terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Argola na janela


Tu vais embora à tardinha e eu vou pondo no lugar o que tiraste para fazer tua cabana e outras brincadeiras imaginadas por tua cabecinha.  Sigo os vestígios de tuas andanças pelo apartamento, alguns eu deixo para prolongar tua permanência comigo.
Tua cabecinha é uma máquina de brinquedos que não pára. A gente se distrai uns segundos e tu apareces com a sacola dos prendedores de roupa, o banquinho para sentares à mesinha, um jogo da caixa que é só tua e que abres todos os fins de semana. Abres e fechas portas de armários. Já não pedes, porque sabes o lugar daquilo que te interessa. Vais buscar. Amo esta desenvoltura de quem sabe que a casa também é sua.
Tu te vais quando finda o dia, mas continuas aqui nos sinais de tuas criações de menina e no encanto que me proporcionam e me mantém ligada à vida que está em ti.
Tu te vais e eu vou descansar, porque teu ritmo está diametralmente oposto ao meu. Fico pensando que essas diferenças se acentuam inexoravelmente dia a dia. Consola-me que são vagarosas e dão algum tempo.
Tu te vais e eu fico pensando no que tu estarias pensando nas tuas invenções. E são sempre variadas. E sempre surgem outras.
Tu te foste e, desta vez, deixaste as pulseiras que enfeitaram teus braços, tornozelos e pernas, enquanto vias um desenho na televisão e nos intervalos de outros brinquedos.  Com elas montaste um só círculo, segurando a ponta dos puxadores das cortinas da sala. Janela aberta e o vento a balançar tua criação. Fiquei curiosa sobre o que pensaste ao fazê-lo. Já nao estás para te perguntar.
Sempre essa palavra “pensar”. Como será o pensamento de alguém com menos de cinco anos? Talvez, já nem lembres mais do que fizeste. Tirei uma foto, memória de instantes felizes de minha vida contigo, mais do que memória de um teu brinquedo.
Quando voltares, no próximo domingo, vou te mostrar. Pressinto que uma semana é um tempo longo para ti. Tantas coisas te acontecem e incorporas! Eu já ando mais devagar e a rapidez me incomoda. Estou curiosa para ver como se falarão a minha e a tua memória...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quantos Laocoontes?


 Um homem descansa sobre os escombros de sua casa, agachado, olha em frente. Olha a tragédia do lugar? Usa o que lhe resta de razão para enfrentar a desrazão do acontecido? Talvez se dê um tempo para continuar a viver. Talvez, seu cérebro escaneie um liame para outro sítio com que se vincular e ir. Pensa.
Um homem perde quase toda a família e se pôs a trabalhar como voluntário no resgate de sobreviventes. Não pode parar, ele o confirma. “Há muito que fazer, há outras pessoas precisando de socorro.” Nega seu sofrimento ocupando mente e corpo em outro plano da tragédia à qual pertence? Segue um caminho. Faz.
Uma mulher se desespera diante de necrotério, braços a seguram e imobilizam.  Filhos desaparecidos, necessita ver os corpos lá dentro, é urgente olhar os rostos procurados. Necessita confirmar a morte deles ou a esperança de que ainda vivam. A fila de espera dos desafortunados é grande, outros marcham com as mesmas angústias.
Um grupo ilhado por lama e rio barrento, sem qualquer ponte, acena para helicóptero. No chão está escrito um enorme SOS, no ar braços se agitam, bocas gritam suas dores.
Casas destruídas, carros amontoados, árvores arrancadas, ruas, estradas, praças soterradas por lama e pedras. Geografia da cidade apagada como o foram dezenas de corpos sepultados. Muitos nem serão resgatados.  Reaparecerão muito depois nos brotos da nova vegetação na repetição infinita da vida.  Alguém se lembrará? Os parentes que ainda permanecerão por lá, por teimosia ou falta de opções.
Recortes de um quadro terrífico, distante ou próximo, mas evitável, como o foram inúmeras outras catástrofes.
O cenário lembra Guernica de Picasso, os quadros de guerra de Goya e tantos outros que registraram as dores de sua época. Mas lembra ainda mais forte uma obra de El Greco, tão atual quanto quatrocentos anos atrás quando foi pintada. Nela está Toledo ao fundo e, em primeiro plano, jogado ao solo, Laocoonte cercado por seus filhos, o sacerdote troiano que foi dilacerado junto com eles, por ter pressentido o perigo que o cavalo entregue representava para Tróia. Ocasionou-lhe a derrota frente aos gregos. O sacerdote foi acusado de sacrilégio, a cidade era inexpugnável e ele portador de mau agouro. Goya atualizou as perturbações de sua própria cidade através do trágico em Laocoonte.
            Hoje, nem Tróia, nem Toledo, mas a serra onde as cidades de Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras, construídas sobre encostas de exuberante vegetação, - os nossos Cavalos de Tróia - que deveríamos deixar intactas para não despertar deslizamentos, desabamentos, enxurradas, todos forças ali ocultas e revoltadas com nossa prepotência e irresponsabilidade.
Essas belezas que deveriam ser negadas à posse e à ocupação. Seus perigos foram pregoadas por nossos laocoontes, vozes de ambientalistas, moradores, técnicos ou sofredores de outras anunciadas tragédias. Continuariam belezas se poupadas, quais barrigas de cavalos presenteados, insurgem-se, abrem seu ventre e vingam-se. Derrotam-nos a todos.
            Hoje, “ultrapassamos” a civilização grega, não assassinamos os que preveem nossas gangrenas, tornamo-nos  cúmplices de outros assassinatos, daqueles que deixamos à mercê do que vai acontecer. As ciências não nos amparam e não nos fizeram aprender com a história, antiga ou recente. Usamos um esquecimento que teima em se trasmutar em novas tragédias, num ritmo cada vez mais acelerado tal como é a vida contemporânea.
Nosso oráculo é o consumo, máquina predadora do que resta de intocado na natureza e colhemos os frutos de nossa teimosia e infantilidade que não olham o passado como ensinamento, nem querem ver um futuro constantemente anunciado. Refugiamo-nos sob a asa da indiferença e da insensatez.
Quantos laocoontes ainda precisarão ressuscitar antes que consigamos escutar-lhes o aviso de nossa próxima destruição?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Associações

