leis, ou modificações nas que existem? Haveria uma incompetência do Estado para gerenciar os diferentes segmentos sociais?
E a lista de  “pequenas” irresponsabilidades em apenas um micro espaço urbano: um condomínio? A não seleção de lixo, o cigarro jogado  pela janela, cachorros que latem insistentemente dentro do apartamento, o banho demorado, porque a conta de água é dividida.
Em todos os casos, percebe-se a não preocupação com o que provoco com minhas ações. Ou seja, vale o que eu quero fazer. Um individualismo em que o outro só existe na dimensão daquilo que pode me ser útil. Eu não preciso ser-lhe igualmente benéfico . Não há reciprocidade, porque não me vejo parte do seu mundo. Numa situação, eu depredo; na outra, eu ignoro. 
A par de todas as explicações já veiculadas sobre o comportamento humano, pode-se destacar uma razão. Os que depredam não se sentem parte da escola, da igreja, da cidade, e, portanto, não precisam zelar por elas. Num condomínio, há também os que dizem o mesmo. Em outras palavras, só se interessam pelo seu nicho e por aquilo que, eventualmente, os possa incomodar.
Um exemplo de ação coletiva de maiores proporções, a última revolta em Londres, é vista como crime pelas autoridades, mas diferentemente por muitos, dentre os quais uma assistente social que lá trabalha. Segundo ela “Se você não se sente parte de um país, por que cuidar dele?” Isso nos remete à questão de que lá é o caso de uma juventude não totalmente empobrecida, mas na situação de que não lhe é permitido o consumo de produtos que se tornam fetiche numa sociedade bombardeada por propaganda destes produtos, uma sociedade que diz o tempo todo que você vale pelo que compra.
Respeitadas as diferenças, são todas questões de não pertencimento construídas numa sociedade de consumo globalizada. O mecanismo é a construção do individualismo, porque coopta pela ideia de ter, de possuir coisas, mas exclui, porque não cumpre a promessa para todos. Realiza o não pertencimento para muitos
Felizmente, um mapa de forças vivas, que se atraem e se repelem, está em contínua produção. Assim, ao mesmo tempo, um sem número de “contra ações” criticam o modelo de sociedade, defendem outras formas de viver e conviver, propiciam relações de aproximação e de solidariedade, movimentam grupos ao redor da criatividade artística. Tudo isso oferece a chance de compreender o lugar que cada um ocupa no mundo, bem como os mecanismos que o produzem.
Talvez, o mundo não seja nem pior, nem melhor, mas muito mais complexo e a tarefa de compreendê-lo, e a ele pertencer, mais complicada.

sábado, 13 de agosto de 2011

Rastros


           Eles não se foram, engano meu.

Eu os encontro à toda hora, nos livros presenteados e que deixei sobre a escrivaninha à espera de serem lidos; nos edredons de pena  para enfrentar um frio que não chegou e continuam sobre as camas à espera de serem postos ao sol; nos lírios recebidos no dia da partida e que foram desabrochando aos poucos até não mais resistirem  e renderem-se ao tempo.
Começo a ler Fiabe e leggende del Montello como retorno a um lugar da infância, mas que o ultrapassa e me é misterioso, recuperando informações valiosas e, ao mesmo tempo, ignoradas, pintando o lugar de meu nascimento com novos significados. 
O tempo continua chuvoso, os edredons aguardam o tempo melhorar. Não tem pressa.
Os lírios enfeitaram a sala durante quinze dias e, todas as manhãs, me levaram às emoções de um tempo recém vivido, alongando-o mais um pouquinho. Agora, são vasos num canto da área de serviço, hastes cortadas à espera de novo florescer no próximo ano.
Ainda, há os brincos que me enfeitam quando saio à noite e as aquarelas com as quatro portas de Cittadella que pretendo conhecer in locus.
      Todos, recortes vistos pelos olhos da face a compor um mosaico que vai sendo construído na volta à rotina. Recortes ajustados e colados pelas etéreas junções de gestos, olhares, cuidados, pensamentos e emoções, vistos com os olhos do sentir na pele o contato do afeto e da convivência.
            Faltam as fotos que ainda não foram enviadas, mas os rostos tecem um espaço virtual que acompanha meu circular pela casa e pela cidade, como estar on-line todo o tempo.
          Como, então, dizer que alguém se foi, quando deixou tanto no ar a nos envolver?

