quinta-feira, 7 de maio de 2020

Cuidem das crianças


As palavras de Fernanda Montenegro ditas alguns anos atrás teimam em surgir cada vez mais seguido. O triste de envelhecer é ir perdendo um a um os amigos e, com eles, as memórias, disse mais ou menos assim numa entrevista.
Além de perder os amigos, vão-se perdendo também pessoas que foram marcos na história do país. A proximidade com muitas delas não pertence ao círculo de amizade, mas a uma dimensão igualmente importante e fundamental na construção da identidade de uma geração. São símbolos luminosos de épocas importantes da história. Épocas de sofrimentos e de esperanças. E elas traduziram esses tempos com suas próprias criações. E os marcaram com músicas, com filmes, com peças de teatro. E foram se incorporando à superação de períodos dolorosos e à conquista de um pedaço de caminho em direção à realização de esperanças.
De repente, em poucos anos, perdemos esse pedaço de caminho, entramos num túnel que nos tritura e não vemos luz à frente. Caminhamos quase sem fôlego. Então, para tornar essa caminhada ainda mais difícil, sabemos da morte de uma dessas referências do passado. A lista está ficando longa e pesada.
Nos últimos dias, perdemos Aldir Blanc. Morreu pelo covid19, poderia não ter morrido, nem chegara aos oitenta anos. Hoje, é possível viver muito mais. Ele escreveu uma das canções mais importantes a marcar a história do país: O bêbado e o Equilibrista. Ele é um ícone da resistência do povo brasileiro à brutalidade e à injustiça.
Há tempos recolhido, Flávio Migliaccio também se foi. Artista inesquecível, também representou uma época de luta por um país melhor. Sua atuação encantou muita gente. Ele resolveu sair de cena por vontade própria. Não suportou os rumos do país. O sofrimento o venceu, acreditou que não valeu a pena ter vivido para ver o que está acontecendo no país.
Dois exemplos perdidos, dentre os muitos da mesma geração, que outros estão  testemunhando. Envelhecer é também isto. Ser testemunha.
Um jovem pede desculpas num vídeo, porque a geração dele também fracassou como aquela de Lima Duarte e Flávio Migliaccio. Diante de tudo o que aconteceu no passado e, mesmo assim, muitos não aprenderam nada. Considera que está em nós a realização do fracasso, apesar de tanta gente ter lutado por um mundo melhor. Está em nós o bem e o mal. E deixamos que o mal fosse mais forte. Ele não citou, mas existem muitas narrativas que o respaldam.
Então lembro as palavras de um grande escritor: Mia Couto. Perguntado sobre as previsões de um mundo mais solidário após esta pandemia, ele não se mostrou esperançoso. Em síntese expressou o temor de que, se as condições existentes de embrutecimento do ser humano continuarem, não poderão ocorrer mudanças. É necessário mudar nosso modo de vida, caso contrário produziremos subjetividades que seguirão no mesmo caminho, sem aprender com o que está acontecendo. Em alguns lugares, talvez saiamos ainda piores, há quem preveja com pesar.
Por onde começar? Volto às palavras de Migliaccio na sua carta de despedida: cuidem das crianças. Quem cuidará das crianças? Quem puder, faça-o mais e melhor do que já o fez.


domingo, 3 de maio de 2020

Inaceitável é a injustiça (Na redoma 3)