          Interessante como funcionam nossas lembranças. Tal como uma rede assimétrica de linhas que se cruzam, se afastam, se reconectam mais adiante, num emaranhado que parece, mas não é, absolutamente caótico. Pelo contrário, organizadas qual rede clandestina que só se mostra/dá a ver quando desbaratada. 

Estava eu lendo um artigo, imersa com prazer nos seus diferentes conceitos e exposições, quando surgiu a palavra tautologia. Tive dúvidas quanto ao seu emprego numa frase e busquei um dicionário.

No tempo que separou os atos de buscá-lo e encontrá-lo, lembrei-me, sem motivo consciente algum, de uma entrevista que fiz com um homem de mais de sessenta anos para um programa de alfabetização de adultos, o qual coordenava e no qual depositava muitas expectativas. Na ocasião, ele havia falado uma palavra que sua pronúncia e  minha total ignorância dificultaram-me a compreensão. Veio-me o desejo de lembrar tal palavra, mas não conseguia. Encontrei um dicionário etimológico, não era o procurado, mas mesmo assim folhei-o: T... Tábua... Taifa... e, antes de encontrar tautologia, lembrei de repente, com luminosidade, a palavra era tafona. Era essa a palavra: tafona. Desviei-me do primeiro propósito e procurei-a com certo gosto. Gosto da lembrança? Gosto daquela experiência de outrora? Não deu tempo de responder. Meus neurônios a recuperaram, mas não existia naquelas páginas. Ela não estava lá e sua ausência trouxe-me de volta ao presente, para o termo inicial procurado. Havia tautó=o mesmo.  
Fui em busca de tautologia no dicionário da língua portuguesa, perguntando-me o que haveria de conexão entre tautologia, que eu procurava, e tafona, que se interpôs intempestiva no curso do meu pensamento. Corte na cena, introdução de novo elemento. Talvez, algo mais que um dicionário possa me explicar, mas registrei significados encontrados. Tautologia: redundância, pleonasmo. Tafona (atafona): moinho, processamento de grãos.
Muitas coisas me vieram à cabeça, registro apenas uma: o inconsciente entende de semântica,  me fez remoer e repetir momentos prazerosos, na redundância do processamento de minhas lembranças. 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Espaços de subjetivação criativa