domingo, 31 de julho de 2011

Entrelaçamento de tempos e lugares


Eles se foram. 
Como Cazuza cantou, o tempo não para. Este não parar colore de irrealidade a sequência de acontecimentos e lembranças que se revisita aos saltos. O pensamento não é linear e ali reside sua beleza e sua criatividade. Repasso o dia em que me telefonaram e disseram: daqui a dois anos vamos te visitar. Essa antecedência povoou o tempo de expectativas e sentimentos diversos, culminância de um convite feito tantas vezes, concretização da esperança de ser aceito, oportunidade de retribuição do carinho recebido quando eu e meus filhos, e amigos nos acompanharam na ida à cidade e a sua casa. O que estava tão longe foi se aproximando até poder ser tocado. Enfim, revê-los, chegando ao aeroporto e poder abraçá-los  como ocorreu comigo mais de dez anos antes.
                Muitas foram as vezes em que antecipei sua chegada e de como seria. Igualmente, antecipei que a alegria de tê-los terminaria. Antecipei imagens e sentimentos. No entanto, nada se igualou ao realmente acontecido, ao contato, aos sorrisos, aos gestos, à proximidade compartilhada.
Com eles vivi quinze dias intensos, o primeiro almoço, feito com especial atenção. As risadas que se seguiram, dias depois, quando soube que um deles odiava sopa e eu havia feito uma receita única de creme de ervilhas, servido na chegada e na janta.
A descoberta, aos poucos, de suas preferências e a expulsão da sopa do cardápio. O oferecimento dos pratos típicos daqui. A apresentação a nossas castanhas do Pará e caju. O encanto com a goiabada, por eles denominada “marmellata di goiaba”, o sabor diferente das bananas e do mamão formosa. Levá-los a conhecer nossos restaurantes com bufê abundante, saboroso e possibilidade de repetir à vontade. A surpresa e incredulidade diante da contínua oferta de carnes, as mais variadas, em churrascarias e galeterias, enquanto houvesse o desejo de comê-las, coisas inimagináveis no lugar de onde vieram.
A recepção e congraçamento com meus filhos, noras, genro e netos, amigos, numa rede de expectativas e descobertas do modo de vida daqui, tão longe.
O centro histórico de Porto Alegre com belezas que se igualam a outros centros de sua própria terra, o bric da Redenção, mesmo sem o costumeiro e esplendoroso sol.
O passeio turístico pela zona sul da cidade, mostrando outras paisagens urbano-rurais desconhecidas até por mim. A visão da cidade de longe e do alto, numa mistura de concentração de prédios, o rio Guaíba costeando e a moldura dos morros.
As visitas à Serra Gaúcha, num dia de chuva que literalmente nublou a paisagem do Vale dos Vinhedos e que não foi vista no seu esplendor. Noutro dia ensolarado, a subida pela BR-116 até Caxias e no interior dela, permitindo uma vista do alto  de um morro, restaurante atendido pela terceira geração de famílias de imigrantes italianos. O depoimento de que aquela paisagem lembrava a Umbria.
O Beira-Rio foi visto de fora, mas foi assistida uma partida no estádio do Grêmio.
Faltaram muitas visitas, no entanto, ficou a promessa de “isto fica para a próxima vez”, uma longa lista. Pode haver sempre uma próxima vez e desejos a realizar, encanto que nos move e continua a nos unir.
Tudo isso refere-se a parentes que vieram de Nervesa dela Battaglia / Provincia di Treviso, lugar onde nasci. Desde a primeira vez que para lá retornei, convidava-os a conhecer a terra que acolheu minha família na década de 1950 e aquela em que vivo com a família que constituí.
Enfim, realizou-se um tempo de estreitamento de laços, realização de sonhos, compartilhamento de afetos, há tanto esperado, no extremo sul deste “meu atual” país.