Há um limite para suportar sentimentos dolorosos. Quando soa o alarme no sono agitado, no corpo que se recusa a obedecer, na sensação de impotência, volto-me para o que me ampara e ajuda a resistir ao que está posto.
Além das notícias ruins sobre as quais não tenho poder, cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas ou de espaços que não se podem fechar, porque necessários à sua própria sobrevivência. E sustentam a sobrevivência dos outros. E a minha. E fazem contraponto à intrusão da impotência, erguendo-se com a sua própria potência.
Uma vez por semana, recebo verduras e legumes orgânicos de assentamentos. Há amigos meus lá. Recebo cada sacola com gratidão. Sei quanto mais têm que trabalhar nas novas condições, mas não vejo desânimo no rosto curtido pelo sol, nem no olhar determinado que a máscara não oculta, nem nos gestos firmes. Guardo conversas anteriores, na feira que ocorria às quartas na esquina de casa. A consciência e o orgulho do que são e da importância do que fazem lhes dá uma força singular. Respeito, admiração amizade me unem a eles.
O celular também ajuda muito, apesar das contradições que seu uso produz. Angustia-me com as notícias, mas é o cabo que rompe parte do meu isolamento.
Ele traz a voz da neta maior com um assunto que emenda no outro, fazendo-me partícipe do tempo que ela também tem de viver diferente. Com suas palavras vem também afeto. Na tela vejo meus netos em situações corriqueiras que fazem toda a diferença no tempo atual. Recebo vídeos com macaquices, fotos e desenhos de um e de outro. Mando-lhes gravações de voz e em vídeos. Recebo opiniões do meu neto maior sobre meus textos do blog. Encanto-me com o que ele diz.
Através do whatsapp, encontro-me com amigos. Descubro uma nova poeta (para mim) com palavras entrelaçadas em ritmos suaves ou explosivos, dependendo do que quer lançar ao mundo. Recebo seu primeiro livro solo. Conheço as mãos criativas de uma artesã, encomendo-lhe uma boneca para a neta menor.  A Pascoa não precisou do supermercado. Uma mulher habilidosa ajudou-me a presentear os netos com chocolates saborosíssimos.
Meus filhos conseguem enfrentar a situação de maneiras diversas. Um deles providencia o que preciso do supermercado. Poupa-me saídas. Torço por eles.
Tenho o conforto de internet e contas bancárias (mesmo que reduzidas). Posso encomendar medicamentos e produtos, pagando on-line. Inclusive posso ajudar algumas pessoas, utilizando o teclado do computador. Meu risco de contágio é mínimo. Estão arriscando os muitos rapazes que transportam as mercadorias pelas ruas. E toda a rede de pessoas que ainda podem e devem trabalhar para produzir e fazer circular os produtos que chegam aos que respeitam a quarentena.
Não há como queixar-se. Pelo contrário, agradeço todos os dias o que tenho. Quando algum lamento teima em me mostrar o que estou perdendo, faço-a calar. Inaceitável é a injustiça de muitos não terem o mínimo para se proteger dessa pandemia.

domingo, 26 de abril de 2020

A pergunta de Levi (Na redoma2)




Ouvi o arquiteto Stefano Boeri afirmar em entrevista que procura viver o isolamento de forma a não sentir que perdeu tempo, quando este período terminar.
Continuo confinada e também não quero perder esse tempo. A guerra do coronavírus continua. À sua sombra ocorre outra, a da informação. Então, procuro lidar da melhor maneira com as horas às vezes pesadas e com o que me chega de fora.
Alcançam-me dados esparsos de diferentes noticiários, jornais, sites, a maioria independentes. As informações oficiais são postas em dúvida. O silêncio do atual Ministro da Saúde é ensurdecedor.
Recorro à literatura para fazer do meu tempo um terreno onde semeio. A redoma em que estou tem que ser uma estufa onde plantas frágeis se desenvolvem. Não uma gaiola onde pássaros sonoros deixam de cantar.
Leio e relembro. Primo Levi narra de uma maneira tremendamente dolorosa o que ocorria no campo de concentração. Um preso disputava qualquer coisa para comer. Às vezes, uma casca de batata, porque ela poderia significar ter mais algumas horas de vida. E a disputava com todas as suas forças. Naquele momento nada mais importava. Talvez fosse sua última chance de se salvar. O outro não existia, como não existia principalmente para o algoz.  Levi foi dos poucos sobreviventes, e sua terrível experiência o fez perguntar mais tarde: É isso um homem? Anos depois pagou um preço caro por ter continuado a viver, apesar de tudo.
            As narrativas do momento sobre a situação mundial dizem que estamos à beira de um colapso nunca experimentado, mesmo que alguns insanos o neguem. Somos atingidos por um vírus agressivo e grande parte da população encontra-se na miséria. Há quem tenha banalizado a morte anunciada dos mais frágeis: pobres, velhos e doentes. Seres humanos que poderão cair diante da indiferença de quem tem a obrigação de protegê-los. Numa lógica de guerra, há quem tenha se referido a eles como perda inevitável, para justificar a negação de isolamento social.
No nosso país, a situação é particularmente cruel e inacreditável. Somos governados por um grupo temerário. Parte dos apoiadores refletem suas ideias e ações. Alguns deles, tão ou mais cruéis e insanos, pedem de dentro de seus carros a abertura dos negócios. Outros vão às ruas sem proteção, repetindo a leviandade de seu líder. Este continua a dizer disparates criticados no mundo inteiro. O ministro da Economia não quer gastar demais. O ministro da Saúde, que tentava dar um rumo correto para lidar com o contágio que se está espalhando pelo país, foi demitido. O atual resolveu não mais falar à imprensa, mas já se declarou contrário à compra de muitos respiradores, porque perdem seu uso após a pandemia. A negação do perigo é seu mantra. Felizmente, existe desobediência em nível estadual e municipal.
De todo modo, continuam banalizando os campos de concentração existentes hoje. No país, são aqueles onde o Estado não está presente. São os bolsões de miséria que não têm infraestrutura sanitária, moradia adequada, trabalho, água potável, segurança. Mesmo que estejam próximos a espaços e gentes com todas as condições necessárias para se defender dignamente. Não são delimitados por cercas de arame farpado, nem por guardas armados, mas pelo abandono e pela inanição.
Por isso, a pergunta de Levi continua atual. Mas não deve ser feita para a população presa às condições em que vive, e no meio da qual podem explodir atos extremos. Ela tem que ser feita para aqueles que têm poder de interferir e mudar a realidade e não o fazem.
Responder àquela pergunta talvez possa ajudar a usar bem o tempo de isolamento. E a reagir às arbitrariedades inaceitáveis.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Papoulas e margaridas (na redoma 1)