 O ato de criar pressupõe sujeitos em sua singularidade.
Dudamel, jovem regente venezuelano de menos de 29 anos, exerce um poder insólito sobre seus músicos com uma liderança que inspira a fazer música. Não é autoritário, usa metáforas para conduzir os integrantes da orquestra. Diante de passagem ruidosa durante um ensaio, disse aos músicos que tocassem como duas crianças apaixonadas, correndo peladas por um bosque.
Dimenstein escreve sobre cursos que oferecem a oportunidade de aprender, sem provas  ou pressões de competição e, sim, pelo prazer de construir um conhecimento que dê satisfação a quem se propõe a estudar o que lhe é oferecido. São espaços que promovem, não um prazer hedonista, mas um prazer advindo do esforço de superar-se.
Em ambos os exemplos, são antevistas relações interpessoais peculiares. Nada a ver com o perigo de ser reprovado ou excluído. A invocação é o aparecimento do que o próprio sujeito pode trazer à tona. É o prazer de ultrapassar os próprios limites que é despertado. É a possibilidade de criar que é provocada.  
Num caso, a paixão pelo que é feito  e, no outro, o aceno da satisfação de abrir os horizontes do conhecimentos. Em ambos, o prazer de viver um tempo suspenso das correrias e urgências de um mundo contemporâneo. Embora, no primeiro, o foco seja a criação artística na excelência da execução musical e, no segundo, uma construção intelectual acadêmica, em ambos há a necessidade de uma atitude interna do fazer e não a pressão externa como espada a julgar o resultado. Evidentemente, o externo existe, seja o público que ouvirá a execução da partiruta, ou o local onde serão utilizados os conhecimentos interiorizados. Vive-se com o outro, seja o companheiro mais próximo, seja a sociedade mais ampla da qual se depende em alguma medida. Evidentemente, pressupõe-se um resultado, uma competência, uma materialização dos esforços que serão partilhados de alguma forma com o público. O que está em questão nos casos apresentados, no entanto, é a priorização da potencialidade do sujeito de compreender, comunicar, fazer ou produzir. Ou seja, um modo diversoo de inserção do sujeito na atualidade.
Sem dúvida, em qualquer dos dois casos, existirá em algum momento e em algum grau o temor de não dar conta da tarefa, mas como sentimento primitivo inerente à constituição do ser humano e à responsabilidade com a tarefa que cada um assumiu, mas não como caminho skinneriano do prêmio ou castigo, próprio de uma sociedade competitiva e predadora que predomina.
Enfim, a constatação da diversidade e complexidade do mundo. Simultaneamente à premência de respostas imediatas, modos de subjetivação massificada e narcísica, este mesmo mundo produz espaços de subjetivação em que a diferença, a singularidade e a criação possam se produzir.
Quem sabe, um dos tantos caminhos possíveis para relações de respeito à diferença e criação do outro, em contraponto à sociedade de massas propiciadoras de preconceitos, desrespeito e violência.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Reinado absoluto


Tumor

A construção de um espigão (alô menores de trinta - espigão é um nome pejorativo para prédio muito alto!!) no fundo do meu quintal, ensejou esse desenho, que revela toda a minha boa vontade com a especulação imobiliária!  Santiago

 ...................................................................