sábado, 18 de junho de 2011

Raiva





Eu passei por ela, estava falando com outra mulher, cumprimentei-as. Ela me olhou e, depois de uns segundos, respondeu. Acho que respondeu, eu não a ouvi, e ela virou a cabeça tão rápido, continuando seu discurso com a outra, que recebi desdém no lugar do cumprimento. Ela deve continuar com raiva, porque imagina que fiz a queixa contra ela, que alimenta os dois gatos que entram no nosso edifício... Eu, realmente não o fiz, embora não ache certo que ela alimente os dois gatos da rua... Mas, um dia, disse-lhe que tinha colocado umas pedras no canteiro de flores para que os gatos parassem de se deitar lá, pois as flores ficavam amassadas e não cresciam... Ela achou que eu não gostava de gato.... Que pena, perdi a lotação!... Lá vem outra, que bom!.... Nossa, que molharia, uff, quase escorreguei... Esta chuva não está com cara de parar... Me incomoda ela não querer me cumprimentar, tenho que admitir, porque não fiz nada pra ela, nem pros gatos... Quanta raiva ela deve ter para querer negar um cumprimento.... Ainda bem que o ar condicionado não está ligado... Este motorista é tranquilo, não corre demais, num dia como esse.... Acho melhor ir me arrumando, a parada está próxima... Vou esperar um pouco, aquele senhor vai descer antes... Posso parar na esquina lá embaixo? Obrigada.... Nossa, que engarrafamento, não adianta buzinar, que gente estressada, como se adiantasse... Melhor atravessar deste lado... A sinaleira fechou, vou.... Como é mesmo o nome da loja? Por que não anotei... Loja de aviamentos.... Loja de aviamentos.... Loja de tecidos de malha.... Loja de tecidos... Ah, no outro lado.... Centro de Decorações... Foi bem fácil, mesmo.... Será que compro tecido só  para o forro?... O preço está bom, vou comprar também para a cortina... Que bom, essa compra nem demorou... A sacola ficou pesada e, ainda a sombrinha... Duas quadras de subida até a lotação... Estou suando, apesar do frio e da chuva... Falta pouco... Aquela mulher caminha como minha vizinha... Se eu a enxergar de novo, vou virar a cara.... Quem ela pensa que é... Tudo por causa de dois gatos... Vou chegar em casa antes do meio-dia, que bom... Que saco, não consigo desgrudar da vizinha... Ela não tem o que fazer, por isso fica dando comida para os gatos... Tomara que os gatos risquem o carro dela e não o da outra vizinha que reclamou... Bah, tenho que caminhar mais três quadras, estou cansada... Tomara que não a enxergue... Que raiva... Que sorte, o sinal está aberto para os pedestres... Falta pouco... Não encontro a chave, essa bolsa grande... Até que enfim, a sacola pesa demais... Não acredito, ela está saindo... Ela me abre o portão e espera que eu passe... Obrigada!