Testemunho a história sob a redoma do meu confinamento. Ela é trespassada pelas notícias que chegam via web. Não é a mesma coisa que estar circulando pela cidade sob a direção dos meus interesses ou do acaso. Dizem que o acaso não existe, só se mostra se temos olhos e ouvidos para encontrá-lo. Talvez. De qualquer forma, ele oferece muitas vezes visões singulares do cotidiano que teimamos em consumir com pressa.
                Na ausência de contato com o mundo físico, o tempo muda o ritmo, as lembranças substituem o acaso e a música toma lugar cada vez mais no espaço reduzido do confinamento.
Hoje ouvi várias vezes a mesma, de De André: “Dormi sepolto in un campo di grano / Non è la rosa non è il tulipano”, A  imagem do soldado lembrado pelo cantor produz uma dor que atrai lembrança de tantos outros jovens mandados ao sacrifício numa Europa devastada. Sempre eles, na primeira leva. A juventude que teria toda a vida pela frente, mas alguém decide o contrário. O soldado imortalizado pelo cantor simboliza todos os jovens esquecidos e sepultados nos campos de batalha: “Che ti fan veglia dall'ombra dei fossi / Ma sono mille papaveri rossi”. A imagem das papoulas vermelhas das brincadeiras de infância é entristecida pela tragédia das mortes inúteis para as quais aquelas flores são o único sinal de companhia.
Eis que somos atingidos por outra guerra. Uma guerra identificada com outras em séculos anteriores. Relativizada e menosprezada, já sabíamos como enfrentá-la. O progresso no atual estágio, com sua potência na medicina e nas tecnologias, enfrentaria o novo vírus com rapidez e eficiência. Mas ele se fez mais veloz em desmontar as certezas existentes. A ciência teve que se curvar e admitir que não o conhece suficientemente. É um novo inimigo, há que se estudar, pesquisar, experimentar. Com o que existe não se consegue derrotá-lo.
A música continua e mimetiza o que o mundo vive agora. “Sparagli Piero, sparagli ora / E dopo un colpo sparagli ancora / Fino a che tu non lo vedrai exangue / Cadere in terra a coprire il suo sangue.” É preciso atingir o inimigo de hoje, quantas vezes for necessário, aniquilá-lo em cada corpo humano, isolá-lo para abatê-lo. Foram convocados os soldados. E eles responderam prontamente como nas outras guerras. Mas, seu fardamento é outro, não mais verde oliva, mas branco. Logo se viu que não existiam as armas apropriadas e necessárias. Logo, muitos foram abatidos nas trincheiras dos hospitais junto a seus pacientes. Como Piero, muitos caíram sem pensar que poderiam sucumbir e sem lamentar-se “Cadesti in terra senza un lamento”. E outros mais o serão. Outros soldados, os mais necessitados, colhidos nas suas fragilidades, sem defesas, serão outra presa fácil.
Logo se viu que esta guerra será longa. E não será igual para todos, embora atinja a todos. As reações dos governos dos países atingidos são diversas. Uns foram atacados primeiro, tardaram a se equipar, tiveram perdas maiores. Outros beiraram a loucura da negação do que estava acontecendo, mas renderam-se e mudaram o roteiro.
No Brasil, no entanto, o caminho é lamentavelmente inusitado. Temos um presidente inclassificável na sua teimosia em ignorar as leis, a ciência, as informações de todos os cantos do mundo; de fazer do seu mandato uma chacrinha de quintal com seus três filhos; de tratar os que dele divergem com crueldade perversa; e de arregimentar apoiadores na base de mentiras e parvoíces que fazem eco em parte de semelhantes espalhados pelo país. Não parece haver lucidez em algum ponto de sua equipe. O único colaborador, que ousou de algum modo encarar de modo profissional a pandemia no país, foi descartado. Sem surpresa.
Qual música será composta quando tudo isso terminar? Será um dos nossos grandes compositores ou um dos talentosos rappers de periferia a criá-la? Quais palavras lamentarão a estupidez desta guerra? Onde serão enterrados os seus mortos? Serão extensos os campos sem ninguém a lhe fazer vigília. De novo, serão as flores a testemunhar sua morte. Mas não serão papoulas. No nosso clima, talvez sejam margaridas. Brancas. Amarelas. Mas as dores serão iguais, apenas multiplicadas.







