Um sábado de inverno, úmido e frio. As pessoas iam chegando aos poucos e se aproximando umas das outras Os cumprimentos, os abraços e os sorrisos mostravam um prévio conhecimento de si. A familiaridade com o lugar emergia da liberdade dos gestos e da desenvoltura dos movimentos. Batidas nas costas, sorrisos, beijos e abraços comedidos, no padrão de solenidade. O ponto de encontro era a calçada de uma das ruas mais badaladas da noite da cidade. Os bares estavam fechados àquela hora e o espaço à sua frente, livre para a manifestação. Autoridades da governança municipal tomavam posto para o evento. Folderes da secretaria do meio-ambiente circulavam com a apresentação de suas atividades. Pequenos grupos conversavam tranqüilos à espera dos previsíveis discursos. Não fosse o lugar, pensar-se-ia que as mulheres tinham se arrumado para uma festa: maquiagem, cabelo tratado e penteado, roupas de griffe. Homens com camisa e paletó. Pensando melhor, vestimenta corriqueira, para quem está acostumado a ter em excesso e nem se dá conta disso. Entre eles, sem saber de onde, apareceu um menino de uns oito ou nove anos, o bracinho coberto de panos de prato como um garçom. Com algumas palavras oferecia-os, abordando um e outro, em vão. A alvura do tecido contrastava com o tom cinza do ar, carente de sol, com os tons escuros das roupas de inverno dos que ali estavam e com o marrom das umedecidas pedras do chão Ele foi ignorado mesmo nos instantes em que sua oferta conseguia captar o olhar desfocado dos que interrompiam a conversa. Invisível naquele espaço em que as pessoas estavam reunidas para algo muito importante. Todos ali foram convidados a celebrar o tombamento de túneis verdes do bairro. Estavam felizes por testemunhar a vitória da comunidade na preservação de espaços que preservariam um modo de ser e de viver. Aquela gente conseguira do poder público o reconhecimento de sua vontade. O próprio prefeito e o presidente da câmara de vereadores estavam ali para congregar-se no local e para festejar em solidariedade. Era uma vitória memorável. Respeito a um direito da população, era o que todo cidadão consciente defendia. E, ali, isso estava sendo comemorado. Apenas a indiferença a qualquer outro interesse parecia deixar espaço. Nada visível perturbava o sacrossanto espírito daquele congraçamento. O menino circulou, sem incomodar ninguém, porque ninguém o escutou. Um toque no braço de alguém e o olhar pedinte de seus olhinho mal provocaram uma rápida negativa com a cabeça. As conversas continuaram. Alguns sequer se aperceberam de sua presença, ou fingiram não perceber. Constrangimento, talvez? Ele passou como brisa que não muda a temperatura do lugar. Ele não estava ali para comemorar, o que fazia marcava a distância entre o viver de uns e o seu sobreviver. Para ele, pessoas eram a possibilidade de vender algum dos panos que carregava. Elas, as pessoas conscientes, se compraziam com o que haviam conseguido. Nos panos, estampas de flores, frutas e cumprimentos para cada dia da semana, desenhavam um outro mundo. As flores dos panos nada tinham a ver com as flores das árvores dos túneis preservados. Árvores que protegiam do sol de verão, que ofereciam cores diversas de acordo com a estação do ano. O violeta, o branco, o amarelo, dos panos não lembravam as flores que tinham pintado aquelas árvores até o outono recente. Mundos tão diversos na igualdade das cores! Menino e grupo, livres para caminhar na mesma calçada, sob as mesmas árvores, mas presos a mundos tão distintos. Quais seriam os sonhos de um menino que vende panos de prato? Menino e grupo, diferenças que poderiam se entrelaçar num inexistente gesto solidário. Grupo feliz a festejar a nobre conquista do bairro e a vitória da preservação da natureza. O menino viu no grupo uma possibilidade de vender sua mercadoria. Qual miragem no deserto, o menino não conseguiu alcançá-lo, só ele enxergou as pessoas que foram desaparecendo em pouco tempo, finda a cerimônia. Sobrou-lhe a continuidade de seu caminhar no deserto úmido.

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