sábado, 28 de maio de 2011

Pássaro escolhendo voos


Vejo adolescentes que imagino com quatorze ou quinze anos e lembro de meu  neto, o primeiro. Reconheço-o em tudo o que de bom há neles e rejeito as malcriações que eventualmente façam. Sei que o idealizo e não quero deixar de fazê-lo, é o meu amor que fala mais alto. Rio da parcialidade desnecessária com que o retrato, porque nada nele me faria amá-lo menos.
Não esqueci que já fui adolescente. Tive meus segredos e minhas transgressões, ele também  deve tê-los, são os voos necessários e os terá numerosos, uns fáceis, outros difíceis.  Foi leitor incansável, hoje está em fase de certo distanciamento, tenho certeza de que se reconciliará com a literatura. A escola, que ele diz ser cansativa, lhe é fácil. Na certa, tem limitações e conflitos – já fui testemunha de um ou outro -, por isso, torço para que as dificuldades enfrentadas o fortaleçam e possam ser superadas com o menor custo.  Sempre há um preço para crescer e se tornar adulto.
Sinto-me sua cúmplice, quando, aos domingos, com seu jeito que não é mais de um menino e já me ultrapassou na altura, vem perguntar se não há um salgadinho enquanto espera o almoço ficar pronto. Às vezes, esqueço de suprir o canto do armário que ele conhece e encontra vazio. Desculpo-me e vou  rapidamente cortar um pedaço de queijo que ele gosta. Mas, ele diz logo: Tudo bem, vó! Mesma resposta que me dava quando íamos ao supermercado, no final de semana, aos seus  cinco ou seis anos e nosso acordo era de que ele poderia comprar apenas uma “porcaria” que todos gostavam,  salgadinho ou doce.
Quando vem dormir aqui em casa – agora, mais espaçadamente do que quando pequeno –,   e esquece os chinelos, vou em busca de um par deixado por seu tio que se mudou para outra cidade e cujo quarto continua intacto, com coisas deixadas para trás, como fazem os filhos quando se vão. Agora ele o ocupa, mantendo-se a corrente de outras crianças que nascem, crescem e povoam esta casa. Bendito ciclo da vida.
Há também alguns momentos de resmungos meus, quando ele não atende aos vários chamados para jantar, porque absorto no computador. Ou, quando não quer comer a fruta que insisto em oferecer. Ou, ainda, quando lhe digo para colocar um casaco, pois está frio,  e ele responde com um: Pô, parece minha mãe! Raras ocasiões de tensão.
Ele vem e traz poesia para o meu envelhecimento. Ele nem imagina quanto lhe agradeço por todas as horas que gastei ao longo de sua existência, aos sábados, quando vinha “me fazer companhia”, trocando fraldas, banho, mamadeira, remedinhos, algum choro noturno  pedindo pelo papai ou pela mamãe, conversas  com carinho e apaziguamento. Tudo foi ficando aos poucos para trás, agora é o corte de cabelo e o cuidado com as espinhas que partilho com ele.
Sempre tive presente que chegaria o momento em que os amigos seriam mais importantes. Este tempo chegou e quase não dorme aqui em casa aos sábados. Vem almoçar aos domingos junto com os pais e irmãzinha. Chegará um tempo em que também aos domingos não o verei. Estará tudo bem.
Quero-lhe um futuro onde os tropeços sirvam para torná-lo melhor e os sucessos sejam sempre acompanhados de afeto. Para o tempo vindouro, incluo a esperança de que a casa da avó seja a lembrança a ser partilhada com os próprios filhos, como um lugar onde sempre chegou sem reservas e com a confiança de ter recebido amor incondicional.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Instantes únicos