quinta-feira, 2 de abril de 2020

Novo caminho


Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo em todos os países. Não sei se sonhei ou se li. No redemoinho de notícias que me chegam, há momentos em que me confundo. Não sei se li ou se sonhei que era preciso parar a guerra na Síria. Os fugitivos dela estavam se espalhando desamparados. Haverá mais desamparo do que na guerra?
            Então me perguntei: E na Líbia? E no Iraque?  E em outros países já esquecidos?
            Então me perguntei: E nas periferias das grandes cidades?  E nos cárceres? E nas casas onde existe violência doméstica?
            Então me perguntei: E na periferia de minha cidade? E nos cárceres que existem ali? E nas casas de onde ouvem gritos de socorro?
            Então me perguntei: E nos meus pensamentos de intolerância?
            Ouvi um médico do norte da Itália dizer que estava acontecendo num dia o que usualmente acontecia em oito meses.
            Então me perguntei se já não havíamos sido avisados de alguma forma do que iria acontecer? Avisados aos poucos. Uma inundação onde nunca havia acontecido, geleiras do norte e do sul derretendo ano após ano, termômetros acusando temperaturas endoidecidas, retorno de pragas a devastar plantações, retorno de doenças erradicadas há anos, contaminação cada vez mais extensa de rios e mares. Tudo veiculado na globalizada rede de informações.
            Vozes de diferentes cantos se fazem ouvir há muito tempo. Cientistas, ONGS, instituições, vozes isoladas, e vozes reunidas aos milhares e aos milhões já se pronunciaram. E continuam a se pronunciar.
            Mas continuamos a consumir mais do que necessitamos para viver com conforto. Consumir, porque nos acostumamos a fazê-lo. E continuamos a suportar as guerras externas e internas. As guerras necessárias para a posse de mais e mais recursos para sustentar o consumo. E continuamos a contaminar e a depredar a natureza para nosso consumo. E continuamos a consumir como se o pudéssemos fazer indefinidamente, enclausurados numa surdez e numa cegueira autofágicas.
Às vezes, até concordamos que alguma coisa tem que mudar, que não podemos continuar assim. Momentos de lucidez colocados de lado a seguir.
Então, chega um vírus. Enfrentamos tantos, daríamos conta deste também. Foi o dito no início. Este, no entanto, driblou conjecturas e antecipações. Os cientistas aceleram  suas pesquisas, dezenas de artigos são publicados e dados revistos. Não temos remédio para ele. Testamos medicamentos conhecidos. Apostamos na vitória da ciência em pouco tempo.
Enquanto isso, milhares de idosos morrem sem piedade. Milhares de pessoas com alguma patologia também são ceifados. E o vírus não se satisfaz, chega aos mais jovens. Tudo acontecendo muito rápido, desafiando a capacidade de atendimento dos infectados, apesar dos esforços e do trabalho heroico de médicos, enfermeiros, trabalhadores e voluntários.
Faz-me pensar que a natureza cansou dos avisos que vem dando aos poucos há anos. Faz-me pensar numa terra que cansou de ser maltratada. Enxergo tudo como se a terra escrava se rebelasse, gritasse basta e atacasse quem sempre a violentou.
Enquanto acompanho o que está ocorrendo, procuro fazer a minha parte. Permaneço isolada e ajudo no que me é possível para o atendimento daqueles que estão em situação mais frágil do que a minha.
Enquanto isso,  espero que daqui a algum tempo, não sei quanto, se possa dizer que a rebeldia da terra valeu, que a melhor parte da humanidade se fortaleceu e foi vitoriosa. Com isso, não imagino que a humanidade chegou ao fim de uma caminhada, mas ao início de outra. Espero.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Não somos iguais