           As imagens de publicidade de empreendimentos imobiliários primam pelo egocentrismo, nada ao redor se lhes compara. Como espelho, o solipsismo de alguns construtores permite mostrar e vender a idéia de espigões como se tudo nas proximidades fosse menor, insignificante, distante ou invisível.
            Ao redor da imagem de um prédio em venda, já construído ou na planta, é mostrado o que o futuro morador mais gostaria de ter ao seu dispor, um céu azul luminoso com, no máximo, alguma inofensiva nuvem branca ou um belo pôr-do-sol, verdes variados, flores, ausência de tráfego, crianças brincando, adultos sorrindo. Enfim, imagens idealizadas de um mundo organizado e tranqüilo, como todos merecem.
            Da perspectiva das janelas dos apartamentos, sempre se veem construções mais baixas, entremeadas de plantas, o que permite uma visão ampla, e, às vezes, até um horizonte distante, sobre longos espaços ocupados por prédios pequenos. Imagem de cidade bem planejada, com urbanização racional, sem ocupação vertical desordenada com construções altíssimas a disputar sol e ar.
            Tudo o que a construção em venda provoca é suprimido, a sombra que ela faz no entorno, o congestionamento de carros que virá, a vegetação que ali foi derrubada, enfim, o impacto ambiental e de vizinhança que ela causa. As ofertas, no entanto, são aliciadoras. Os clientes acabam cúmplices desse tipo de propaganda, pois os negócios são feitos.  Se cada comprador fica satisfeito, os efeitos posteriores dessa luta autofágica parecem não criar qualquer culpa em ninguém. O futuro não interessa. O pseudo bem-estar de cada um é o que conta, parte dele à custa do isolamento de cada unidade.
Mastros do concreto, tal como são construídos na cidade, não poderiam existir, se as regras fossem as de preservação da qualidade de vida dos seus habitantes. Uma engrenagem perversa é colocada em movimento e todos acabam compactuando com uma urbanização que vai dificultando inexoravelmente a existência nas grandes cidades.
É o caso da torre de cerca de cinquenta metros de altura que está sendo construída em local onde predominam casas e prédios pequenos e onde, até alguns anos atrás, era um terreno destinado a praça pública. Houve compensação, o poder público é "incrivelmente sensível" a estas questões, a área de especial interesse cultural e ambiental, foi substituída por uma pracinha do outro lado da rua, que, por sua vez, estava destinada a uma escola municipal. Esta, consequentemente, não mais será construída. Tudo em nome do progresso e da preocupação com a comunidade.
O espigão reinará absoluto, derramando sombras no entorno, qual manto real. Azar das casas e outros edifícios menores que tiveram a “má sorte” de estar no perímetro de seu reinado.
Tudo dentro do que é legal, o plano diretor da cidade permite, não se pode emperrar a oferta de moradias, principalmente as de melhor qualidade.
Quem se importa?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Miragem





Um sábado de inverno, úmido e frio. As pessoas iam chegando aos poucos e se aproximando umas das outras Os cumprimentos, os abraços e os sorrisos mostravam um prévio conhecimento de si. A familiaridade com o lugar emergia da liberdade dos gestos e da desenvoltura dos movimentos. Batidas nas costas, sorrisos, beijos e abraços comedidos, no padrão de solenidade. O ponto de encontro era a calçada de uma das ruas mais badaladas da noite da cidade. Os bares estavam fechados àquela hora e o espaço à sua frente, livre para a manifestação. Autoridades da governança municipal tomavam posto para o evento. Folderes da secretaria do meio-ambiente circulavam com a apresentação de suas atividades. Pequenos grupos conversavam tranqüilos à espera dos previsíveis discursos. Não fosse o lugar, pensar-se-ia que as mulheres tinham se arrumado para uma festa: maquiagem, cabelo tratado e penteado, roupas de griffe. Homens com camisa e paletó. Pensando melhor, vestimenta corriqueira, para quem está acostumado a ter em excesso e nem se dá conta disso. Entre eles, sem saber de onde, apareceu um menino de uns oito ou nove anos, o bracinho coberto de panos de prato como um garçom. Com algumas palavras oferecia-os, abordando um e outro, em vão. A alvura do tecido contrastava com o tom cinza do ar, carente de sol, com os tons escuros das roupas de inverno dos que ali estavam e com o marrom das umedecidas pedras do chão Ele foi ignorado mesmo nos instantes em que sua oferta conseguia captar o olhar desfocado dos que interrompiam a conversa. Invisível naquele espaço em que as pessoas estavam reunidas para algo muito importante. Todos ali foram convidados a celebrar o tombamento de túneis verdes do bairro. Estavam felizes por testemunhar a vitória da comunidade na preservação de espaços que preservariam um modo de ser e de viver. Aquela gente conseguira do poder público o reconhecimento de sua vontade. O próprio prefeito e o presidente da câmara de vereadores estavam ali para congregar-se no local e para festejar em solidariedade. Era uma vitória memorável. Respeito a um direito da população, era o que todo cidadão consciente defendia. E, ali, isso estava sendo comemorado. Apenas a indiferença a qualquer outro interesse parecia deixar espaço. Nada visível perturbava o sacrossanto espírito daquele congraçamento. O menino circulou, sem incomodar ninguém, porque ninguém o escutou. Um toque no braço de alguém e o olhar pedinte de seus olhinho mal provocaram uma rápida negativa com a cabeça. As conversas continuaram. Alguns sequer se aperceberam de sua presença, ou fingiram não perceber. Constrangimento, talvez? Ele passou como brisa que não muda a temperatura do lugar. Ele não estava ali para comemorar, o que fazia marcava a distância entre o viver de uns e o seu sobreviver. Para ele, pessoas eram a possibilidade de vender algum dos panos que carregava. Elas, as pessoas conscientes, se compraziam com o que haviam conseguido. Nos panos, estampas de flores, frutas e cumprimentos para cada dia da semana, desenhavam um outro mundo. As flores dos panos nada tinham a ver com as flores das árvores dos túneis preservados. Árvores que protegiam do sol de verão, que ofereciam cores diversas de acordo com a estação do ano. O violeta, o branco, o amarelo, dos panos não lembravam as flores que tinham pintado aquelas árvores até o outono recente. Mundos tão diversos na igualdade das cores! Menino e grupo, livres para caminhar na mesma calçada, sob as mesmas árvores, mas presos a mundos tão distintos. Quais seriam os sonhos de um menino que vende panos de prato? Menino e grupo, diferenças que poderiam se entrelaçar num inexistente gesto solidário. Grupo feliz a festejar a nobre conquista do bairro e a vitória da preservação da natureza. O menino viu no grupo uma possibilidade de vender sua mercadoria. Qual miragem no deserto, o menino não conseguiu alcançá-lo, só ele enxergou as pessoas que foram desaparecendo em pouco tempo, finda a cerimônia. Sobrou-lhe a continuidade de seu caminhar no deserto úmido.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Oráculo para Sakineh



