segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Oráculo para Sakineh



Não és a única injustiçada, monstruosamente injustiçada, mas és a que representa a todos os injustiçados. Tua fotografia é levada por tantos lugares, desenhando ondas imaginárias de lágrimas reais derramadas por olhos escondidos pelo medo e pela impotência. Não se pode deixar perder tua existência na desesperança, é preciso buscar o oráculo, aquele que as letras de teu nome encerram.

Sim, as letras sempre encerram um sentido, um clamor, um hino. São as mesmas para todos os nomes, mas as combinações são equações únicas. Essas combinações são a marca de cada um.

Teu nome começa com S e no dicionário analógico encontra-se o primeiro vocábulo S.O.S., indicação de perigo, de alarma, de sirene. As chibatadas que levaste gritaram um pedido de socorro que girou o mundo muitas vezes. O perigo continua, teus algozes bufam, porque obrigados a recuar, iam te apedrejar e não puderam fazê-lo. Muitas vozes se uniram e mantem o grito. Grito que suspende a mão que te quer tirar a vida. Indignação que exacerba o algoz. Não se sabe o tamanho da insanidade. É preciso continuar a gritar e inventar novos gritos em corrente contínua, sem cochilos.

A indignação que conquista novas vozes, está próxima de ti, com certeza a sentes de alguma forma, porque teu nome encerra tantos outros significados e predições.

O A que segue o S nos dá a coisa acrescentada, o adjunto, o agregado, o cortejo. São as assinaturas, os e-mails, os telefonemas, as vozes cúmplices, as súplicas e exigências em longas filas a açodar a besta.

Dúvidas e esperanças, combustível para continuar.

O S colado ao A nos dá a primeira sílaba de saber, o saber do mundo que não te quer mártir, te quer viva, justiça materializada a iluminar o caminho dos outros que ainda não a alcançaram.

K de kidush traz o rito, que poderia ser o da redenção pelo respeito à vida. No entanto segue-lhe o I de iadogã a encerrar o poder espiritual do clero que, naquele país onde vives, no momento é ameaça.

 Vem a seguir o N de N.B., atenção e assentimento para uma boa notícia, é o desejo  que vem com o anúncio da primavera. Colado vem o E, uma conjunção, de adição à última letra H, esta de habanera, música, linguagem dos sons que se fazem ouvir em teu favor, arte em defesa da vida que propõe um habeas corpus  invocando o imperativo, a afirmação da urgência de te deixarem ir.

Fecha-se a composição das letras. Elas desenharam uma transcendência que não depende da decisão dos homens. Eles subjugam apenas o teu corpo. Aconteça o que acontecer tua trilha não pode ser apagada.
 Escrito em 02\09\2010

3 comentários:

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  2. Oi Rosa,
    Que bom que estás produzindo textos primorosos e insitgadores como esse.
    Adorei e que bela imagem!
    verinha renner

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  3. Querida Mirosa,
    adorei teus textos!
    Bj no coração
    ana isaura

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