Há semanas que se sabia. Lia-se em diversos sites, mensagens de celular, conversas, análises apocalípticas. Estas últimas, talvez, nos tenham afastado da ideia, no início, de que ele realmente iria chegar até aqui. A tendência era descrer do excesso. Só os hipocondríacos ou os paranoicos é que deram importância para as antecipações. Outros ousaram se beneficiar com a dúvida. Ou, ao menos, as temperaturas daqui não o deixariam se procriar, diziam.
Uma manhã, soube-se que uma pessoa estava infectada a apenas dezenas de quilômetros. Muito próximo. Ele agia há milhares e milhares de quilômetros daqui. A tão enaltecida globalização o favoreceu. Além de agressivo, os humanos o tornaram veloz. Como eles, viajou fácil até aqui. Aliás, um humano o trouxe consigo. E continuará viajando. Com a diferença de que não sabemos quais traçados que ele escolherá.
Então, começaram as análises. Faça isso, Não faça aquilo. Limpe isso. Limpe aquilo. Use tal produto. Use o outro. Ele dura um dia. Ele dura dois dias. É uma gripe. Não é uma gripe. Os americanos o criaram. A China o criou. Tal remédio cura. Nada cura. Mata só os idosos. Mata os adultos. Criança é imune. Criança não é imune. Um espirro dá sinal dele. Um espirro é só alergia. Sem sintomas não contagia. Contagia sem sintomas. Tomas vitamina C + Z . Não adianta tomar. Gargareja água com sal. Não adianta gargarejar. Toma sol do meio-dia. Tomar sol a essa hora dá câncer. Faz exercícios regularmente. Não se faz sem personal. Ouve música. Só música dançante. Deixa um sapato na porta. Não adianta. Sai só pra levar o cachorro a passear. Não pode, o cachorro também vai se infectar. Bicho não se infecta. Os idosos devem ficar em casa. Eles precisam de ar ao aberto. As crianças devem ser isoladas. Elas também precisam de espaço aberto. Quem pode, trabalhe em casa. Quem não pode também não sai.
Quem é autônomo já foi dispensado. Quem acreditou no sonho do pequeno empreendedor, no negócio próprio, independente, dono de si mesmo, sem patrão,  terá que se virar.
Fecha escola. Fecha academia. Fecha salão de beleza. Fecham pequenos negócios.
Circulam os entregadores. O que transportarão além dos pedidos? Riscos?
Vai chegar o inverno. Vacinas da gripe foram antecipadas. Idosos podem ir para as redes de farmácias. Grandes regiões da cidade nem farmácias têm. Alguns Postos de Saúde foram fechados.
Dizem que vamos aprender com essa tragédia. O coronavírus atingirá a todos igualmente de uma ou de outra maneira. Vamos aprender os verdadeiros valores da vida, aprenderemos a ser solidários, a gastar menos, a valorizar a amizade e a própria família, a não desperdiçar, a sermos generosos, a nos vermos como iguais.
O covid19 atingirá a todos de uma ou outra maneira. Sim. Mas, não somos iguais. Haverá quem não entenderá sequer o que seja isolamento, porque seu espaço comporta muitas pessoas, jovens e velhos.  O transporte público nem chega lá, muito menos um táxi ou um carro de aplicativo. Não tem como estocar um alimento, nunca conseguiu. Água, luz, coleta de lixo, esgoto, um policial fazendo ronda, são coisas, vistas funcionando nas novelas da televisão.
Então, há quem nem tenha ouvido que ele chegaria. Ou, se ouviu, não acreditou. Ou se acreditou, seria uma gripezinha. Reforçado pelo desvario de um presidente que nega a ciência e qualquer ideia de racionalidade. Se a Justiça neste momento funcionasse como deveria, já o teria destituído. Não somos iguais.
Talvez, ainda pior, seja porque há quem tem acesso a toda informação e apoia o mandatário tresloucado. Todos eles deveriam ser mandados para seu líder, quando fossem atingidos, para que pudessem compartilhar ideias e consequências, num grande congraçamento particular, em isolamento, sem fazer os outros sofrerem. Porque eles também serão atingidos com certeza. Embora não sejamos iguais.
            Mas, infelizmente as coisas não funcionam assim. Eles serão socorridos por aqueles que acreditaram e se prepararam. E o custo será muito alto. E será maior para alguns do que para outros, porque não somos iguais.
           