Ele é um bebê que nasceu numa noite de muitos nascimentos, como em outras noites longínquas dos meus próprios filhos e outras mais recentes, de meus outros netos. Eu e os outros avós ficamos no hospital para vê-lo logo, nos seus primeiros momentos fora da proteção materna. Ali, o tempo  reduziu-se àquela espera, e o espaço  concentrou-se naquela sala como se fosse o instante inicial que antecedeu a formação do universo, nada mais interessava fora daquilo.
Quando ele apareceu na pequena sala envidraçada, no berço padronizado e com seu pai ao lado, tudo em volta sumiu e a luz se mostrou focada apenas neles, sem sons, somente gestos mediados pela parede de vidro que nos separava e, ao mesmo tempo, nos permitia a comunicação dos olhares, sorrisos e mímicas. A grande comunicação, naquele transcurso, foi a do coração que se expandia  para fazer-nos únicos e ligados num só bater acelerado.
O bebê nu e com apenas um pedacinho do cordão umbilical, já destacado do ninho em que foi gerado, o pai ao lado, curvado sobre ele, com roupa verde claro, própria para ambientes assépticos de hospital, a acariciá-lo e a falar-lhe ternamente, num retrato amoroso da acolhida do seu primeiro filho. O pai começando a partilhar a tarefa que tinha cabido à mãe nos nove meses precedentes, ou, como se diz agora, quarenta semanas.
A roda da vida tinha dado a primeira grande volta, ele tinha começado o seu caminho aqui fora. Responsabilidades redobradas de seus pais, possibilidades lançadas para formar a si mesmo no tempo por vir.
Ele nasceu e eu esqueci todas as notícias que acenam para um mundo hostil. Neste esquecimento, eu também renasci  junto à renovação do desejo de continuar a fazer qualquer coisa para que o mundo seja melhor para ele e para todas as crianças que nasceram no mesmo instante que ele, antes dele e que continuam nascendo.
A diferença neste nascimento é que ele é sempre único, como o é cada manifestação da vida. Vida que seria diferente em todo o planeta, se o nascimento de cada criança estivesse presente nas decisões dos adultos, em casa e nos diferentes espaços de poder.


terça-feira, 12 de abril de 2011

De novo, refém

             Como não sentir-se refém ao ler e ouvir os jornais e telejornais?

            Golpeou-me fundo como a todos os que tomaram conhecimento do horror que foi a morte dos adolescentes e do rapaz que os matou numa escola do Rio de Janeiro.  Sequer dá tempo de pensar sobre as pequenas tragédias cotidianas que circulam por perto. Ainda no rescaldo deste espectro, outro semelhante realiza-se num país europeu. Pensamentos  dissonantes de  dor, impotência e desesperança se cruzam e entrelaçam com argumentos frágeis e desejos de retorno da esperança de uma sociedade que mostre estar evoluindo, buscando um jeito diferente e mais amoroso de se relacionar.

            Sem trégua, o rádio noticia de manhã cedo que a tragédia de Fukushima ainda não acabou, acena para o pior já conhecido há vinte e cinco anos.  Como se fosse em outro mundo,  em diferentes pontos da África, facções diversas matam-se em nome da democracia. Outras nações, agora, apoiam os inimigos daqueles que foram seus amigos até há pouco. Invocam-se para isso a necessidade de restabelecer a lei, proteger civis, não interesses econômicos e os poços de petróleo dos quais o ocidente precisa e todos sabem. Como mantra nega-se repetidamente o óbvio.

            Por aqui, denuncia-se corrupção nas obras aceleradas com vistas à Copa 2014. No ano passado havia-se evitado a ação governamental que premiava a sanha da construção civil no Morro de Santa Teresa, mas não há como alegrar-se. Ainda é pouco em vista do que pode ocorrer com o solo urbano.

            Sobra-me o aceno de um reconhecido escritor norte-americano para quem não são só os estados, mas também as sociedades ditam novas narrativas no mundo contemporaneo. Para ele as populações também exercem a diplomacia através da sua cultura e poder de persuasão. Espero que ele tenha razão, para que as crianças de hoje tenham outros desafios a superar e não se sintam reféns dos erros das gerações adultas que construiram o mundo em que nasceram.

            No entanto, não vejo este caminho ser desenhado sem a intensificação de relações solidárias e a busca de formas coletivas de conviver e viver nas numerosas capilaridades sociais. O problema do outro é também meu. Isto pode ser feito agora.

domingo, 20 de março de 2011

Refém



Em homenagem ao dia da mulher, uma palestrante afirmou que Frida Khalo não foi refém de coisa alguma, nem do seu corpo maltratado e fonte de dor a maior parte de sua vida. 
Certo, ela rompeu padrões, chocou a sociedade, criou com suas pinturas uma estética singular. Foi a própria diferença, numa época em que a mulher fazia os primeiros movimentos coletivos para ser reconhecida em igualdade de condições no mundo de supremacia masculina. Foi transgressora e criativa. Fez de seu atribulado cotidiano uma inesgotável fonte de inspiração.

