Do quarto são ouvidos os bem-te-vis, latidos de cachorro, o carro que passa pela rua, o objeto que cai no vizinho de cima, redondo, porque emite o som da circularidade, a vassoura do zelador a raspar o pátio do edifício ao lado, vozes difusas de algum lugar próximo. Da sala, no outro lado do apartamento, ouvem-se martelos e outras ferramentas que demolem as coberturas para carros do estacionamento próximo, gritos de crianças e música estridente.. Em noites de temporal, o gemido das janelas se pronuncia com intervalos que medem a fúria do vento, e os juncos uivam ao vergar-se sobre a casa no fundo do quintal à esquerda do edifício. Durante a semana, o ronco dos caminhões antecede o barulho das caçambas ao vomitar a areia no depósito do outro lado da rua, quase na esquina. De vez em quando, uma voz de barítono invade o ar e faz os ruídos se encolherem. São todos sons que fazem imaginar uma imensa e incontrolável orquestra, com os componentes a disputar a cena, substitutos à espera de uma chance, movendo-se num ilimitado anfiteatro, espaços fragmentados e mal delineados, sob a batuta de um maestro enlouquecido cuja partitura são as enfurecidas exigências dos agrupamentos urbanos. A regência luta para alcançar um efeito agradável, mas os sons teimam na sua individualidade. Às vezes, desencontrados, outras vezes, agrupados à força, entretanto, todos partilhando obrigatoriamente de uma mesma cena sem tempo para começar ou terminar. As dissonâncias prevalecem na indiferença com que cada um toca a sua parte. O som do outro é ignorado, a batuta que se agita não é vista, e um a um vai produzindo o que vai ao encontro de ouvidos saturados. Cada artista, de uma mesma troupe, fechando-se num autismo depredador. Intervalos de harmonia são marcados pela suspensão do isolamento, e momentos mágicos se produzem, quando um consegue completar os acordes do outro. Aí, justamente aí, dá-se a revelação da impossibilidade de cada um existir sem a presença do outro. São ápices da música, mas costumam ser brevíssimos, porque novamente todos voltam ao seu instrumento e à produção de seu som, na miopia e surdez das urgências cotidianas. Assim, a música desencontrada continua pelo espaço afora, num tempo infinito, com seus altos, baixos e sustenidos, entrando por todas as janelas e confirmando a solidão de cada um na proximidade dos outros.
A palavra continua sendo um caminho poderoso para estar no mundo. Ela tem sido de ajuda para resistir a tudo o que tem acontecido no entorno mais próximo e mais longínquo. Companheira sempre à disposição, embora nem sempre eu consiga aceitar seu convite para usá-la. Às vezes, ela me ajuda a seguir em frente. Sempre me coloca em contato com o outro. Isto é um privilégio. Compartilho-a com quem desejar me honrar com sua leitura.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Os sons da solidão
Do quarto são ouvidos os bem-te-vis, latidos de cachorro, o carro que passa pela rua, o objeto que cai no vizinho de cima, redondo, porque emite o som da circularidade, a vassoura do zelador a raspar o pátio do edifício ao lado, vozes difusas de algum lugar próximo. Da sala, no outro lado do apartamento, ouvem-se martelos e outras ferramentas que demolem as coberturas para carros do estacionamento próximo, gritos de crianças e música estridente.. Em noites de temporal, o gemido das janelas se pronuncia com intervalos que medem a fúria do vento, e os juncos uivam ao vergar-se sobre a casa no fundo do quintal à esquerda do edifício. Durante a semana, o ronco dos caminhões antecede o barulho das caçambas ao vomitar a areia no depósito do outro lado da rua, quase na esquina. De vez em quando, uma voz de barítono invade o ar e faz os ruídos se encolherem. São todos sons que fazem imaginar uma imensa e incontrolável orquestra, com os componentes a disputar a cena, substitutos à espera de uma chance, movendo-se num ilimitado anfiteatro, espaços fragmentados e mal delineados, sob a batuta de um maestro enlouquecido cuja partitura são as enfurecidas exigências dos agrupamentos urbanos. A regência luta para alcançar um efeito agradável, mas os sons teimam na sua individualidade. Às vezes, desencontrados, outras vezes, agrupados à força, entretanto, todos partilhando obrigatoriamente de uma mesma cena sem tempo para começar ou terminar. As dissonâncias prevalecem na indiferença com que cada um toca a sua parte. O som do outro é ignorado, a batuta que se agita não é vista, e um a um vai produzindo o que vai ao encontro de ouvidos saturados. Cada artista, de uma mesma troupe, fechando-se num autismo depredador. Intervalos de harmonia são marcados pela suspensão do isolamento, e momentos mágicos se produzem, quando um consegue completar os acordes do outro. Aí, justamente aí, dá-se a revelação da impossibilidade de cada um existir sem a presença do outro. São ápices da música, mas costumam ser brevíssimos, porque novamente todos voltam ao seu instrumento e à produção de seu som, na miopia e surdez das urgências cotidianas. Assim, a música desencontrada continua pelo espaço afora, num tempo infinito, com seus altos, baixos e sustenidos, entrando por todas as janelas e confirmando a solidão de cada um na proximidade dos outros.
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Oi Rosa!!!
ResponderExcluirQuerida amiga, que lindo esse texto!! parabéns pelo blog, uma bela iniciativa e um compromisso com todas as letras compostas vivamente para expressar o que te vai na alma...
Escreve e nos surpreenda a cada vírgula....
Beijos mil
Verinha Renner
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ResponderExcluirAlô Mirosa. Teu blogue vale a pena. Os textos são bem compostos, claros, elegantes, atuais. As ilustrações são muito boas. Obrigado.
ResponderExcluirAmada amiga...tuas letras te revelam um pouquinho mais pra nós, a quem tu te dá aos poucos!
ResponderExcluirAdoro nossa amizade, pois te considero um ser especial, que busca a luz e dela faz seu ponto de equilibrio. Tua descrição no blog está perfeita...curiosa pela vida!
Mil bjks, Ivone