Nota: Escrito antes do pronunciamento do ministro da Saúde contra a quarentena.

sábado, 14 de março de 2020

Botar o pé na porta



            Fui para o encontro com algumas expectativas: Mulheres artistas: questões atuais – Interseccionalidade. Não conhecia as palestrantes.
Os feminicídios continuam nas notícias diárias, acusando uma situação que nenhum progresso científico conseguiu mudar. É muito duro presenciar tudo isso, não apenas por ser mulher, mas por ser parte da humanidade, neste momento tremendamente insana e cruel.
Mulheres artistas, um chamamento duplo, porque associo mulher e artista a uma abertura maior à criatividade e às questões do mundo. Quando governos ditatoriais se instalam, a classe artística é uma das primeiras a serem reprimidas. As mulheres têm sido sempre reprimidas e em primeiro lugar.
Questões atuais, isto me anuncia encontrar fontes para alimentar as esperanças que ainda tenho. Sinto-me num liquidificador a cada vez que acesso as últimas notícias. Rodopio em giros de palavras grotescas e em ideias vergonhosas. Sofro num labirinto do qual não consigo sair. Busco brechas nos muros que incessantemente são levantados.
Por fim, Intersccionalidade, palavra que não circula desenvolta nas conversas diárias, mas sugere novas conexões. Principalmente novas. Misturo desejo e especulações sobre o tema enquanto aguardo as falas.
            Pouco a pouco  as três palestrantes me oferecem percursos de mulheres e rede de proteção, mulheres e sexualidade, mulheres e gênero, mulheres e escrita, mulheres e formação intelectual, mulheres e angústia, mulheres e submissão, mulheres e esperança, mulheres e protagonismo. Histórias de mulheres. Algumas das incontáveis que constroem a história. A expansão do espaço e tempo em que as mulheres se mostram, se afirmam, se dizem mulheres, se protegem. Lutam.
            Há, no entanto, uma bifurcação nas narrativas.
Duas mulheres falam de experiências fortes dentro de um mundo predominantemente de pele branca. Suas lutas e desafios soam conhecidos, ampliam histórias, criam empatia, mas não sacodem o já sabido.
As outras duas mulheres, que falam por último, no entanto, funcionam como um ímã para onde minha atenção se expande. Suas histórias têm a ver com o que foi dito pelas antecessoras, mas há nelas um tempo e um espaço que não se regem pelas mesmas medidas. Contam-nos de lutas por cotas nas universidades, por um lugar social ainda não conquistado, por um redobrado esforço por qualquer direito. Um poema, declamado com a emoção saindo de cada poro, uma poeta nos escancarou tantas coisas, mas resumo na frase: “Eu sou uma mulher negra vinte e quatro horas por dia”.
Estas mulheres, todas artistas, mostraram interseccionalidade entre as várias questões. Mas ser negra marca seu lugar primevo, mesmo que a escravidão tenha sido abolida há mais de cem anos. Sua origem marca-a antes de qualquer reivindicação.
As lutas destas mulheres, que é minha, precisa incorporar todas as lutas diferenciadas dentro delas. Há diferenças que exigem voz para se juntar a uma voz mais potente. As mulheres negras ali representadas escancararam que, para se fazer ouvir, têm que botar o pé na porta antes de tudo. Haverá um “botar o pé na porta antes de tudo” também para outras vozes.