Frida Khalo e outras tantas mulheres e homens, são testemunho de recusa ao já dado e estabelecido. Mas, nem ela  conseguiu fugir do sofrimento e da exclusão, da impossibilidade de convivência compreensiva e respeitosa com setores da sociedade americana e mexicana da época. Valem, no entanto, suas formas de agir e de criar a partir do seu sofrimento. Ali, realmente, não foi refém, prevaleceu sua vontade de se ultrapassar e vencer seus limites.

Bela síntese do poder individual mas não individualista, porque ela sempre se colocou junto à história de seu povo. Suas raízes fizeram-na voar. Ela viveu o presente com seus antepassados. Ela projetou a memória na arte que multiplicou em sua figura transcendente à dor e à morte. O que ela fez foi recusar as amarras das urgências cotidianas.

Como se inspirar nesse exemplo? No rumoroso e condicionante cotidiano em que se vive, o que significa não ser refém? A singularidade da criação artística não é moeda corrente , embora a fruição das produções de numerosos artistas e a proliferação de escolas e oficinas de criação nas diferentes artes seja uma realidade da contemporaneidade.

Criação artística e subjetividade transgressora mostrou-se um binário  pertinente. Mas parece reduzido, hoje, o espaço e tempo propícios para manifestações heróicas, estas foram se esvaziando ao longo das últimas décadas. A arte, também, foi contaminada por esse viver na transitoriedade, na provisoriedade, na precariedade das relações humanas. No entanto, ela renasce nesses formatos e se perpetua.

E nós, seres humanos, como afirmarmos nossa capacidade criativa para além das miríades de formas de subjetivação que nos querem reféns no grande centro comercial que se transformou o mundo? Como criar no mundo que nos convida a consumir, inclusive nossa memória? Memória que nos enraiza e nos permite avançar, sabendo e produzindo quem somos como sujeitos e como coletividade?

Como Frida, é preciso não temer ser quem somos. A vida é feita de diferenças e de trocas. Não é preciso ser ela, mas ter sua coragem para não sermos reféns das mesmices cegas e uniformizantes da sociedade contemporânea com máscaras de diferenças.