Não és a única injustiçada, monstruosamente injustiçada, mas és a que representa a todos os injustiçados. Tua fotografia é levada por tantos lugares, desenhando ondas imaginárias de lágrimas reais derramadas por olhos escondidos pelo medo e pela impotência. Não se pode deixar perder tua existência na desesperança, é preciso buscar o oráculo, aquele que as letras de teu nome encerram.

Sim, as letras sempre encerram um sentido, um clamor, um hino. São as mesmas para todos os nomes, mas as combinações são equações únicas. Essas combinações são a marca de cada um.

Teu nome começa com S e no dicionário analógico encontra-se o primeiro vocábulo S.O.S., indicação de perigo, de alarma, de sirene. As chibatadas que levaste gritaram um pedido de socorro que girou o mundo muitas vezes. O perigo continua, teus algozes bufam, porque obrigados a recuar, iam te apedrejar e não puderam fazê-lo. Muitas vozes se uniram e mantem o grito. Grito que suspende a mão que te quer tirar a vida. Indignação que exacerba o algoz. Não se sabe o tamanho da insanidade. É preciso continuar a gritar e inventar novos gritos em corrente contínua, sem cochilos.

A indignação que conquista novas vozes, está próxima de ti, com certeza a sentes de alguma forma, porque teu nome encerra tantos outros significados e predições.

O A que segue o S nos dá a coisa acrescentada, o adjunto, o agregado, o cortejo. São as assinaturas, os e-mails, os telefonemas, as vozes cúmplices, as súplicas e exigências em longas filas a açodar a besta.

Dúvidas e esperanças, combustível para continuar.

O S colado ao A nos dá a primeira sílaba de saber, o saber do mundo que não te quer mártir, te quer viva, justiça materializada a iluminar o caminho dos outros que ainda não a alcançaram.

K de kidush traz o rito, que poderia ser o da redenção pelo respeito à vida. No entanto segue-lhe o I de iadogã a encerrar o poder espiritual do clero que, naquele país onde vives, no momento é ameaça.

 Vem a seguir o N de N.B., atenção e assentimento para uma boa notícia, é o desejo  que vem com o anúncio da primavera. Colado vem o E, uma conjunção, de adição à última letra H, esta de habanera, música, linguagem dos sons que se fazem ouvir em teu favor, arte em defesa da vida que propõe um habeas corpus  invocando o imperativo, a afirmação da urgência de te deixarem ir.

Fecha-se a composição das letras. Elas desenharam uma transcendência que não depende da decisão dos homens. Eles subjugam apenas o teu corpo. Aconteça o que acontecer tua trilha não pode ser apagada.
 Escrito em 02\09\2010