terça-feira, 1 de março de 2011

Professor invisível


       Em março de 2010, um jornal da cidade escreveu que, nos dois últimos anos, a escola particular de Ensino Fundamental no nosso estado havia recuperado alunos e retornou ao patamar de 2006.
O texto destacava o fenômeno de migração da classe C para a escola particular almejada desde há muito tempo, bem como a nova lei de filantropia que exigia para as escolas filantrópicas a oferta de ações sociais e “bolsas de estudo para alunos pobres”.
Quanto à reação das próprias escolas, foram elencadas medidas por elas tomadas para enfrentar a situação, porque entenderam que era preciso “reformular para sobreviver”, que se traduzia em “trabalhar na oferta de novos serviços como forma de tornar seus estabelecimentos mais atrativos”.
Dentre as medidas elencadas estavam: marketing, criação de estacionamento, laboratórios modernizados, inserção de recursos tecnológicos em sala de aula, sistema de segurança, horário integral para as crianças e a possibilidade de permanecerem além do período de aulas, atendendo às necessidade do horário de trabalho dos pais.
Por outro lado, enquanto uma  titular da Secretaria de Educação do Estado pronunciava-se com um profundo desdém pelos professores, culpabilizando-os pelos males existentes, as escolas particulares sequer mencionavam o professor quando afirmavam melhorar a escola. Ele era um ser invisível. Situação muito diversa da minha geração em que um(a) professor(a) solicitado(a) a dizer sua profissão, era com orgulho que respondia: “Professor do Estado”, pois o cargo exigia boa formação, concurso e o seu desempenho era valorizado e reconhecido.
Como fazer, então, com que as crianças e jovens de hoje, bem como seus pais voltem a admirar e a respeitar o seu professor? O respeito é consequência do reconhecimento do outro e as escolas não apontaram para novas medidas didático-pedagógicas, para uma reformulação ou para um projeto pedagógico inovador, sequer para uma proposta para qualificar seu corpo docente ou incentivo para tal.
Percebe-se ali a raiz do esvaziamento das licenciaturas.
Hoje, parece que a situaçao é ainda pior, ele é refém da “clientela” que atende e só alcança visibilidade na página policial, quando é agredido de diferentes formas e, até, assassinado por motivos fúteis.
Uma outra forma de funcionamento da escola não se dá de um dia para o outro. Mas vale lembrar que, em alguns países europeus, são os melhores alunos os aceitos para serem professores, passando por seleção adequada, em escolas com recursos e altos salários.
Para as escolas particulares, esperemos que consigam marcar seu lugar para além da reprodução da sociedade competitiva em que estão inseridas.
Para as escolas públicas, que a existência de uma realidade onde o professor consegue ser visível e valorizado seja o horizonte do novo governo do nosso estado e que a visita do atual secretário de educação às escolas da rede se transforme em ações concretas e urgentes que apontem qual o caminho que será seguido nos próximos anos.

A visibilidade do professor deve dar-se na recuperaçao da paixão de ensinar e aprender.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Argola na janela


Tu vais embora à tardinha e eu vou pondo no lugar o que tiraste para fazer tua cabana e outras brincadeiras imaginadas por tua cabecinha.  Sigo os vestígios de tuas andanças pelo apartamento, alguns eu deixo para prolongar tua permanência comigo.
Tua cabecinha é uma máquina de brinquedos que não pára. A gente se distrai uns segundos e tu apareces com a sacola dos prendedores de roupa, o banquinho para sentares à mesinha, um jogo da caixa que é só tua e que abres todos os fins de semana. Abres e fechas portas de armários. Já não pedes, porque sabes o lugar daquilo que te interessa. Vais buscar. Amo esta desenvoltura de quem sabe que a casa também é sua.
Tu te vais quando finda o dia, mas continuas aqui nos sinais de tuas criações de menina e no encanto que me proporcionam e me mantém ligada à vida que está em ti.
Tu te vais e eu vou descansar, porque teu ritmo está diametralmente oposto ao meu. Fico pensando que essas diferenças se acentuam inexoravelmente dia a dia. Consola-me que são vagarosas e dão algum tempo.
Tu te vais e eu fico pensando no que tu estarias pensando nas tuas invenções. E são sempre variadas. E sempre surgem outras.
Tu te foste e, desta vez, deixaste as pulseiras que enfeitaram teus braços, tornozelos e pernas, enquanto vias um desenho na televisão e nos intervalos de outros brinquedos.  Com elas montaste um só círculo, segurando a ponta dos puxadores das cortinas da sala. Janela aberta e o vento a balançar tua criação. Fiquei curiosa sobre o que pensaste ao fazê-lo. Já nao estás para te perguntar.
Sempre essa palavra “pensar”. Como será o pensamento de alguém com menos de cinco anos? Talvez, já nem lembres mais do que fizeste. Tirei uma foto, memória de instantes felizes de minha vida contigo, mais do que memória de um teu brinquedo.
Quando voltares, no próximo domingo, vou te mostrar. Pressinto que uma semana é um tempo longo para ti. Tantas coisas te acontecem e incorporas! Eu já ando mais devagar e a rapidez me incomoda. Estou curiosa para ver como se falarão a minha e a tua memória...